Rafael Arbex/Estadão
Rafael Arbex/Estadão

No musical 'O Senhor das Moscas', garotos têm de viver em ilha deserta

Versão teatral é na verdade versão do consagrado romance publicado em 1954 e escrito por William Golding

Ubiratan Brasil, O Estado de S.Paulo

25 Abril 2017 | 05h00

Um grupo de garotos ingleses de um colégio interno é obrigado a viver em uma ilha deserta, depois da queda do avião que os transportava para longe da guerra. Sem a supervisão de adultos, esses meninos vivem inicialmente a empolgação da liberdade, mas, aos poucos, as características que marcam uma sociedade (como a necessidade de um líder, os conflitos de opinião, a adoração a imagens) se impõem e transformam radicalmente a convivência. “Trata-se da perda da inocência”, comenta Zé Henrique de Paula, diretor de O Senhor das Moscas, musical que estreia no Teatro do Sesi no dia 4 de maio.

É uma versão teatral do consagrado romance publicado em 1954 e escrito por William Golding (1911-1993), novelista e poeta inglês que ganhou o Nobel de Literatura em 1983. Se no início parecia ser um fracasso (foi recusado por 21 editoras e, quando publicado, não vendeu mais do que 3 mil cópias), o livro logo se tornou um clássico do pós-guerra, ao lado de A Revolução dos Bichos, de George Orwell, e O Apanhador no Campo de Centeio, de J. D. Salinger.

“O projeto de levar essa história ao teatro é antigo - há 12 anos, quando preparava a montagem de R&J, pedi ao elenco que lesse O Senhor das Moscas como apoio, mas já pensava em fazer uma adaptação”, conta Zé Henrique, um dos articuladores do Núcleo Experimental de Teatro, que produz todas suas montagens. “Mas foi em 2010, quando assisti a uma montagem em Londres, com texto adaptado por Nigel Williams, que o espetáculo começou a nascer, ainda que devagar.”

Ao lado da diretora musical Fernanda Maia, sua parceira artística de longa data, Zé Henrique iniciou o processo de transformação da peça de Williams em um musical. “Fernanda começou a trazer canções e, aos poucos, descobrimos o lugar de cada uma na montagem. Embora nossa versão não tenha a estrutura clássica de um musical, cerca de 30% do texto original foi retirado para a entrada dessas canções e a costura foi feita junto com o elenco.”

O trabalho com os 13 atores, aliás, começou no ano passado, quando o diretor promoveu uma imersão no texto, dissecando todas suas possibilidades de leitura. Afinal, O Senhor das Moscas é um belo exemplo de texto alegórico - o título, por exemplo, faz referência a Belzebu, um dos nomes pelo qual o Diabo é conhecido. O livro retrata a regressão à selvageria por aquele grupo de crianças e, com isso, invade o terreno da filosofia moral - desde sua publicação, a obra tem sido revista sob diversos aspectos. Há quem veja a ilha como a representação cristã do Paraíso e a chegada do “Bicho”, entidade que aterroriza as crianças, como a serpente com poder de destruição da harmonia.

“O livro lança questões importantes como a dúvida se o homem nasce com a maldade dentro dele”, observa o ator Bruno Fagundes. Ele vive Ralph, garoto que se transforma em um dos líderes do grupo - o outro é Jack, vivido por Ghilherme Lobo. Dois comandantes com visões opostas: enquanto Jack está mais preocupado em caçar, matar os porcos selvagens que existem na ilha, organizando sua equipe de caçadores, Ralph se preocupa em deixar uma fogueira sempre acesa, para que possam ser salvos. Ralph deseja voltar para o mundo moderno, para a civilização, enquanto Jack cada vez mais rompe seus laços com ela. “Mas não se pode dizer que um é o bom e o outro, o mau”, comenta Ghilherme. “Ralph se contradiz muito e, de uma certa forma, com a ausência de um adulto que dê orientação, eles tentam matar o modelo de civilização.”

