Heloisa Bortz
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“No teatro também podemos formar uma família”, diz Yara de Novaes sobre espetáculo Brian ou Brenda

Peça de Franz Keppler retrata caso em que um dos gêmeos de uma família é criado como menina

Leandro Nunes, O Estado de S. Paulo

27 de setembro de 2019 | 07h00

Os anos 1960 não foram fáceis para a família de Brian e Bruce. Quando os gêmeos nasceram, os médicos perceberam que iam precisar fazer uma cirurgia de fimose em um deles. Durante o procedimento, o pênis do bebê foi cauterizado e a história ganhou atenção na época. Aconselhado pelo psiquiatra John Money, os pais dos gêmeos decidiram criar Brian como uma menina. Brian ou Brenda, peça de Franz Keppler, estreia nesta sexta, 27, ao resgatar o polêmico caso médico, no palco do Centro Cultural São Paulo.

“Não é difícil imaginar que a criança cresceu infeliz.” Para Yara de Novaes, que dirige a peça ao lado de Carlos Gradim, a infância de Brenda foi acompanhada de muito horror. “Estamos dizendo que alguém foi criado como se fosse outra pessoa”, diz. “A família percebeu que havia tomado uma decisão que não cabia a mais ninguém, apenas a Brian.”

Em sua pesquisa, o autor lembra que a intervenção médica no corpo de Brian se combinou com a teoria do psiquiatra, sob o risco de fracassar. “Naquela época, essas pessoas eram chamadas hermafroditas, no caso de nascerem assim. O que Brian sofreu foi outro tipo de intervenção, ainda criança, sem condições de compreender os caminhos tomados.”

Com oito atores em cena, tendo a atriz trans Marcella Maia no papel de Brenda, a peça vai reconstituir o desconforto de Brian (ou seria Brenda?) no entendimento de seu corpo e seus desejos. “Ela percebe o desequilíbrio em sua identidade e tenta se matar. Os pais contam a verdade e Brenda segue em buscar por encontrar seu verdadeiro eu.”

Nesse ano, durante a Mostra Internacional de Teatro de São Paulo estreou espetáculo MDLSX, com uma história que revê o drama semelhante, dos chamados intersexo. Tratados antigamente por hermafroditas, os nascidos com tais características sofriam mutilações médicas em seus genitais com o objetivo de adequá-los ao corpo físico. A ideia de criá-los como meninas ou meninos corria grande risco na chegada da adolescência. Com beleza e cores lisérgicas, a atriz Silvia Calderoni conta em MDLSX as lembranças de infância e a grande lacuna ao se reconhecer distante do masculino e feminino. Monstro era a palavra mais próxima de si. Por outro lado, a grande energia da atriz em cena reivindicava um novo lugar para se existir, um sonho prestes a ser inventado.

De mãos dadas, Brenda e Silvia podem compartilham uma dor única, que chega no palco como algo íntimo, antes mesmo de alcançar o lado social ou político dessas identidades. “O que vemos nas ruas, na intolerância é o ódio que mata”, conta Yara. “Despertar o público para essas histórias pode nos ajudar a criar um pouco de empatia.”

No numeroso elenco, a diretora identifica essa diversidade como linguagem na encenação. “Buscamos diferentes corpos e histórias nesse elenco, do negro ao índio. Essa dissonância também flutua na trama da peça e ganha força. O teatro tem esse poder de reunir, de formar um nova família.”

Para o autor, a história quer aprofundar um debate sobre sexualidade que sofre com muitos ruídos na política. “Deixar o outro ser quem ele é faz com que todo mundo viva, e ninguém precise morrer por isso”, completa Keppler.


BRIAN OU BRENDA

Centro Cultural São Paulo.

R. Vergueiro, 1.000. Tel.: 3397-4002. 6ª, sáb., 21h, dom., 20h.

Estreia sexta, 27. Até 20/10. Grátis.

 

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