Susan Farley/The New York Times
Susan Farley/The New York Times

O jantar não é mais servido: o teatro que construiu carreiras já não existe

O Westchester Broadway Theater era um dos últimos teatros com jantar profissionais do país

Sarah Bahr, The New York Times

26 de novembro de 2020 | 14h00

Foi uma noite de encerramento no Westchester Broadway Theater como nenhum outro. A marquise ainda tinha o letreiro “All Shook Up" (da letra de uma música de Elvis Presley). Mas o palco estava nu, com exceção das pilhas de lâmpadas, e o público era escasso – cerca de cem pessoas, muitas delas ex-atores, membros da equipe e fãs. Eles levaram holofotes, cartazes, toalhas de mesa e impressoras para um leilão que durou mais de dez horas, na semana passada. Tudo precisava ser vendido.



Bill Bateman, que apareceu em dez espetáculos no velho teatro com jantar de 46 anos, veio de Manhattan para relembrar, ao lado de outros em uma reunião de família que era ao mesmo tempo um funeral. “Eu queria dizer obrigado a vocês”, ele disse mais tarde. “Este foi um local fabuloso para se trabalhar durante tantos anos. Você precisava fazer aquilo de que gostava, mas também ganhar o seguro saúde, pagar o aluguel e dormir em sua própria cama à noite. Este é um dia muito triste”.

Não era o típico final feliz que costumava encher os palcos do teatro, onde musicais de Show Boat a 42nd Street (Rua 42) a Newsies (Extra! Extra!) divertiram avôs e netos.

No começo deste mês, a pandemia baixou as cortinas do Westchester, de 450 lugares – um local que ajudou a deslanchar as carreiras de ganhadores do Tony Award como Susan Stroman, John Lloyd Young e Faith Prince – e agora, um dos maiores teatros do país a fechar em caráter permanente, deixando cerca de 100 funcionários sem trabalho.

E, depois do anúncio repentino de um leilão que proclamava a venda “até ficarem as paredes nuas”, não há qualquer esperança de um renascimento. O espaço será esvaziado e transformado em armazém.

Bill Stutler, um dos dois fundadores do teatro, sonhava em ser diretor de cinema. Um colega lembra dele recordando com carinho de uma excursão do teatro com jantar enquanto ele visitava os pais em West Virginia, em um Natal. Depois de ser demitido do emprego de executivo de publicidade, ele decidiu abrir seu próprio teatro em Elmsford, um bairro de Nova York, que uniria comida e entretenimento a um preço que nem só acionistas da Bolsa poderiam se permitir.

Não importava que em 1974 o país se encontrasse no meio de uma recessão, na época a mais profunda desde a Segunda Guerra Mundial. Ou que os custos da startup chegariam no mínimo a US$ 400 mil. Ou que os moradores tentariam fechar o teatro antes que deslanchasse porque temiam que Stutler estivesse construindo um clube de strip tease (William Hammerstein, o filho do letrista Oscar Hammerstein II, ajudou a acertarem as contas quando passou a fazer parte da direção do teatro).

Com o amigo chef Robert J. Funking, ele construiu An Evening Dinner Theater – posteriormente rebatizado Westchester Broadway Theater – uma instituição que não só sobreviveria, como prosperaria, empregando milhares de atores, funcionários, ajudantes de palco, produtores em mais de 200 musicais e peças, gerando US$ 8 milhões de receitas anuais.

Ele se tornou o teatro que mais produzia o ano todo em Nova York, dando trabalho a membros da Actors’ Equity Association, o sindicato que representa 51 mil atores de teatro e diretores de palco. Rob Marshall, que posteriormente dirigiu a adaptação cinematográfica de Chicago, ganhadora de um Oscar, trabalhou ali. Assim como Estelle Harris (Seinfield) e Will Swenson (Hair). Nas noites em que não havia espetáculo, apresentavam-se comediantes famosos como Wanda Sykes e Lewis Black no início de suas carreiras.

Mas então chegou a pandemia – e uma ordem das autoridades para fechar em março. Em uma nota aos clientes anunciando o fechamento inicial, Funking e Stutler prometeram que os detentores de ingressos teriam crédito para uma futura apresentação e uma bebida gratuita, antecipando um tempo em que “todos juntos brindaremos ao retorno à normalidade”.

