Fotos Alex Silva/Estadão
Fotos Alex Silva/Estadão

'O Cavaleiro da Rosa', de Strauss, discute desejo, amor e identidade de gênero no Teatro Municipal

Cantora brasileira interpreta nono papel masculino

João Luiz Sampaio, ESPECIAL PARA O ESTADO

13 Junho 2018 | 06h00

Uma jovem que usa de seu poder de sedução e do erotismo para exigir a cabeça decepada do homem que rejeitou seus avanços amorosos; ou ainda uma mulher que, em desespero, trama para matar a própria mãe e o homem com quem ela traiu seu pai - em ambos os casos, com uma música vertiginosa, à altura das tragédias narradas. Dadas as escolhas de personagens feitas anteriormente por Richard Strauss, não é difícil entender os motivos pelos quais sua ópera seguinte, O Cavaleiro da Rosa, sobre um inocente triângulo amoroso, soou como um retrocesso ao subir ao palco pela primeira vez, em 1911. Bobagem, afirma o diretor Pablo Maritano. “Ela é mais moderna do que qualquer coisa que Strauss já havia escrito. E as questões que coloca sobre sexualidade e convenções sociais continuam assustadoramente atuais.”

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É a partir desse diálogo entre o mundo imediatamente anterior à Primeira Guerra Mundial e nosso tempo e seus conflitos que o encenador argentino imagina sua nova montagem da ópera, que sobe na sexta, dia 15, ao palco do Teatro Municipal de São Paulo, com regência do maestro Roberto Minczuk e participação, no elenco, das sopranos Carla Filipcic Holm e Elena Gorshunova, da mezzo-soprano Luisa Francesconi e do baixo Dirk Aleschus. “Há de um lado uma trama ligeira, no melhor estilo das comédias de Oscar Wilde, por exemplo, mas por baixo dessa aparente simplicidade, texto e música nos sugerem alguns temas realmente complexos. De alguma forma, a história é um reflexo daquilo que nos torna humanos.”

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Ao iniciar os trabalhos na ópera, depois da violência das histórias narradas em Salomé e Elektra, Strauss falava do desejo de compor uma “ópera mozartiana”. E o enredo narrado parece mesmo evocar o universo das comédias de Mozart, como As Bodas de Fígaro, baseada em Jean-Auguste Beaumarchais. A experiente marechala Marie Therese se apaixona pelo jovem Octavian; ao mesmo tempo, seu primo, o barão Ochs, pretende se casar com a jovem Sophie para sair da situação de penúria financeira em que se encontrava. Entre os dois adolescentes, no entanto, acaba surgindo uma paixão ardente. E o desfecho para a história chegará apenas depois de muitas idas e vindas, entre elas o momento, logo no início da ópera, em que o primo surpreende a prima no quarto com Octavian, que rapidamente veste roupas femininas para se disfarçar e, sem querer, acaba despertando o interesse amoroso de Ochs.

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“Pelo que exatamente estamos nos apaixonando quando nos apaixonamos por alguém? Uma resposta que Strauss dá a essa pergunta está no interessante modo como os três personagens, a Marechala, Ochs e Sophie, se apaixonam pelo mesmo homem, mas como essa paixão tem significados muito diferentes”, diz Maritano. “Para a Marechala, ele é, no início, apenas mais um amante, antes de ganhar outro tipo de sentido dentro de sua vida. Para Sophie, por outro lado, ele simboliza a própria ideia de um relacionamento: Octavian é a sua primeira paixão, é o momento de descoberta não do outro, mas do próprio sentimento, que pode ser um processo pessoal profundamente intenso. Ochs, por sua vez, ao olhar Octavian e confundi-lo com uma camareira da prima, no momento em que está disfarçado, não está falando de amor, mas de atração, de um desejo de violação”, explica o diretor.

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Gênero. Para a soprano argentina Carla Filipcic Holm, que interpreta a Marechala, todas as personagens possuem conflitos internos intensos, retratados pela música de Strauss de maneira genial. “Octavian, por exemplo, é só ímpeto, e por conta disso sua música é direta, clara. Já a Marechala, uma mulher mais experiente, exige um outro tipo de acompanhamento. Em diversas passagens, ela pensa uma coisa, mas diz outra, e a música sugere isso ao ouvinte de modo fascinante”, explica.

