Walter Craveiro/Flip
Walter Craveiro/Flip

'Narrativa nasceu das canções'

Braulio Tavares, que assina a dramaturgia do musical 'Jacksons do Pandeiro' ao lado de Eduardo Rios, fala sobre a concepção do espetáculo

Entrevista com

Braulio Tavares, dramaturgo

Ubiratan Brasil, O Estado de S.Paulo

21 de setembro de 2020 | 04h58

Qual foi o principal desafio em transformar a carreira plural de Jackson do Pandeiro em um musical?

Acho que o desafio maior é mostrar toda a riqueza musical dele, como compositor, cantor, como intérprete de todo um universo musical nordestino e carioca. Mais importante do que a biografia, neste caso, foi o repertório. Construímos a narrativa em cima das canções, não da cronologia, embora haja menções específicas aos fatos essenciais da vida dele. No caso desta montagem, a música toma a frente, a vida fica em segundo plano, mas bastante visível.

Os integrantes da Barca dos Corações Partidos são conhecidos por inserir composições próprias em seus trabalhos teatrais. Como o casamento entre o trabalho já existente de Jackson com o material novo trazido pela Barca?

Isso nos deu um certo problema, porque todos nós gostamos de compor, mas levantamos, numa pesquisa de Alfredo Del-Penho, mais de 430 canções gravadas por Jackson. Com uma fartura desse tipo, em princípio não haveria necessidade de novas composições! Mas é claro que fizemos algumas músicas novas, mais como encadeamento narrativo dos episódios, como ilustração de uma cena, um comentário... Nosso consenso era de que a música dele era o mais importante, mas há composições de Beto Lemos, Alfredo Del-Penho, Renato Luciano, etc.

Duda Maia define a montagem como um "coco acelerado". Como é isso, do ponto de vista dramatúrgico? Uma "biografia sincopada"?

O trabalho de Duda Maia é de narrativa cênica, envolvendo corpo, dança, coreografia, jogo de movimentos e posturas. Esse trabalho se cola primeiro nos ritmos e melodias de Jackson, e num segundo passo comenta as letras da canções. Em termos de dramaturgia, eu digo que nossa peça anterior, Suassuna – o Auto do Reino do Sol era um romance, e o Jacksons é um livro de contos curtos.

Duda disse também que esse é o mais complexo espetáculo que ela já dirigiu. Pra você também esse seria o mais complexo para o qual escreveu a dramaturgia?

Acho que o Suassuna foi mais complexo como dramaturgia, porque era um espetáculo narrativo, contando uma história, desenhando personagens e ações dramáticas, suspense, mistério... Tudo ali dependia do texto. No Jacksons tivemos juntos a idéia de trabalhar mais com o elenco, extraindo colaborações de todos. Eduardo Rios fazia o apanhado inicial, ao longo dos ensaios, e depois eu mexia nos textos; mas praticamente todos os pequenos monólogos dos atores são criação deles mesmos, que nós gravamos e retrabalhamos. Queríamos uma dramaturgia de vozes descentralizadas, onde cada um fosse um “jackson” dentro de sua própria história de vida. O espetáculo pedia isso.

O quão é verdadeira a história de que Mr. Tambourine Man, de Bob Dylan, foi inspirada em Jackson do Pandeiro?

Essa foi uma brincadeira minha, quando fiz uma versão para a canção de Dylan, versão que anos depois foi gravada por Zé Ramalho. Quando eu cantava a música em meus shows, tinha que contar uma história explicando a origem dela, e a história que inventei foi que Bob Dylan teria vindo ao Rio de Janeiro em 1964 e acabou fazendo uma farra com Jackson, na Feira de São Cristóvão, até amanhecer o dia, e a canção nasceu daí. Coisas mais improváveis já aconteceram, afinal de contas.

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