ALEX SILVA/ESTADAO
ALEX SILVA/ESTADAO

Nova peça exibe a redenção da autora Leilah Assunção

Em ‘Dias de Felicidade’, dramaturga transforma dor em ato amoroso

Ubiratan Brasil , O Estado de S. Paulo

26 de junho de 2015 | 03h00

A peça Dias de Felicidade, que estreia nesta sexta, 26, no Teatro Itália, ocupa uma posição singular na carreira da dramaturga Leilah Assunção. Autora de clássicos como Fala Baixo Senão Eu Grito, Intimidade Indecente e Vejo um Vulto na Janela, Me Acudam Que Eu Sou Donzela, ela criou poderosos personagens femininos, que defendem ativamente seus direitos e sua condição de mulheres no jogo de poder.

O novo trabalho também traz isso, no papel da banqueira (vivida por Lavínia Pannunzio) que, após um acidente de carro que desfigura seu rosto, encontra no ex-marido (Walter Breda), um advogado filho de um comunista, conforto à beira do abismo. “Minha intenção era escrever uma peça sobre beleza e dor, mas a arte, que não se deixa guiar, me conduziu para uma história de amor”, comentou Leilah ao Estado

O desvio de rota é significativo – há alguns meses, Leilah descobriu portar uma infecção na face que, se não fosse devidamente tratada, poderia levá-la à cegueira. O detalhe é que, como o tratamento utilizaria elementos pesados, Leilah corria o risco de sofrer algumas deformações na face. Exemplo de beleza (foi modelo nos anos 1960, época em que se formou em pedagogia), a decisão não foi fácil. 

“Minha vaidade não é pequena, não suporto que meu rosto não seja atraente para os outros. Escrever a peça, portanto, foi uma catarse”, disse ela, que teve de tratar ainda de um ataque do vírus do herpes no cérebro. “Durante um tempo, fiquei fora de mim, isolada em casa, em alfa”, conta.

Conversar com Leilah significa ouvir por antecipação frases que constam em sua peça, o que comprova como a escrita foi redentora. “Plante uma dor que logo nasce uma flor”, diz, em determinado momento, um dos personagens. “O que passei serviu para mostrar minha limitação, que é a mesma de qualquer pessoa”, comenta a dramaturga. “E hoje, quando me pergunto onde está a beleza, sei que está na alma.”

Na peça, a banqueira é uma mulher segura, com respostas para todas questões, até que um acidente de carro deixa marcas no rosto, o que provoca seu recolhimento. A cena é muito bem resolvida pela diretora do espetáculo, Regina Galdino. 

A partir daí, ela se torna uma mulher insegura e consegue apoio do ex-marido, com quem mantinha um relacionamento às turras. “Escrevi uma comédia com toques de humor negro”, observa Leilah que, inicialmente, pensou em titular a peça de Conforto à Beira do Abismo. Em seguida, em um instante de desabafo, decidiu trocar para Estou Louca Para Entrar na Idade do F..-se. O palavrão, no entanto, afugentaria patrocinadores e a peça finalmente foi batizada como Dias de Felicidade. “Uma ironia, mas representa meu salto sem rede”, comenta ela, orgulhosa de seu momento.

DIAS DE FELICIDADE

Teatro Itália. Avenida Ipiranga 344, metrô República. 3255-1979. 6ª e sáb., às 21h30; dom., às 19 h. R$ 35/R$ 70. Até 27/9. 

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