João Gabriel Monteiro
João Gabriel Monteiro

Nova montagem de 'Hamlet', de Shakespeare, critica males da sociedade

Armazém Companhia de Teatro encontra paralelos atuais com a história do príncipe da Dinamarca

Ubiratan Brasil, O Estado de S.Paulo

24 Setembro 2018 | 06h00

Uma das mais célebres frases da dramaturgia mundial, “Há algo de podre no reino da Dinamarca”, ganha enorme ressonância quando proferida pela atriz Patricia Selonk. Ela vive o protagonista de Hamlet, clássico de William Shakespeare que a Armazém Companhia de Teatro estreia na sexta-feira, 28, no Centro Cultural São Paulo. Apesar de escrito entre 1599 e 1601, o texto exibe uma atualidade perturbadora.

“Hamlet é uma peça única porque ainda oferece um diálogo direto com nossa sociedade atual”, observa Paulo de Moraes, diretor do espetáculo. “Afinal, a tragédia do jovem príncipe é também a história da destruição de uma ordem estabelecida, o colapso de uma era, um momento em que até a democracia perde seu sentido.”

A escolha de uma das mais importantes obras de Shakespeare para comemorar os 30 anos da companhia não foi aleatória. "Buscávamos um texto que dialogasse com as dúvidas que rodeiam nossos dias”, explica o encenador, que se apoiou no trabalho do teórico polonês Jan Kott sobre a obra do bardo. “Kott notou que Hamlet é uma ‘peça esponja’, ou seja, que absorve as questões do momento em que é montada, especialmente o desajuste da sociedade.” 

De fato, para o polonês, a compreensão shakespeariana do enredo e o papel que a própria História tem nos dramas representam um comentário direto à modernidade. A trama da peça se passa no castelo de Elsinor, na Dinamarca, onde o fantasma do Rei aparece para seu filho, o príncipe Hamlet, exigindo uma vingança. O espectro diz ter sido envenenado pelo próprio irmão, Cláudio, enquanto dormia. Cláudio se casa com a Rainha Gertrudes, mãe de Hamlet, roubando de seu pai a um só tempo a vida, a coroa e a mulher. Paralelamente, Hamlet se apaixona pela jovem Ofélia, filha de Polonio, conselheiro de Cláudio e Gertrudes, e irmã mais nova de seu amigo Laertes.

Para desmascarar os algozes do pai, Hamlet simula uma loucura que se torna crescente, a ponto de provocar tragédias (como a morte de Polonio e a insanidade mortal de Ofélia) até atingir seu auge, quando ele paga com a própria sobrevivência. 

Shakespeare foi, como Homero, um artista que privilegiou o homem e não o poder. O dramaturgo inglês teve a capacidade para, ao entrar na alma de seus personagens, descrever com argúcia as pessoas que o rodeavam – na verdade, ele enfrentou um desafio que continua atual, ou seja, o de atingir tanto o espectador com gosto refinado como aquele pouco interessado em arte e deixar ambos maravilhados. “Essa era nossa intenção com a montagem: buscar um público amplo”, comenta Moraes, que vê no texto shakespeariano um forte tom político. “Hamlet oferece infinitas leituras, mas não podemos nos esquecer que a usurpação do poder é um tema central.”

E a força do texto é tamanha que em nenhum momento o encenador precisou encaixar citações literais para ressaltar a proximidade com a realidade do mundo atual. “Não necessitamos citar abertamente fatos do Brasil ou mesmo colocar uma foto de Donald Trump para buscar essa conexão”, observa Moraes que, em sua montagem, destaca um detalhe nem sempre observado por outros diretores, mas de extrema importância na organicidade do texto criado por Shakespeare: a ferocidade com que Hamlet lida com a loucura, tanto a criada por ele para atingir diretamente sua mãe e seu tio na acusação do assassinato do pai, como na própria que, com o tempo, se torna uma loucura incontrolável.

É necessário lembrar, nesse momento, que o perturbado príncipe da Dinamarca é vivido por uma atriz, Patricia Selonk, o que torna sua raiva crescente um detalhe ainda mais arrebatador na montagem. “Hamlet pertence ao sistema que pretende dominar, mas, aos poucos, sua loucura o torna o grande provocador da destruição daquele sistema”, comenta Moraes. “Em um primeiro momento, ele se revela um estrategista, mas, à medida que se depara com uma situação cada vez mais insana, Hamlet perde o controle da situação.”

A ferocidade do príncipe ganha uma trilha sonora à altura, com músicas punk executadas ao vivo, criação de Ricco Viana, além de figurinos (João Marcelino e Carol Lobato) e cenários (Carla Berri e Paulo de Moraes) com inspirações contemporâneas. “É importante tratar Shakespeare como se fosse um genial dramaturgo recém-descoberto com algumas coisas urgentes a dizer sobre guerra, loucura do mundo e nossos líderes políticos modernos”, diz o diretor.

Entrevista. Patricia Selonk já viveu Alice, aquela do País das Maravilhas, assim como Geni, de Toda Nudez Será Castigada, de Nelson Rodrigues. Mas, em Hamlet, o desafio é novo, especialmente por conta da ferocidade crescente que toma conta do protagonista. “Foi difícil encontrar a violência de Hamlet em meu corpo”, conta a atriz. “Eu não queria um herói, mas um homem que, ao simular uma loucura, perde o controle e, ao final da peça, destrói tudo o que o sustentava.”

Intérprete de amplos recursos cênicos, Patricia exibe vários deles na peça. É graças ao tom jocoso de sua voz, por exemplo, que a atriz destaca a mordacidade de Hamlet, autor de frases memoráveis como “Perfila-me como primo porque não primo como seu filho”, dita à mãe Gertrudes, ou ainda “Foi curto – tal qual o amor das mulheres”. 

“Hamlet é um grande frasista, quase um Nelson Rodrigues, pois exibe uma grande presença de espírito e faz isso como se comentasse as situações, conferindo mais colorido para as cenas”, comenta o diretor Paulo de Moraes, que alternou a ordem de algumas cenas, a fim de reforçar dramaturgicamente determinados momentos impactantes.

Como o famoso solilóquio “Ser ou não ser”, aqui proferido por Hamlet depois da morte de Polônio. “Isso fez com que a fala ganhasse uma enorme carga emocional”, diz o diretor, garantindo que o papel coube naturalmente a Patricia. E o que se nota é que esse jogo masculino/feminino cai bem na encenação, pois Hamlet joga com a simulação para tentar desmascarar o assassino de seu pai.

Há 31 anos na Armazém Companhia de Teatro, desde sua fundação em Londrina, em 1987, Patricia busca, em Hamlet, desvendar os mistérios do ser humano. “As pessoas me perguntam se não é cansativo fazer a peça e eu digo que ela me salva. Com o texto, reflito muito sobre questões atuais e, assim como Hamlet vê seu mundo cair, acho que algo também vai mudar em nosso País. Afinal, a engrenagem está velha e cansada.” 

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