Rodrigo Menezes/ Divulgação
Rodrigo Menezes/ Divulgação

‘O Pequeno Príncipe Preto’ chega aos palcos com sua aula de empatia e coletividade

Baseada no clássico de Saint-Exupéry, peça chega a São Paulo depois de ter sido vista por mais de 10 mil pessoas no Rio de Janeiro

Roberta Pennafort, O Estado de S. Paulo

02 Novembro 2018 | 18h20

Sucesso no Rio de Janeiro, assistido por mais de dez mil pessoas em quatro meses, o monólogo O Pequeno Príncipe Preto causou uma revolução nas plateias de teatro infantil: em geral quase todos brancos, os espectadores do espetáculo são majoritariamente negros. A história do príncipe que viaja o universo espalhando mensagens de amor, empatia e tolerância, e exaltando a cultura nascida na África, acabou por aplacar uma demanda reprimida de quem não se vê representado nos palcos, conta o ator e idealizador da peça, Junior Dantas.

“É um espetáculo de empoderamento. As crianças negras nunca tiveram um super-herói negro para se espelhar. O mundo lhes diz: ‘o seu cabelo é ruim, a sua cor é feia’”, comenta Dantas. “Elas saem achando que podem ser tudo o que quiserem. Os pais dizem: ‘por que esse espetáculo não existia 30 anos atrás, quando eu era criança?’ Os abraços que recebo são muito fortes. Às vezes fico mais tempo com o público na saída do que fazendo a peça. A gente tem que se unir cada vez mais, se aquilombar. Os racistas não surgiram agora, mas estão saindo do armário.”

Foi dele a ideia de criar um príncipe negro, com novas referências, a partir do clássico universal de Saint-Exupéry de 70 anos atrás. Ele partiu de um episódio que marcou sua vida: aos sete anos, na sua cidade natal – Ipueira, no Rio Grande do Norte –, Dantas queria ser o príncipe de um montagem teatral. Mas a professora lhe disse que ele não podia, porque príncipes eram louros. “Eu olhava na televisão e realmente os príncipes eram todos louros. Cresci com isso”, rememora.

Tendo por companhia um baobá agora sagrado, o Pequeno Príncipe Preto esbanja autoamor, e se orgulha de seu nariz, seus lábios e seu cabelo – “ele é crespo, não é ruim! Não fala mal de ninguém”, ele descreve, para risadas da plateia. Ao se ver numa situação de competitividade, reflete: “Como posso ficar feliz de ganhar, se outros vão ficar tristes por perder?”

A palavra que mais repete é ubuntu – a filosofia africana que quer dizer “eu sou porque nós somos”, ou seja, “a sua dor é a minha dor”, “as nossas existências estão interligadas”. Uma aula de empatia, generosidade e senso de coletividade que as crianças assimilam com facilidade, embalada com música (violão, violoncelo e percussão tocados ao vivo) e num cenário todo de papelão.

Desde a estreia, o autor e diretor, Rodrigo França, tem percebido que a peça aplaca a carência dos espectadores negros por este tipo de representatividade. “Somos 54% da população, mas não estamos representados em muitos setores da cultura. Não se fala da nossa ancestralidade, da África da realeza. Nas escolas, a África é mostrada como um lugar da dor e da pobreza, e quando se fala de escravidão”.

O espetáculo já foi encenado em escolas públicas e em favelas, como o Complexo da Maré e a Cidade de Deus. Em São Paulo, haverá apresentações no Sesc Bom Retiro (até amanhã, 4), Sesc Ribeirão Preto (dia 10), Sesc Campinas (dia 11), Sesc Jundiaí (dia 15) e no Teatro Municipal de São Paulo (dia 20).

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