É por esse caminho, acredita Zé Henrique de Paula, que o texto de Golding se conecta com o mundo atual. “Pensamos em explorar o binômio ritmo acelerado/velocidade, que tem frequentado o cinema, as graphic novels, o videoclipe”, explica. “Essa é a matéria-prima que traz à tona os grandes eixos temáticos da obra de Golding - a essência verdadeiramente bestial do ser humano; a luta pela civilização; a formação dos partidos (em sentido mais amplo, não o meramente político); o sentido de amizade, lealdade e a criação dos vínculos afetivos; a natureza do misticismo, a necessidade dos deuses e da epifania espiritual na vida dos homens.”

Além de Ralph e Jack, surgem dois outros personagens igualmente importantes: Porquinho (Felipe Hintze), o menino gordinho que, por trás de seus pesados óculos, revela ser o mais prático e lúcido do grupo, e Simon (Thalles Cabral), garoto cuja sensibilidade antevê os males que rondam a ilha. Sim, porque a situação se torna mais complexa quando aparece o “Bicho”, que aterroriza os meninos. Logo, as crianças elegem uma cabeça de porco espetada numa estaca como um símbolo sobrenatural: elas a batizam como Senhor das Moscas e para quem pedem proteção contra os perigos da ilha.

“O texto mostra como a criança é obrigada a lidar com a morte”, conta Pier Marchi, que vive Robert. “E também evidencia como tribos distintas são formadas por pessoas iguais”, completa Davi Tápias. Como parte dos garotos da história pertence a um coro, é justamente a música em grupo que norteia o espetáculo. “Escolhi peças para coro, pois a peça é um grande coral, com os meninos reproduzindo isso metaforicamente, ou seja, mostrando como se vive em grupo”, conta Fernanda Maia, que também criou canções originais - como o solo cantado por Bruno Fagundes, que trata do fim da infância.

Entre os trabalhos selecionados por ela está Gaudete, uma canção natalina sagrada, composta provavelmente no século 16 e que fala sobre matar um porco. “Demoramos para descobrir qual seria o som da peça, mas a música de coro revelou-se ideal pois reforça o tom místico do texto”, comenta a diretora, que teve de trabalhar fisicamente com os atores. “O elenco precisou aprender a ser ágil, pois, em várias cenas, é preciso cantar sem a ajuda da regência porque o personagem está em movimento.” Os demais meninos são interpretados por Arthur Berges, Felipe Ramos, Gabriel Neumann, Lucas Romano, Paulo Ocanha Jr., Rodrigo Caetano e Rodrigo Vellozo.

INFLUÊNCIAS CULTURAIS 

Iron Maiden

A banda inglesa de heavy metal mostra a influência do livro clássico de 1954 na música ‘Lord of the Flies’, do disco ‘The X Factor’ (1995), que fala que os seres humanos são, ao mesmo tempo, santos e pecadores

Gatsby’s American Dream

A banda norte-americana de punk rock é fortemente influenciada pelo livro do prêmio Nobel William Golding e mostra isso na música chamada ‘Fable’

Lost

Além de diversas semelhanças entre o livro e a série de TV - como a ilha, os porcos, os grupos divididos e a presença de um monstro -, os personagens Sawyer e Charlie também fazem referências a ‘O Senhor das Moscas’

Survivor

Reality show se inspirou no livro

Lizzy Borden

Outra banda de heavy metal que se influencia pela obra criou a música ‘Lord of the Flies’

Bad Religion

A banda americana faz referência ao título do livro na canção ‘1000 More Folls’

Metal Gear Solid V The Phantom Pain

Lançado em 2015, o jogo eletrônico tem um personagem, Eli (também conhecido como o White Mamba), semelhante ao menino Jack do romance, além de apresentar um acampamento parecido ao mostrado no filme ‘O Senhor das Moscas’, de 1990

O SENHOR DAS MOSCAS

Teatro do Sesi. Av. Paulista, 1.313, tel. 3528-2000. 5ª a sáb., 15h; dom., 14h30. Grátis. Estreia dia 4/5. Até 26/11 

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