FILIPE FERREIRA
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O diretor português Tiago Rodrigues estreia na MITsp com peças que desafiam a natureza do teatro

Encenador comentou a força da memória em 'Sopro' e 'By Heart' na programação da Mostra Internacional de Teatro de São Paulo, e deve estrear novo peça inspirada em políticos autoritários, de Portugal, EUA e Brasil

Leandro Nunes, O Estado de S.Paulo

04 de março de 2020 | 07h54

Misturar realidade e invenção sempre foi o negócio de Tiago Rodrigues. Quando o diretor português olhou para Claudia Vidal, o ponto do Teatro Nacional D. Maria II, de Lisboa, ele viu nela um espetáculo inteiro. O ponto, um ofício quase extinto no mundo, é o trabalho de “soprar” as falas para os atores que se esquecem do texto. “A sensação é de que ela era um ser mitológico, um dinossauro”, diz Rodrigues, em entrevista ao Estado, por telefone. 

Fruto desse encontro, o espetáculo Sopro estreia na 7.ª edição da Mostra Internacional de Teatro de São Paulo (MITsp), que vai de 5 a 15 de março. Em cena, um conjunto de atores trabalha arduamente com outro time de “sopradores” para trazer clássicos da dramaturgia, de Chekhov e Racine a Molière. A peça pode ser vista nos dias 13, 14 e 15, no Teatro do Sesi. “Eu estava ensaiando outro espetáculo quando me deparei com o trabalho de Claudia, que atua como ponto há 30 anos. Além dela, só há outro profissional em Portugal. Quando percebemos, isso muda uma sociedade.”

Rodrigues estará em São Paulo em dose dupla. Seu apreço pela memória se estende para By Heart, também na programação da MITsp, nos dias 10, 11 e 12, no Teatro Faap. A peça é um desafio ao público. “Convido dez pessoas para testarem sua memória ao decorar trechos de autores como William Shakespeare, Boris Pasternak, Ray Bradbury e George Steiner”, conta. 

A inspiração para o trabalho vem da relação do diretor com a avó, Cândida. A anciã era uma cozinheira e leitora de carteirinha. Com os livros recebidos de presente dos netos, ela costumava pôr a mente para trabalhar decorando trechos. “Enquanto falamos com o público, vou relembrando dessa relação com ela.”

A incursão criativa de Rodrigues tem trajetória. Antes de Sopro e By Heart, o diretor fez experiências radicais como passar 14 horas por dia como aprendiz de uma cozinha três estrelas do Guia Michelin. Dessa vivência nasceu a peça O Que Se Leva Dessa Vida. “Queríamos falar sobre comida e, como analogia, o teatro. A comida é criação, a partir de muita pesquisa e esforço.”

Na trama, Rodrigues e o ator Gonçalo Waddington são donos de um restaurante chamado Cópia e estão decididos a criar um prato mais que premiado. Na estreia, o cenário realista levou uma alta cozinha para o palco. “Como o teatro, a comida é feita para alguém que vai comer, e é tão efêmera quanto o trabalho apresentado no palco”, explica.

Filho de jornalista, o diretor atuou por certo tempo na imprensa e é de lá que veio a inspiração para Se Uma Janela Se Abrisse. Na forma de um noticiário ao vivo, um grupo de atores recria novas vozes para coberturas televisivas. “Eles são como pianistas de cinema mudo. É uma forma de pensar o teatro em sua força transgressora, que vai além do discurso político.” Para ele, a linguagem tradicional da comunicação ganhou um caminho alternativo no espetáculo. “O pensamento na cena pode avançar, tomar outras vias e surpreender, criando reflexão.”

O projeto manifestou tanto interesse que o apresentador da TV estatal portuguesa João Adelino Faria, um dos mais emblemáticos e tradicionais, topou participar de gravações para a peça. “Algumas cenas foram gravadas para compor esse nosso telejornal apresentado ao vivo.”

Em entrevista ao Estado, o diretor artístico da MITsp, Antonio Araújo, ressalta que Rodrigues já estava na mira da mostra nas edições anteriores. “Ele concebe trabalhos que usam a memória como força, na superação de opressões políticas e sociais.”

