No mês em que completaria 80 anos, Plínio Marcos ganha mostra de espetáculos

No mês em que completaria 80 anos, Plínio Marcos ganha mostra de espetáculos

Dramaturgo santista será homenageado com montagens inéditas

Leandro Nunes, O Estado de S. Paulo

16 Setembro 2015 | 07h00

“A peça ainda tem validade, não por méritos dela, mas a culpa é do País que não evolui. E se continuar essa situação que está aí, e peça vira um clássico”, intuiu Plínio Marcos sobre a atualidade de sua Navalha na Carne em entrevista dada em 1988 no programa de Jô Soares. 

A partir desta quarta-feira, 16, o Teatro do Sesi reaviva a memória com mostra de espetáculos, debates e exposição da trajetória do dramaturgo, ator diretor e jornalista que completaria 80 anos no próximo dia 29. 

O projeto foi idealizado pelo ator carioca Silvio Guindane, que conheceu o dramaturgo durante asgravações de A Turma do Pererê, exibida pela TVE. “Eu era moleque e tinha uns 14 anos. Foi muito emocionante contracenar com ele.” Depois do encontro, a apreciação das obras de Plínio viria nos anos a seguir com a montagem de Barrela, com direção de Roberto Bomtempo e com Guindane no elenco. Na peça, um garoto é preso e, ao chegar na cadeia, é estuprado pelos colegas de cela. Após ser solto e, à medida que os outros eram libertados, o rapaz mata todos. 

Na época em que foi escrita, Barrela ficou censurada por cerca de 20 anos e hoje representa uma das razões para que Guindane idealizasse o projeto. “Plínio foi o dramaturgo mais censurado do Brasil. E isso porque dava voz para as pessoas que não tinham voz. Ele colocou essa gente como protagonista e de uma forma magistral.” Guindane se apresenta em Balada de um Palhaço e dirige o monólogo Plínio, de Mauricio Arruda Mendonça. “A melhor maneira de relembrar e reafirmar essa importância foi reunir os amigos e artistas dele, e colocar Plínio no palco.” 

A partir de 1979, ano em que o governo brasileiro aprovou a lei que estabelecia o multipartidarismo no Brasil, Plínio havia montado, clandestinamente, Barrela nos porões do TBC, o Teatro Brasileiro de Comédia. 

No ano seguinte, algumas de suas peças foram liberadas pela Censura Federal, e já se iniciava um lento processo de redemocratização. Na TV, a voz de Osvaldo Sargentelli que dava início ao Abertura, na Tupi, representava, como o próprio nome do programa, um dos primeiros passos para o fim do silêncio imposto pela ditadura militar no Brasil. Em uma dessas edições, o locutor sabatinou o autor nascido em Santos com perguntas de jornalistas, amigos e artistas.

Em uma delas, o dramaturgo Dias Gomes (1922-1999) questionava se o responsável pela crise no teatro teria sido a censura ou a incapacidade dos artistas. Ligeiro, Plínio adiantou que a subvenção às companhias era algo muito pior do que a própria repressão pois impedia o surgimento de um teatro questionador, encabeçado, segundo ele, por dramaturgos como Paulo Pontes, Gianfrancesco Guarnieri e Nelson Rodrigues. “Meu pai era assim. Os textos dele questionavam isso, e acabaram abrindo espaço para um teatro moderno, com textos curtos e mais ágeis, em relação aos demais autores daquele tempo”, explica o filho Leo Lama, que também está na programação. 

Um dia depois da comemoração do aniversário do pai, Lama subirá ao palco com o show Prisioneiro de Uma Canção. Nele, o músico e dramaturgo reuniu os principais textos do pai, entre eles Balada de Um Palhaço, Uma Reportagem Maldita – Querô e Mancha Roxa. “Quando eu tinhas meus 16 anos, meu pai me levava para todo canto. Ele sempre me dava os textos dele e pedia para que eu musicasse alguns trechos. E o que vamos apresentar é o resultado disso”, explica. “Além disso, também trago algumas poesias dele e criações minhas.” 

O irmão de Lama, Kiko Barros, também integra a homenagem com uma celebração que se dá fora dos palcos. Ele organizou uma exposição com fotos do arquivo pessoal e figurinos utilizados em alguns espetáculos. “É engrandecedor ter um dramaturgo como ele na nossa família. Mas o mais importante é que as pessoas possam ter contato com a genialidade de Plínio. É como ele disse: a sua obra ainda se faz atual justamente porque o País não muda”, observa.

E, ao fim daquela entrevista no Abertura, a última pergunta reservava uma surpresa. Recém-elogiado por Plínio Marcos, o ‘anjo pornográfico’ surgiu: “Por que você se considera o maior dramaturgo do Brasil?”, alfinetou Nelson Rodrigues. Logo ‘o maldito’ tomou fôlego e, com um sorriso malandro no rosto, disparou: “Porque eu copio seus defeitos, Nelson Rodrigues!”.

PLÍNIO MARCOS 80 ANOS.Teatro do Sesi-SP. Av. Paulista, 1.313, tel. 3146-7401. Estreia hoje, 16, às 20h. Até 11/10. Entrada gratuita. 

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