Mas ficou claro que a normalidade não chegaria tão cedo. “Não poderemos ser uma empresa lucrativa se ficarmos fechados e parece improvável que algum teatro ao vivo seja aberto no futuro previsível”, escreveram em um e-mail os três proprietários Stutler, Funking e a esposa de Stutler, Von Ann, no dia 3 de novembro, dirigido aos frequentadores em que anunciavam o fechamento definitivo.



Todos os teatros americanos estão sofrendo, mas os teatros com jantar enfrentam um prognóstico particularmente sombrio. O Westchester Broadway Theater era um dos últimos dez teatros com jantar do país a empregar atores sindicalizados. Mas Denise Trupe, a presidente da Associação Nacional dos Teatros com Jantar, uma organização de 22 profissionais locais constituída em 1978, disse ainda que ficou surpresa ao ouvir falar do fechamento. Embora haja menos teatros com jantar agora do que durante o pico nos anos 1970, os que continuam, e são dezenas, deverão contar com assinantes leais.

Embora muitos dos antigos astros do teatro Westchester tenham perdido o contato com a instituição, a reação ao seu fechamento foi de surpresa – e tristeza.

Stroman coreografou Gypsy e Sugar Babies no teatro, no fim dos anos 1980, antes de prosseguir com uma carreira que inclui cinco Tony, por The Producers, e outros espetáculos. Ela disse que nunca esquecerá da generosidade de Stutler e Funking quase de 40 anos mais tarde.

“Eles foram abertos a ponto de me dar a chance quando eu era uma jovem coreógrafa sem um nome nem créditos", ela contou. “Serei para sempre grata”.

Swenson estreou no Westchester no papel principal da produção do teatro de Jekyll & Hyde, em 2001. Ele se apresentava nas matinês, o seu primeiro emprego de ator profissional depois de mais de seis meses de testes.

“Tirei um peso de cima de mm”, ele disse. “Passei a ter seguro, e um cheque semanal, que me ajudou a não me sentir um fracassado”.

Os atores que trabalhavam lá afirmam que o lugar foi mais do que um trampolim. Foi o lar artístico de atores com créditos na Broadway que queriam trabalhar sem sair da cidade, o que lhes possibilitava obter a carteira de membro da Associação Nacional de Atores e o seguro saúde.

Robert Cuccioli, que estreou no Westchester na peça Phantom, de Maury Yeston e Arthur Kopit, disse que o ambiente familiar foi uma razão pela qual ele continuou a trabalhar lá ao longo de uma carreira que o levou à Broadway inúmeras vezes. Stutler e Funking, ele disse, eram inabalavelmente leais, e adiaram a estreia da produção do Phantom por um mês, depois que ele quebrou o pé na pré-estreia

“O fato de eles esperarem que eu melhorasse para abrir significou muito para mim”, afirmou. “Eles me trataram como um filho ou um irmão. Foi algo muito especial”.

Muitas das cerca de 5 mil pessoas empregadas no teatro ao longo de seus quase 50 anos de vida não estavam debaixo dos holofotes, e incluíam ajudantes de palco e empregados comuns. E a ligação durou gerações.

Steve Calleran, o apresentador do programa de 72 anos e gerente da noite, trabalhou quase 35 anos no teatro. Lá ele conheceu sua esposa em 1975, e suas duas filhas trabalharam ali como funcionárias.

Na noite em que anunciaram o fechamento, os proprietários calcularam que mais de 6 milhões de espectadores assistiram aos espetáculos, cerca de 200 dos quais enviaram mensagens calorosas na página do Facebook do teatro.

Mas Calleran, que atualmente deixou de trabalhar pela primeira vez em dezenas de anos, não culpa Stutler e Funking pelo fechamento. “Eu sei que eles fariam todos os esforços para continuar abertos”, afirmou.

E Cuccioli disse o seu medo era que o teatro fosse a primeira pedra do dominó a cair. “Sei de outros teatros que estão com dificuldades”, afirmou. “Só espero que algo possa ser feito para estancar a sangria”.


 TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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