Gabriela Bilo/Estadão
Gabriela Bilo/Estadão

Nassim Soleimanpour revela a força de uma vida sem ensaios

As peças 'Coelho Branco, Coelho Vermelho' e 'Blank' integram programação sobre censura a artistas e repressão

Leandro Nunes, O Estado de S.Paulo

11 Abril 2017 | 04h00

Quando uma pessoa da plateia gritou “a polaquinha!”, em referência a uma personagem da peça do escritor Dalton Trevisan, o Teatro Bom Jesus caiu em gargalhadas na 26.ª edição do Festival de Curitiba. No palco, o ator Du Moscovis era a ‘cobaia’ teatral de Blank (Em Branco), texto que estreou na mostra encerrada no último domingo, 9. A peça inspirada em Coelho Branco, Coelho Vermelho pretende renovar o encontro entre artistas e público e tem como autor o iraniano Nassim Soleimanpour. Nesta terça, 11, ele chega a São Paulo integrando a programação do Cortina Fechada: Territórios da Arte, no Sesc Vila Mariana. O projeto propõe uma discussão sobre a produção cultural para artistas que sofreram com a censura e repressão, ou que foram impedidos de deixar seu país, como Soleimanpour. 

Em Blank, um ator escolhido previamente sobe ao palco sem conhecer o texto ou qualquer informação sobre a obra e seu autor. De frente para a plateia, o intérprete precisa ler as muitas páginas que lhe foram entregues e executar algumas funções. No caso da polaquinha, Du Moscovis buscava, junto à plateia, sugestões de títulos bem-humorados para espetáculos. A temporada em São Paulo terá nomes como Lee Taylor, Denise Weinberg, Georgette Fadel, Rodrigo Bolzan e Magali Biff, entre outros.

Com semelhante estrutura, a peça Coelho Branco, Coelho Vermelho foi escrita em 2010, no calor do momento, após o iraniano ser proibido de sair do país por ter se recusado a prestar o serviço militar obrigatório. A decisão de escrever uma carta ao mundo se concretizou na forma de uma peça, que estreou em Nova York e se espalhou pelo globo. Apesar de a montagem ser motivada por um fato político, o autor a considera parte de um movimento cultural. “A arte sempre foi afetada pelas situações dos artistas e suas relações com o poder. Censura ou imigração não são exceções. Elas certamente podem inspirar muitos artistas”, conta. “Nas minhas peças, estou lidando com um fenômeno mais global do que simplesmente queixar-se de qualquer governo.”

Atualmente radicado em Berlin, Soleimanpour mostra que dialogar com plateias e elencos mundiais não é tão complicado quanto parece. “Se há uma coisa que aprendi em tantos teatros, é que nós, como cidadãos deste planeta, não somos tão diferentes assim. Podemos ter nacionalidades distintas, raças, idades, gêneros e tradições, mas ainda somos muito idênticos. O que estou tentando fazer com minhas peças é escrever algo que possa viver no futuro.” 

Em estado contínuo de criação, o iraniano anuncia que vai estrear duas peças nos próximos meses. A primeira se chama Cook, escrita em parceria com o escritor Jesper Pendersen, e que vai estrear na Dinamarca. Em Londres, Soleimanpour aposta na criação do próprio show intitulado Nassim, que ficará em cartaz no Bush Theatre. Nesse projeto, ele vai estar no palco pessoalmente ao lado de um novo ator, que conhecerá a cada noite. E dessa vez, em plena liberdade.

COELHO BRANCO, COELHO VERMELHO

Sesc Vila Mariana. Rua Pelotas, 141. Tel.: 5080-3000. 3ª,5ª, 20h30. Estreia terça, 11. Até 27/4. 

BLANK

3ª, 5ª, às 20h30. Estreia 2/5. Até 1º/6. R$ 20 / R$10. 

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