The New York Times
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Nova montagem de 'Porgy and Bess' reaviva polêmica racial

Produção do Metropolitan da ópera de Gershwin, dirigida por James Robinson, segue desejo do autor e só tem atores negros no palco, inclusive o coro

Michael Cooper, The New York Times

26 de setembro de 2019 | 18h54

A estreia na Broadway da ópera Porgy and Bess de George Gershwin, em 1935, foi uma das noites mais emblemáticas de Nova York. Atraiu a realeza de Hollywood, incluindo Katharine Hepburn e Joan Crawford. Após a ovação, os convidados participaram de uma festa glamourosa onde Gershwin tocou trechos da partitura do espetáculo ao piano.

Na manhã seguinte, porém, começaram os questionamentos – sobre gênero, representação, apropriação – que acompanharam Porgy and Bess por mais de oito décadas de história complexa e às vezes preocupante e continuam relevantes agora que o Metropolitan Opera iniciou sua temporada (no dia 23) com uma nova produção, a primeira montagem da peça de Gershwin desde 1990.

Porgy, que nos traz as melhores canções de amor de um dos maiores compositores da America (Summertime, It Ain’t Necessarily So, I Love You, Porgy, como também coros magníficos e orquestrações ousadas, é uma ópera ou um musical? Ela retornou à Broadway em 2012 numa forma despojada. Mas desde 1976, quando a Houston Grand Opera a trouxe de volta a uma casa de ópera, é chamada em letras maiúsculas de grande ópera americana.

Porgy é um retrato sensível da vida e as dificuldades de uma comunidade afro-americana segregada de Charleston, na Carolina do Sul? (Maya Angelou, que como jovem dançarina trabalhou numa produção que a levou ao Scala de Milão em 1955, elogiou a obra como “grande arte” ). Ou perpetua estereótipos degradantes sobre os negros, falada num dialeto que produz crispação? (Harry Belafonte recusou uma proposta para estrelar a versão para o cinema porque considerou-a racialmente humilhante).

É o triunfo de uma arte americana que é um caldeirão de culturas, reunindo George e Ira Gershwin (filhos de imigrantes judeus russos) com DuBose Heyward (herdeiro de uma importante família da Carolina do Sul) e sua esposa Dorothy, nascida em Ohio, para narrar uma história americana singularmente africana? Ou é uma apropriação cultural? O fato de a ópera mais apresentada sobre a experiência afro-americana ser trabalho de um grupo de pessoas brancas não teve muito impacto sobre compositores negros que lutavam para que sua música fosse ouvida.

E a insistência de Gershwin para a peça ser interpretada somente por artistas negros – originalmente usavam artistas com o rosto pintado de preto – ajudou gerações de cantores negros e deu a eles a oportunidade de trabalhar em alguns dos maiores palcos do mundo? Ou os colocou num nicho, limitando os papéis que lhes eram oferecidos?

O Met se envolveu com a história completa da peça quando se propôs a encenar sua nova produção dirigida por James Robinson e conduzida por David Robertson, reunindo um elenco robusto liderado pelo baixo-barítono Eric Owens e a soprano Angel Blue e com um cenário que visa resgatar Catfish Row e seus moradores do espectro do estereótipo. O Met vem realizando bate-papos na cidade sobre a obra e chamando a atenção para o seu próprio passado racial escabroso com uma exposição na casa de ópera.

George Gershwin qualificou Porgy and Bess como uma ópera folk, o que o colocou na longa lista de compositores que se inspiraram em temas populares, reais ou imaginados. Num ensaio que escreveu para o The New York Times em 1935, ele afirmou que, para manter a unidade musical da peça, decidiu escrever “minhas próprias canções folk e spiritual”. 

E também abordou aspectos que os críticos posteriormente condenaram como estereótipos, escrevendo que “como Porgy and Bess se refere à vida dos negros nos Estados Unidos, ela traz para a forma operística elementos que nunca surgiram na ópera e eu adaptei meu método para utilizar o drama, o humor, a superstição, o fervor religioso, a dança e o alto astral irreprimível da raça”.

Hall Johnson, compositor, arranjador e regente de coral negro, cujo musical Run, Little Chilun foi um sucesso na Broadway em 1933, observou que Gershwin “estava livre para escrever sobre negros à sua própria maneira como qualquer outro compositor para escrever sobre qualquer coisa”, num artigo publicado no Opportunity, um periódico publicado pela Urban League.

Mas acrescentou que o resultado do trabalho “não é uma ópera negra, mas a ideia de Gershwin do que deve ser uma ópera sobre negros. (Décadas mais tarde, revendo o filme, James Baldwin repetiu a mesma crítica, escrevendo que, embora apreciasse Porgy and Bess, “ela ainda era a visão de um branco da vida do negro”.

