Sérgio Ferreira
Sérgio Ferreira

'O Matrimônio Secreto' mistura moda e cultura pop

Ópera está em cartaz no Theatro São Pedro

Sergio Amaral, O Estado de S.Paulo

06 Maio 2018 | 06h00

Uma ópera clássica, O Matrimônio Secreto, do italiano Domenico Cimarosa, em uma versão nada convencional, com influência de elementos de moda e cultura pop, abre a programação lírica do Theatro São Pedro. Sob a direção de Caetano Vilela, o espetáculo que estreou na última sexta, 4, tem uma reapresentação neste domingo, 6, às 17h, outras três até domingo que vem, e é tudo o que você não espera de uma encenação do tipo, especialmente no que diz respeito ao visual, rico em singelas transgressões.

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A primeira delas? A ausência de cortinas que deixa à mostra o casarão onde se desenrola a trama, embrulhado em plástico bolha e arrematado por um enorme laço de dezenas de metros de fita vermelha. É nessa residência que vive o velho comerciante Geronimo, com aspirações sociais que só o dinheiro não proporciona, e sua família. Ele oferece um dote ao conde Robinson para que se case com sua filha mais velha, Elisetta. O nobre, entretanto, se interessa pela filha mais jovem, Carolina, que por sua vez está apaixonada por um funcionário do pai, Paulino, com quem se casa secretamente para tristeza de tia solteirona, Fidalma, que nutre uma paixão pelo moço.

Ambientada na Bolonha do século 18, a montagem não tem cara de época. Ou melhor, tem. Só que de várias delas pós-modernamente misturadas, uma coisa que fica evidente nos figurinos de Fause Haten.

No guarda-roupa do espetáculo entram vestidos com perfume de fim do século 19 da tia Fidalma e modelos românticos à la E o Vento Levou… da filha mais nova, Carolina. E mais: tênis All Star e uma jaqueta perfecto com cauda emulando um fraque, com direito ao nome do personagem que a veste, Paulino, bordado nas costas, uma combinação de alfaiataria, rock e streetwear que é tendência na moda masculina de hoje. 

“Como é uma ópera cômica, com seis cantores e sem coro, é quase uma peça de teatro”, explica Caetano. “Queria valorizar esses elementos, queria que Fause fizesse um desfile mesmo, que apresentasse os personagens cena a cena para que isso desse mais vida a eles e que fossem trabalhados de forma cômica”, diz o diretor. 

Da troca de informações entre o diretor e Fause, foram brotando outras ideias. “Propus fazer um casaco inteiro de flores para o conde e ele sugeriu que tirássemos uma flor do casaco para ele entregar a Carolina, por exemplo. Isso foi acontecendo e é um trabalho ideal, em que o figurino entra com uma assinatura clara, mas a serviço daquela obra”, conta o estilista.

Foi ele quem acionou o visagista Eduardo Von Gomes. Brasileiro, o responsável pela caracterização dos personagens e pela confecção das perucas esculturais, propositalmente exageradas, usadas em cena. “Nunca vi tão coloridas nem com penteados tão grandes em uma ópera”, confessa Eduardo, que trabalha numa casa de operetas em Viena. Em contraponto ao visual barroco das personagens, o cenário da arquiteta Duda Arruk, em tons neutros e clarinhos, é minimalista em cores e elementos, deixando que a roupa aconteça em cena.

A direção musical é da regente italiana Valentina Peleggi, primeira de seu país a ingressar num programa da Royal Academy of Music de Londres, que investe em marcação livre nas partituras e em três pilares vocais exigidos pela obra: leveza, elegância e fantasia. Três ingredientes que completam o caldo de referências saboroso da montagem pop-fashion-moderna de Caetano.

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