DANIEL TEIXEIRA/ESTADAO
DANIEL TEIXEIRA/ESTADAO

'O Corpo Que O Rio Levou' cria mural sobre casos da Comissão Nacional da Verdade

Peça invade o ano de 2020 para repensar a tortura realizada no Brasil e descrita nos relatórios

Leandro Nunes, O Estado de S.Paulo

06 Março 2017 | 05h00

A história de luta e sobrevivência do povo mexicano não cabe na profusão de imagens histórias ilustradas nos grandes murais mexicanos.

Presente em edifícios públicos, a pintura muralista de Diego Rivera, Clemente Orozco e David Siqueiros resgata o histórico e aponta a trajetória da Revolução de 1910 e coloca o país no século 20. 

Esse modelo popular de transmissão de conhecimento foi o que provocou a dramaturgia de O Corpo Que o Rio Levou, em cartaz no Centro Cultural São Paulo, explica a dramaturga Ave Terrena. Seu ponto de partida foram os relatórios da Comissão Nacional da Verdade, que descrevem as violações dos direitos humanos durante o regime militar brasileiro. “Procurei estabelecer esse estilo no texto, no sentido de rever a história do Brasil e reconstituir com fatos e cenas.”

É evidente que o volume de documentos se mostrou amplo demais para caber em um espetáculo. O que a montagem em questão aborda é a combinação de duas épocas: No ano de 2020, um encenador estrangeiro vem ao Brasil montar o espetáculo Ofélica Latina. A atriz Elza é selecionada para o elenco, enquanto seu marido sofre com os recorrentes ataques de uma guerrilha à agência bancária em que trabalha. Já na década de 1970, uma rádio narra um estranho jogo de futebol descrito com cenas de tortura. “Esses são apenas dois eixos de um projeto que pretende se estender”, explica o diretor Diego Moschkovich. 

A escolha por inserir dois eixos narrativos em épocas distintas surgiu da necessidade de reafirmar o ato teatral como senhor do palco, e portanto do tempo presente. Por isso, a cena se descola de um espetáculo tradicional a fim de explorar aspectos formais mais livremente. “Corre-se muitos riscos ao falar objetivamente sobre o presente, o que atrapalha o mergulho e a fruição em uma história”, diz a atriz Maria Emilia Faganello.

Em um palco triangular, o público acompanha os desdobramentos da preparação do espetáculo. Nessa etapa, o diretor estrangeiro explica para duas atrizes como será o teste para o papel principal. Cada candidata a Ofélica realiza sua performance na frente de um rei e uma rainha, sentados na plateia. Diante desse metateatro, a luz passa a ambientar o clima artesanal do trabalho das intérpretes para, logo em seguida, iluminar palco e plateia, vazando a fábula criada pelas ações. 

Para Ave, trazer a história da montagem de uma peça para o palco também pretende lançar reflexões sobre a atual condição do artista. “Há o movimento muito comum aqui de estrangeiros virem ao Brasil para montar versões de autores também estrangeiros”, conta. “Mas, no futuro, tudo o que queremos saber é qual será o futuro da arte, quais serão as formas de se criar e produzir uma peça de teatro? Existe uma inquietação porque as dificuldades estão cada vez maiores e precisamos reinventar essas maneiras.” 

Se o momento atual sofre com restrições à cultura, a pesquisa desenvolvida pelo Laboratório de Técnica Dramática quer alcançar o futuro e se desdobrar em outros espetáculos, conta Moschkovich. “Existem outros aspectos do relatório da CNV que merecem atenção e que percebemos se tratar de um grande projeto.” 

Entre eles estão capítulos específicos sobre técnicas de tortura, perseguição de militantes organizados de classe média, perseguição à população LGBT e operações de caça a travestis no centro da cidade, além de chacinas de povos indígenas. “São caminhos apontados que vão desembocar em uma dramaturgia muralista sobre esse período tão sombrio da nossa história”, acrescenta Ave.

O CORPO QUE O RIO LEVOU. Centro Cultural São Paulo. Rua Vergueiro, 1.000. Tel.: 3397-4002. 6ª, sáb., 21h; dom., 20h.  

R$ 20 / R$ 10. Até 9/4.

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