Victor Otsuka
Victor Otsuka

'O público dá comandos e interage nas soluções', conta Pedro Granato sobre sua nova peça

'Descontrole Público' se inspira nos jogos de videogame para fazer trama influenciada pelos espectadores

Dirceu Alves Jr., Especial para o Estadão

20 de agosto de 2021 | 05h00

O diretor Pedro Granato ocupa há oito anos um ponto da Rua Teodoro Baima, ladeado pelos ilustres vizinhos do Teatro de Arena e da Companhia do Feijão. Identificado como Pequeno Ato, o espaço também empresta o nome para a companhia criada pelo artista que, desde 2015, com a peça Fortes Batidas, aprofunda pesquisas em torno da imersão cênica. Na montagem de estreia do Núcleo Pequeno Ato, um grupo de jovens fervia em uma balada e, borrando limites entre ficção e realidade, o público era estimulado a cair na pista, além de trocar olhares e até carinhos com quem estivesse por ali, sem identificar exatamente se eram atores ou outros espectadores.

A proposta imersiva ganhou força com os espetáculos Onze Selvagens (2017), em torno da polarização política, e Distopia Brasil (2019), sobre abusos da fé capazes de castrar liberdades individuais e coletivas. A pandemia que se arrasta há quase um ano e meio, porém, poderia ter destruído qualquer ideia imaginada pela turma do Núcleo Pequeno Ato, afinal se é desaconselhável juntar pessoas em um mesmo ambiente imagina com interações.

Só que Granato não entregou os pontos e, depois de Caso Cabaré Privê, misto de musical e suspense lançado há um ano no modelo digital, radicaliza em Descontrole Público, que estreia nesta sexta, 20, às 21h, por meio da plataforma Sympla. A temporada segue 5 de setembro, com ingressos a partir de R$ 20 e sessões nas sextas e sábados, às 21h e 23h, e domingos, às 19h e 21h. Desta vez, a inspiração veio da estética dos videogames. O espectador interfere na trama como avatares, identidade digital assumida na transmissão através de comandos de voz.

Os personagens interpretados pelos vinte atores do elenco de Descontrole Público, dramaturgia de Beatriz Silveira e Felipe Aidar, poderiam estar na mesma festa de Fortes Batidas. Trata-se de um grupo recém-vacinado que, depois de tanto tempo isolado, aluga uma casa para se divertir em um primeiro encontro presencial. Muitos deles desejam viver intensamente tudo o que foi perdido, e conflitos éticos e pessoais se instauram em meio ao bom senso de uns e a irresponsabilidade de outros. 

Seis cenas se desenvolvem simultaneamente em meia dúzia de salas, e o espectador escolhe um grupo para acompanhar e o personagem a manipular. “Esse espetáculo nasce de uma vontade de sacudir o cara que está sentado na frente do computador assistindo às peças online”, afirma Granato.

Em uma das cenas, por exemplo, uma garota que nunca viveu uma experiência homossexual recebe a cantada de uma colega e, na outra, uma jovem flagra um sujeito abusando de uma amiga desacordada e precisa tomar alguma atitude. “E, assim, o público dá comandos e interage nas soluções, como um coautor da dramaturgia”, explica o diretor.

Uma das preocupações do Núcleo Pequeno Ato é a formação de plateia, e Granato voltou sua pesquisa para decifrar o que pode ser atraente para uma faixa etária jovem e raramente vista nos teatros. “Temos uma fatia enorme da sociedade diante das telas, precisamos conquistá-la”, declara. Na visão do artista, porém, a classe teatral é pouco aberta às adaptações e, mesmo diante das produções digitais, contam-se nos dedos os preocupados em criar provocações. “Um dos raros consensos é de que teatro filmado fica muito ruim e, quando fomos desafiados a buscar um novo lugar de comunicação, todo mundo correu para gravar suas peças e, depois, exibi-las na internet... Eu não entendo isso.”

Em fevereiro de 2019, um ano antes de a ameaça pandêmica dar sinais, Granato foi um dos diretores participantes do projeto Babylon – Beyond Borders. O espetáculo tecnológico, que reuniu artistas do Brasil, Estados Unidos, Inglaterra e África do Sul, foi encenado simultaneamente nestes países e transmitido em vídeo pela internet. “Existe muito espaço para ganhar, e o teatro precisa responder ao seu tempo. Se Caso Cabaré Privê já era considerado aberto, em Descontrole Público toda interação pode mudar os acontecimentos”, avisa. “Precisamos apurar a linguagem digital para montar peças que, mesmo depois de uma poderosa volta do presencial, poderão encontrar seu formato ideal no online”, completa o encenador, demonstrando que seu teatro já se estende para muito além dos limites do endereço da Rua Teodoro Baima. 

DESCONTROLE PÚBLICO

6ª E SÁB., À 21H E 23H; DOM., ÀS 19H E 21H. ATÉ 5/9. A PARTIR DE R$ 20 – VENDA INGRESSOS E ACESSO À TRANSMISSÃO: SYMPLA.COM.BR/PEQUENOATO

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