“No fundo, e nisso a Marechala é um bom exemplo, as questões concretas da história são apenas representações de questões mais profundas a respeito do próprio significado da vida. O drama da Marechala é se dar conta do passar do tempo, o que a leva a um retorno a si mesmo, ao seu passado e a um balanço que pode ser muito dolorido. Lidar com os sonhos de juventude é ser confrontado com aquilo que foi e com aquilo que jamais será. Isso nos leva a uma reflexão a respeito da dimensão do tempo”, diz a soprano. “A discussão sobre o tempo é quase metafísica, ainda mais quando pensada à luz das contradições do amor”, completa Maritano, que como diretor é mais conhecido pelos trabalhos que desenvolve com a ópera barroca e com títulos contemporâneos, em palcos como o Teatro Colón.

Mas, em meio à discussão sobre o passar do tempo, da descoberta do amor - e, consequentemente, de si mesmo -, O Cavaleiro da Rosa toca, para Maritano, em uma questão profundamente atual, associada à ideia de gênero. “Há um contraste muito grande entre a maneira como agem e pensam os personagens masculinos e as personagens femininas. Mas, na verdade, Strauss e seu libretista, Hugo von Hoffmansthal, nos levam muito além disso”, explica. “A ópera nos pergunta diretamente o que é ser um homem e o que é ser uma mulher, questionamento ainda hoje, e talvez ainda mais, pertinente. Sobretudo porque seguimos tendo dificuldade para entender que existem de fato cargas muito fortes que a sociedade coloca sobre quem nasce homem e quem nasce mulher. Quando a Marechala diz a Octavian que ele não precisa ser como todos os homens, é disso que está falando também. Assim como a própria presença de Octavian, papel masculino que é interpretado por uma mulher, remete imediatamente à questão da identidade de gênero”, diz ainda o diretor.

Mezzo-soprano Luisa Francesconi celebra 20 anos de carreira cantando o jovem Octavian, tema de sua pesquisa

Ao longo da história da ópera, não são poucos os casos de papéis masculinos escritos para serem interpretados por vozes femininas. De um lado, do ponto de vista do timbre, o uso da voz grave feminina pode ajudar na caracterização de um homem jovem, um adolescente, cuja voz ainda está se formando - e, no caso do Octavian de O Cavaleiro da Rosa, há ainda a homenagem que Strauss faz ao personagem Cherubino, da ópera As Bodas de Fígaro, de Mozart, mais famoso papel travestido.

Para a mezzo-soprano Luisa Francesconi, no entanto, não se pode deixar de acrescentar à escolha de Strauss o fato de que, escrita no começo do século 20, O Cavaleiro da Rosa dialoga com o clima de seu tempo, em que o desejo e a sensualidade são temas importantes. “Basta levarmos em consideração que a primeira cena da ópera se dá no quarto da Marechala, onde ela e Octavian estão juntos, e que a música se esforça para sugerir um ato sexual entre os dois”, explica ela.

Octavian é o “nono homem” de sua carreira, lembra a mezzo, que já interpretou Oberon em Sonho de Uma Noite de Verão, de Britten, e Tancredi, na ópera de mesmo nome de Rossini, entre outros.

“Esses papéis me marcaram de tal forma que acabaram se tornando tema de minha tese de mestrado, que vou defender no próximo mês”, conta ainda Luisa, que nasceu em Brasília. “E é interessante perceber o quanto, como uma mulher, interpretar um papel masculino, entrar nesse personagem, faz compreender uma série de estereótipos impostos pela sociedade ao gênero”.

Com esse espetáculo, Luisa Francesconi completa 20 anos de carreira. “Este é um papel difícil, musicalmente e também do ponto de vista cênico. Para cada relação, com a Marechala, com Sophie, há um elemento novo a ser tratado. Por isso, acho que cantá-lo é o ponto culminante de um processo intenso de aprendizagem”, acrescenta.”

O CAVALEIRO DA ROSA

Teatro Municipal de São Paulo. Pça. Ramos de Azevedo, s/nº, tel. 3053-2800. Dias 15, 19, 21, 23 e 25, às 20h; dom., 18h. R$ 40 a R$ 150.

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