GABRIELA BILO / ESTADAO
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Novo site cria base de dados sobre famílias circenses e enciclopédia

Circo Data – Dicionário do Circo Brasileiro reúne 1,4 mil verbetes, glossário, fotos e bibliografia

Leandro Nunes, O Estado de S. Paulo

28 Maio 2017 | 03h00

O circo não é mais o mesmo. Há quem lamente e quem festeje essa informação. A questão é que, como as outras artes, os amantes do picadeiro estão buscando novas maneiras de cultivar a tradição e mantê-la pulsante em cada cidade em que a lona desembarca. Para mapear essa memória histórica, a pesquisadora Cristina Bend lançou o site Circo Data – Dicionário do Circo Brasileiro inspirado em modelos mundiais como Circopedia e que reúne 1.400 verbetes, 60 famílias catalogadas, 12 árvores genealógicas, glossário com 200 termos, além de fotos e bibliografia. 

O impulso para juntar tanto material surgiu sem, inicialmente, a ideia do projeto, que se concretizou com o edital Rumos do Itaú Cultural. A pesquisadora conta que durante os estudos em artes cênicas no Circo Escola Picadeiro, em Osasco, passou a entrevistar famílias e, ao longo de mais de dez anos, redigir em fichas os nomes de traquitanas e equipamentos que só existem no circo. “Na época, quase não havia informações sobre artistas do século 19 e 20 e seus circos”, recorda. 

No site contém lista com nome de artistas, por ordem alfabética, como Piolin, palhaço de Abelardo Pinto que marcou a Semana da Arte Moderna de 1922 e que condecora com seu nascimento – 27 de março – o Dia do Circo. Há como fazer buscas por nome de famílias, circos e glossário. Mas não é preciso ir muito longe na navegação para descobrir que a origem do trabalho de Cristina se liga ao Circo Escola Picadeiro, importante polo de formação circense fundado em 1985, por José Wilson Moura, lugar que preparou atores como Domingos Montagner, morto em setembro do ano passado.

Nascido em Maceió, o diretor recorda que nos últimos 30 anos, o circo passou por diferentes mudanças, muitas impostas pelas transformações do mundo, outras exigidas pela necessidade do circo prosseguir. A primeira delas é a formação, aponta Moura. Se antigamente nascer em família circense lhe dava o privilégio – e a obrigação – de aprender os números, transmitir “nossa arte” para outros era motivo de escândalo. E foi o que o diretor escolheu. “Contrariei meus pais ao fundar uma escola para ensinar circo a quem quisesse”, explica. 

Atualmente, esse conservadorismo perdeu sua força. Hoje, é possível estudar circo em diferentes instituições pelo País. O que não quer dizer que seja possível fugir do ensino familiar, afirma Moura, agora com satisfação. “Eu vi meus alunos terem filhos e as crianças ficarem por aqui enquanto eles ensaiavam. Agora que cresceram se tornaram artistas e já me chamam de vô. É um movimento bastante natural.”

Esse tipo de ensino cultivado desde o surgimento do circo não passou despercebido da legislação brasileira. Em 2013, o projeto de lei n.º 3.974 buscava impedir o trabalho de menores de 16 anos, o que incluía a apresentação em circos. “Antes de se tornarem profissionais, eles estão treinando”, afirma Marlene Querubim, proprietária do Circo Spacial. Enquanto ela fala ao Estado, o acrobata Mateus Felipe, de 20 anos, ensaia um número de equilíbrio no picadeiro. Ele nasceu entre as idas e vindas do circo de Marlene, que completa 33 anos em 2017. Felipe explica que é difícil comparar sua infância com a de outras crianças. “Eu sempre brinquei de circo. Via o espetáculo, decorava e imitava os números.” Aos poucos, foi se preparando enquanto se dividia entre os estudos em diferentes escolas, por conta da itinerância do circo. Desde 2012, todas as escolas públicas e particulares são obrigadas a garantir vaga aos filhos de profissionais itinerantes, entre eles, militares. Uma mudança importante avaliada por Cristina é que o circense expandiu sua formação para além do ensino no circo. “Hoje, eles estão fazendo MBA, e investindo na carreira universitária, ao lado do trabalho no picadeiro.”

Para Marlene, o que mais enfraqueceu a magia do circo foi a proibição dos números com animais. Apesar de não ser uma decisão de todos os Estados brasileiros, ela optou por não manter animais nas dependências do circo. “Eu chego ao interior e o público pergunta: ‘Se não tem bicho, tem o quê?’.” 

Para continuar transmitindo a cultura circense, o Circo Spacial tem buscado parcerias com a criação de uma linha de produtos, também dá palestras para empresas e criou versões de seus espetáculos destinados ao teatro e a espaços menores. Marlene acrescenta que associações do Brasil estão preparando um projeto para criar normas técnicas junto à ABNT (Associação de Normas Técnicas) com objetivo de unificar o uso de materiais e ferramentas na rotina circense.

Segundo semestre tem programação em São Paulo

De 9 a 18 de junho de 2017, o Sesc realiza a 4ª edição do Circos – Festival Internacional Sesc de Circo, trazendo um panorama atual da produção circense, com programação espalhada por 13 unidades do Sesc na capital, que inclui 31 ações artísticas e 15 atividades formativas. 

O espetáculo vietnamita À Ö Lang Phô – O Vilarejo e A Cidade, inédito na América, abre o festival, no Sesc Vila Mariana. A mostra vai reunir espetáculos de 13 diferentes países: Argentina, Austrália, Brasil, Canadá, Espanha, França, Itália, Suécia e Suíça, além da Alemanha, Finlândia, Holanda e Vietnã, que participam pela primeira vez do evento. Além das atrações, o festival prepara uma programação com debates, oficinas, intervenções. Os ingressos já estão à venda no site.

Em outubro, o Cirque du Soleil faz temporada em São Paulo. Ainda sem datas confirmadas, a companhia chega ao País com Amaluna, uma viagem a um universo de romance e mistério. Depois da turnê em São Paulo, a companhia segue para o Rio de Janeiro.

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