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Nelson Baskerville traz novas cores para 'A Gaivota' de Chekhov

Em ‘1Gaivota – É Impossível Viver Sem Teatro’, diretor atualiza a trama que trata de frustrações no amor e na arte

Maria Eugênia de Menezes, O Estado de S. Paulo

17 de abril de 2015 | 03h00

O que faz de uma obra um clássico? Circunscrever um cânone não é missão trivial. E mesmo a pretensão de alcançar uma possível definição dessa ‘categoria’ soa ingênua. 

Mas, ainda que as classificações sejam falhas e imprecisas, há títulos que simplesmente emanam esse senso de perenidade. E a vontade de relê-los ou revisitá-los – sempre e sempre – talvez seja o indicativo mais incontestável de sua condição.

Um dos textos mais encenados da dramaturgia universal, A Gaivota, de Anton Chekhov, retorna aos palcos da cidade. Desta vez, em versão muito pouco ortodoxa. 1Gaivota – É Impossível Viver Sem Teatro, que inicia temporada nesta sexta-feira, 17, no Sesc Consolação, traz as marcas do teatro sujo e anárquico do diretor Nelson Baskerville para o conflito existencial que arrebatou o Teatro de Arte de Moscou em 1898. 

“Não tenho pudor em tirar o que há de rançoso nos personagens. Não é tudo que precisa ser respeitado. Essa é uma história que pode estar ao alcance de qualquer plateia”, pontua o encenador, reconhecido por seu trabalho à frente do espetáculo Luis Antonio – Gabriela. 

No elenco, estão reunidos nomes da nova geração – Rafael Primot surge como o atormentado Kostia – e veteranos da cena paulistana, caso de Renato Borghi, Pascoal da Conceição e Noemi Marinho – capaz de conquistar todos os olhares ao surgir na pele da vaidosa Arkádina.

Para aproximar o espectador dos desequilíbrios amorosos e artísticos retratados, a atual montagem tornou os diálogos ainda mais coloquiais. E, sobretudo, deu aos personagens uma fisionomia mais familiar. Ao tomar como cenário uma fazenda, mas sem situá-la em um tempo e lugar específicos, abre-se a possibilidade de o público observar essa ciranda de afetos não correspondidos e ambições frustradas como se a trama tivesse sido agora escrita.

“Como seria trazer tudo isso para hoje, mas sem tentar parecer ‘modernoso’?”, questiona Baskerville, que já havia antes se aventurado a recriar obras realistas do século 19, caso de Os Credores, de Henrik Ibsen, e Brincando com Fogo, de August Strindberg.

Projeções e interferências visuais são os principais instrumentos utilizados nessa ‘atualização’. No início do primeiro ato ocorre, à beira de um lago, a apresentação de uma breve peça escrita por Kostia e interpretada pela jovem Nina – que ambiciona ser atriz. Nesta versão, a cena em questão não apenas dá conta do explícito caráter metalinguístico da obra – uma peça está sendo encenada dentro de uma peça. Além disso, a passagem é também interface para imagens onipresentes em nosso cotidiano conectado: evocações dos horrores do Estado Islâmico e da queda das Torres Gêmeas. 

Quem também exerce função primordial nesse trânsito contínuo entre passado e presente é a trilha sonora. Criada por Daniel Maia, será ela a responsável por instaurar mais fortemente essa sensação de época indefinida, na qual as cordas da antiga Rússia convivem com as batidas do rock contemporâneo. 

Filho de uma famosa atriz, Kostia – também conhecido como Treplev – tenta afirmar-se como autor, mas não confia no próprio talento. Ridicularizado pela mãe, ele também perde o amor de Nina, uma jovem crédula que se apaixona por Trigórin, um escritor de sucesso.

Sem grandes acontecimentos, sem heróis, entregue ao que seria o fluxo monótono da vida. Sempre causou estranheza que Chekhov classificasse a sua Gaivota como uma “comédia em quatro atos”.

O tom cômico não soa óbvio, afinal, em uma trama que culmina em suicídio. O caminho escolhido por Baskerville, contudo, vem sublinhar a definição do dramaturgo. “Me parecia muito importante que os atores soubessem encontrar esse humor”, observa o diretor. 

Certo exagero vem sublinhar o ridículo da futilidade de Arkádina, das frustrações de Petrusha, seu irmão doente, ou do temperamento inconstante de Trigórin. São todos miseráveis em suas fragilidades, risíveis nas carências imensas que tentam solapar com sonhos de fama e ilusões de amores invariavelmente não correspondidos.

Restam apartados do riso apenas as figuras de Nina e Kostia. “Todos os outros sabem negociar com o mundo. Os dois não sabem. Estão condenados por sua ingenuidade”, crê Baskerville. 

Nessa inflexibilidade, eles padecem. Perdem suas ilusões. São massacrados. Ainda assim, persistem na memória como um contraponto impetuoso a nossa época, tempo em que todas as barganhas são possíveis, todos os limites éticos transpostos, todas as verdades questionáveis. 

PRESTE ATENÇÃO

1. No cenário. Cada ato possui um modulo principal de cenografia. Os elementos nunca saem de cena, nada é escondido e, com isso, toda a movimentação cenográfica é feita diante do espectador. 

2. Na música. A trilha sonora de Daniel Maia traz temas que contrastam o passado e o presente. Reúne passagens inspiradas pelo rock melancólico dos anos 2000, mas também texturas de cordas e acordeons, que remetem à antiga Rússia.

3. Figurinos e imagens. Os figurinos de Marichilene Artisevskis transporta imagens e referências da Rússia do século 19 para o contemporâneo. Ao fundo do palco, projeções evocam conflitos políticos atuais. As telas de projeção sobem e descem. Também são usados microfones, câmeras e movimentos de travelling.

1GAIVOTA - É IMPOSSÍVEL VIVER SEM TEATRO 

Sesc Consolação. R. Dr. Vila Nova, 245, 3234-0000. Estreia 17. 6ª e sáb., 20h; dom., 18h. R$ 40. Até 24/5. 

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