Os irmãos Gershwin estavam determinados a evitar atuações da peça por artistas brancos com o rosto pintado de preto, considerando uma herança ofensiva das representações no palco ou fora dele. Al Johnson, ator branco que atuou com o rosto pintado de negro no filme The Jazz Singer (de 1927) também quis montar um musical baseado na história, esperando que Porgy and Bess oferecesse trabalho para gerações de cantores afro-americanos com formação clássica numa época em que a discriminação os impedia de atuar no Met e em outros palcos.

Quando a primeira tournée da peça chegou ao segregacionista National Theater em Washington, as estrelas americanas assumiram posição e ameaçaram não atuar, obrigando o teatro a encenar a peça pelo menos temporariamente. Porgy ajudou muitos cantores de cor a lançarem suas carreiras, incluindo Leontyne Price, que interpretou Bess logo que saiu da Juilliard School.

Porgy and Bess se tornou um símbolo da cultura americana em todo mundo. Quando a peça estreou na Europa, em Copenhague, durante a 2ª. Guerra, como se tratava de obra de um compositor judeu sobre americanos negros, ela foi vista como ato de provocação contra os nazistas. As contradições de uma tournée na Guerra Fria em Leningrado em Moscou nos anos 1950 foram relatadas ironicamente por Truman Capote.

Mas as controvérsias não diminuíram. Quando a versão de Otto Preminger para o cinema foi lançada em 1959, durante a era da luta pelos direitos civis, a roteirista Lorraine Hansberry debateu com Preminger na TV de Chicago, e declarou que estereótipos “constituíam arte ruim”, observando que os afro-americanos sofreram “grandes feridas provocadas por boas intenções”. Mas a música de Porgy and Bess se tornou muito popular, quando gerações dos gigantes do jazz, como Billie Holiday, Louis Armstrong, Ella Fitzgerald e Miles Davis colocaram sua marca nas músicas.

A exigência de um elenco negro continua em vigor quando da apresentação da peça no mundo inteiro, escreveu Sargent Aborn, diretor executivo da Tams-Witmark, que concede as licenças para exibição da peça. Numa cláusula inusitada numa era em que um elenco é cada vez menos influenciado pela cor, Porgy and Bess é a única ópera em que o próprio coro do Met não atua: a companhia contratou um coro de cantores negros para a nova produção.

Alguns cantores negros são reticentes com relação à peça, tanto por desconforto com a obra como preocupações de que podem ser estereotipados e impedidos de explorar outro repertório.

Davóne Tines, baixo-barítono que estrelou recentemente em The Black Clown (1931), nova adaptação musical do poema de Langston Hughes em que aborda temas raciais e de representação, disse em uma entrevista que Porgy and Bess ainda o deixa preocupado com o fato de ser a única ópera negra existente e ainda uma das principais oportunidades para muitos cantores negros, exigindo que usem roupas maltrapilhas e personifiquem personagens simplórios”.

“Do mesmo modo que movemos da agressão para a discriminação sutil, do analógico para o digital, da baixa fidelidade para a alta definição, também temos de sair das amplas pinceladas e desenhar detalhes mais nuançados e específicos da experiência negra”.

Alguns tentaram reinventar a peça. A primeira produção que Golda Schultz, soprano sul-africana que assumirá o papel de Clara, no Met, onde se apresentará pela primeira vez, ficou famosa na versão da Ópera da Cidade do Cabo, ao eleger como cenário um distrito negro sul-africano.

“O fato de colocar como cenário uma “township” é que todos entendem a noção de uma comunidade lutadora e unida porque esses distritos são assim”, disse Golda durante uma pausa do ensaio no Met.“Meu pai cresceu numa comunidade como esta, onde você conhece o seu vizinho, as atividades das pessoas, porque as paredes de uma choupana são muito finas”.

A diretora Diane Paulus e a dramaturga Suan-Lori Parks fizeram mudanças substanciais na sua produção de 2012 para a Broadway, cortando parte do dialeto, reescrevendo cenas e procurando dar mais ênfase à história de Bess. Algumas pessoas se opuseram: o compositor Stephen Sondheim censurou os planos delas, dizendo que os personagens da obra “eram tão vívidos como quaisquer outros criados para o teatro musical”. 

O Met está pedindo ao público para assumir uma nova postura mesmo antes de entrar no teatro. O artista Kerry James Marshall, aclamado pelas enormes pinturas que são fantasias da vida e da história negra, criou um banner impressionante pendurado na fachada do teatro.

Mudou totalmente a imagem de Porgy, mendigo inválido, e da mulher que ele ama, Bess, que sofreu de abuso e dependência. Robinson, o diretor da nova produção, diz ter imaginado Cattfish Row como uma comunidade operária de pessoas empreendedoras, ambiciosas. “Temos de tratar essas pessoas com grande dignidade e levá-las a sério”./ Tradução de Terezinha Martino

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