Benjamin Malapris/The New York Times
Benjamin Malapris/The New York Times

Nova peça de Peter Brook reflete sua perplexidade

'Why?', uma meditação sobre a vida de Meyerhold, acaba de estrear em Nova York e será apresentada até dia 6 de outubro no Theater for a New Audience

Ben Brantley, The New York Times

27 de setembro de 2019 | 08h00

Em um arejado flat perto do Bois de Boulogne, no silêncio mortal do agosto parisiense, o perpétuo diretor inglês itinerante Peter Brook, de 94 anos se alonga na mais básica das perguntas: Por quê? Seus olhos de um azul pálido pálido se estreitam, contemplativos, lembrando os de um gato siamês estrábico. Ele não está perguntando nada, nem espera uma resposta.

Why? (Por Quê?) é o título da nova peça escrita e dirigida por Brook e sua colaboradora de toda a vida, Marie-Hélène Estienne, que está em cartaz desde o dia 21 no Theater for a New Audience, no Brooklin, Nova York. A produção, que será apresentada até 6 de outubro, é também parte do Crossing the Line Festival 2019, centro de uma série de fóruns, oficinas e documentários celebrando a obra de Brook e Estienne.

Por quê é também o princípio deflagrador de uma das mais longas, consistentes e inovadoras carreiras do teatro internacional – carreira que abrange produções históricas como o épico de nove horas Mahabharata (de meados dos anos 1980) e a acrobática Sonho de Uma Noite de Verão, de 1970, que definiram para sempre tanto a interpretação quanto a percepção de Shakespeare.

Sendo um homem que domina várias línguas, Brook considerou outros nomes para a peça, uma meditação sobre a vida do diretor experimental russo Vsevolod Meyerhold e a ‘raison d’être’ do próprio teatro. Os equivalentes francês, italiano, alemão e russo de “why” foram todos estudados e descartados, principalmente por razões fonéticas. O simples som da palavra inglesa “why”, diz ele, “tem a magia de uma pergunta aberta, o que significa que não existe resposta possível para ela”.

Há outra palavra começando com “w” pela qual Brook tem grande afeição: Wow (uau!). Ela expressa um momento no palco que parece fugir dos limites do tempo. Brook vem fazendo o possível para “uaulizar” suas plateias de todo mundo desde que despertou para a fama, no início de seus 20 anos, como jovem prodígio do West End londrino. É difícil de se imaginar outro diretor de teatro cujo conjunto de obra tenha sido tão único em sua multiplicidade 

Ele, afinal, é um homem que é tanto o xodó das plateias urbanas londrinas do pós-guerra, com suas produções engenhosamente elaboradas (“ninguém pode acusar Peter Book de simplicidade”, escreveu Kenneth Tynan em 1953), quanto o diretor itinerante cuja improvisadora trupe atuou em vilarejos africanos tendo apenas um tapete como palco.

Seus colaboradores são tanto a previsível constelação de astros (Olivier, Gielgud, Mirren) quanto personagens como o pintor Salvador Dalí, o poeta Ted Hughes e o neurologista Oliver Sacks.Isso sem mencionar os mestres de sânscrito, sacerdotes hindus e contadores de histórias dos templos da Índia que Brook consultou para a criação de Mahabharata, ou o tempo em que ele viajou para o Haiti com Graham Greene e Truman Capote – com quem em seguida visitou Cuba e foi assistir a filmes com Fidel Castro.

Brook conecta na conversação todos esses elementos díspares usando seu monossílabo favorito. Precisei aprender isso com ele para não me perder em seus longos monólogos, com idas e vindas paradoxais, e acompanhá-lo através das enormes variações de tempo e espaço que ele atravessa com a determinação linear de uma locomotiva.

Ele me diz que não é alguém capaz de dar uma “resposta simples” mesmo às questões mais mundanas. “Não posso dizer nada a você sem olhar para tudo que ficou para trás”, explica.

Brook ocupa um apartamento provisório, longe de sua casa perto da Ópera de Paris. Quem abriu a porta foi Estienne, de 75 anos – uma mulher irônica e vigorosa com corte de cabelo infantil. Ela trabalha com Brook há mais de 40 anos e, segundo ele, os dois podem se comunicar sem palavras.

“Descobrimos no primeiro encontro que nascemos no mesmo dia, o que foi esplêndido”, diz Brook de Estienne. Ela era jornalista e crítica de teatro quando se conheceram, em 1969. “A partir daí, um relacionamento nasceu e se desenvolveu”, explica Brook. Suas recentes colaborações memoráveis incluem a elegíaca Battlefield. 