Relevante. A 7.ª edição da Mostra Internacional segue uma grade não tão diferente do ano passado. O que não muda, infelizmente, é a “cultura do último minuto”, segundo Araújo – ou seja, produzir o evento em cima da hora. Para ele, algo que pode “matar a MITsp”. De acordo com diretor artístico, a Mostra já é capaz de figurar como festival relevante no mapa das artes cênicas na América do Sul, mas não se compara ao planejamento de suas irmãs, o Santiago a Mil, no Chile, e o Festival Internacional de Buenos Aires, na Argentina. “Apesar do tamanho, eles conseguem antecipar dois, três anos, o que pode nos ajudar com uma curadoria possível, sem tantos imprevistos.”

Nesta edição, as 13 produções, vindas de Portugal, Reino Unido, França, Alemanha, Suíça, Ruanda, Chile e Índia, vão compartilhar espaço com a 3.ª edição da MITbr, uma seleção nacional com doze espetáculos, de Fortaleza, Paraná, Piauí, Amazonas, São Paulo, Bahia, Pernambuco e Minas. A maioria é inédita na cidade. 

Entre os destaques, estão a peça Stabat Mater, da atriz e diretora Janaina Leite – uma das produções mais contundentes que estrearam na capital no ano passado; e Gota D’Água {Preta}, que, a partir da obra de Chico Buarque e Paulo Pontes, é revisitada pelo diretor Jé Oliveira com a tragédia de Medeia sob uma perspectiva racial.

Neste ano, também estreia a programação off do FarOFFa – Circuito Paralelo de Artes Cênicas, com 30 espetáculos nacionais em apresentações na Oficina Cultural Oswald de Andrade, no Teatro Pequeno Ato e no Espaço 28, do grupo 28 Patas.

 

'‘Memorizar é uma forma de resistência’, diz diretor Tiago Rodrigues

O apreço pela memória aparece em muitos de seus trabalhos. É uma forma de lutar contra o tempo? 

O ato de memorizar em By Heart é uma forma de resistência, contra qualquer força totalitária. Minha avó inspirou este trabalho e, quando ficou cega, buscou decorar trechos para manter o amor que tinha pela literatura. 

Em Sopro, há certa semelhança. Além de ser uma homenagem ao teatro, certo?

Sim, nessa peça, a profissão de ponto ganha essa importância além do tempo. Em Portugal, há apenas dois profissionais. Na Europa, foram quase extintos. No Brasil, acredito que também não tenha nenhum.  

Você deve estrear novo trabalho ainda este ano, certo? Qual o tema?

O espetáculo ainda não foi escrito, mas deve estrear em maio, em Viena. A peça vai contar a história de uma família que está a decidir tomar um caminho não democrático para defender a democracia. Um exemplo na História é a luta armada da Revolução Francesa, que usou da violência para transformar a realidade de seu país. 

É um assunto debatido em todo o mundo. Há alguma inspiração? 

É curioso saber que ainda nesta semana estarei no Brasil. Estamos estudando muitos discursos populistas de diversos países, ouvindo falas de presidentes que tomam decisões autocráticas para sabotar a democracia. É aqui em Portugal, no Brasil, nos EUA. Eles são muitos.

 

Destaques

Multidão (França)

Na peça da diretora Gisèle Vienne, 15 jovens vivem suas histórias enquanto participam de uma festa de música techno 

 

Contos Imorais 1: Casa Mãe (França)

Vestida como uma deusa grega futurista, a atriz Phia Ménard 

cria um debate sobre o Plano Marshall e a reconstrução da Europa pós-Segunda-Guerra

 

Tu Amarás (Chile)

A comédia irônica criada pelo Grupo Bonobo é centrada na ideia de violência cometida em sociedades democráticas

 

O Pedido (Reino Unido)

Parceria entre o diretor Mark Maughan e o dramaturgo Tim Cowburry explora os problemas de um asilo para refugiados 

 

Tenha Cuidado (Índia)

Solo de Mallika Taneja faz contraponto entre a maneira como as mulheres indianas se vestem e a violência praticada contra elas

 

Farm Fatale (Alemanha/ França)

Em uma estranha fazenda, a peça de Philippe Qesne evoca a vida rural em um mundo distópico. Nela, cinco espantalhos tentam relembrar o passado em um mundo sem pessoas


Serviço. 7ª MOSTRA INTERNACIONAL DE TEATRO VÁRIOS LOCAIS. 5 A 15/3. R$ 20/R$ 40. INFORMAÇÕES: MITSP.ORG/2020

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