Eles continuam burilando o roteiro de Why?, que estreou em junho no Théâtre des Bouffes du Nord, uma decrépita casa de espetáculos parisiense do século 19 que Brook requisitou nos anos 1970 para ser seu Centro Internacional de Pesquisa Teatral (ele deixou a direção há uma década, mas a casa continua a servir de base para suas operações).

“Como você sabe”, diz ele referindo-se às contínuas revisões de Why? “nada pode ser considerado totalmente terminado.”

Brook veste camisa branca, calça cargo e echarpe azul, um “dândi esportivo”. Poltronas foram dispostas na sala de esta de modo que fiquemos praticamente encostando os joelhos. Ele me diz que tem uma irreversível degeneração ocular, o que o impede de distinguir bem rostos.

“É interessante como o cérebro cria táticas”, diz. E aí me lembro que ele escreveu pelo menos duas peças de teatro sobre os mistérios neurológicos da mente humana, uma delas inspirada em The Man Who Mistook His Wife for a Hat (O Homem que Confundiu sua Mulher com um Chapéu), do escritor e neurologista Oliver Sacks.

Brook consegue deduzir nomes pelo ID de seu celular. “É como no teatro: sabendo o que estou olhando, eu posso ver.”

Antigo discípulo do místico armênio George Gurdjieff – talvez o principal defensor do teatro como a mais básica e universal das manifestações culturais –, Brook tem um sibilino ar de autoridade, com sua grande cabeça branca equilibrada num corpo compacto.

Ele anda cuidadosamente, mas avançando sempre, que é também como fala. Ele também domina a sedutora arte do showman consumado, com uma privilegiada visão do que o teatro é e do que deveria ser.

Embora não encoraje interrupções enquanto fala, fica atento ao modo como eu reajo. Ele leva nossa conversa para um contexto cósmico: “Como é possível que, neste planeta, dois pequenos átomos da criação estejam aqui neste cantinho, sentados e falando um com o outro?”, pergunta. E dá um tapinha em meu joelho.

“Desde que estou vivendo aqui tenho o estranho sentimento de que estou em outro país, embora esteja a apenas 15 minutos de Paris”, diz ele.

De certo modo, Brook sempre quis estar em outro país. Nascido em Londres e filho de um cientista judeu russo da Letônia, o jovem Peter sonhava em ser correspondente de guerra, “para poder dizer que este grande mundo não é o mundinho da classe média londrina”.

Como estudante em Oxford, ele sonhou também em ser pintor, compositor, pianista e, mais particularmente, diretor de cinema (de fato chegou a participar de filmes como O Senhor das Moscas e a dirigir Encontro com Homens Notáveis, adaptado de um livro de Gurdjieff).

Enquanto isso, ia experimentando um pouco de tudo que estava em oferta: cultura, sexo, drogas (diz que foi abençoado com uma resistência natural ao vício) e religião.

Mas sua maior inclinação era contar histórias. E campo para isso ele encontrou no teatro. Aos 21 anos, ele dirigiu uma efervescente produção de uma peça de Shakespeare. Aos 23, foi nomeado diretor de produção da Royal Opera House. Sua versão de Shakespeare, a comédia Dois Amores e Uma Cabana, o drama Ring Round the Moon e mesmo alguns musicais fizeram dele o queridinho do West End.

Sobre Laurence Olivier, Brook diz que nenhum ator desenvolveu tanto seu desempenho. Mas Olivier tinha “algo de tão ambicioso que o tornava frio”.

Na Broadway, onde em 1954 fez o musical cult A Casa das Flores, com roteiro de Capote, ele se viu redefinindo o que significava ser diretor. A improvisação se tornou cada vez mais importante para ele, assim como a sensação de que o significado das palavras importava menos que sua musicalidade.

O cenário tem de ser “puro e simples”, diz ele, citando como exemplo os ensinamentos do teatro modernista de Edward Craig. “Há sempre muita coisa a ser aparada, simplificada, purificada”, ensina.

Para a Royal Shakespeare Company, ele criou uma temporada de Teatro da Crueldade, que incluía uma eletrizante e brutalmente física interpretação de Marat/Sade, de Peter Weiss, ambientada num hospício pós-Revolução Francesa, com a jovem Glenda Jackson. Hoje, suas preocupação com a política não acabou: Brook está abismado com o ressurgimento do nacionalismo. E não está otimista quanto ao futuro.

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