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Narrativa épica, ‘Salina’ faz refletir sobre a África e suas tradições

Amor, ódio e perdão são alguns dos temas da peça encenada pelo grupo carioca Amok Teatro

Igor Giannasi, O Estado de S. Paulo

19 de julho de 2017 | 04h00

RIO - A ancestralidade africana é a força motriz do espetáculo Salina – A Última Vértebra. A narrativa épica encenada pelo grupo carioca Amok Teatro evoca amores e ódios, vingança e perdão na trágica saga da jovem Salina (Ariane Hime). 

O espetáculo, que começou a ser concebido em 2013, ano em que os diretores Ana Teixeira e Stéphane Brodt encontraram o autor francês Laurent Gaudê, reestreou na Caixa Cultural do Rio para temporada até 30 de julho. Desde 2015, Salina já passou por diversas cidades pelo País, inclusive na capital paulistana, e pelo exterior, como na China. 

Apaixonada por Kano Djimba (Thiago Catarino), caçula de uma poderosa família, Salina se vê obrigada a se casar com o primogênito, Saro Djimba, interpretado por Cridemar Aquino. Violentada pelo marido, ela dá à luz um filho, a quem rejeita tanto quanto ao pai da criança. Em dois atos, a epopeia permite que cada um dos atores se destaque, em especial a protagonista e a atriz Luciana Lopes, que faz Mama Lita. Completam o elenco Graciana Valladares, Robson Freire, Reinaldo Júnior, Sergio Ricardo Loureiro, Sol Miranda e Tatiana Tibúrcio. 

O grupo foi formado ao longo de um ano de oficinas, como condiz a filosofia da companhia de priorizar o trabalho do ator. Com a dramaturgia de Gaudé, Ana constatou a possibilidade de abrir um leque maior de personagens para atores negros interpretarem. “O texto traz um deslocamento em relação ao olhar do signo negro: ali eles eram reis, rainhas, guerreiros, em grandes papéis.” Para a diretora, o teatro no Brasil ainda “é um teatro europeu, de expressão europeia e de cor europeia”. 

A experiência da montagem de Salina também proporcionou novos olhares para ela: “A convivência diária (com o elenco) me apontou uma dimensão do ser negro no Brasil que eu como mulher branca, obviamente, não tenho. Obviamente, a gente vive em uma sociedade absurdamente dividida”. 

Para compor o espetáculo, Ana iniciou a pesquisa em manifestações populares do Maranhão e chegou ao congado do mestre Jorge Antônio dos Santos, da Comunidade dos Arturos, formada por descendentes de escravos em Contagem (MG), cujos cantos trazem uma narrativa da diáspora negra. “O mestre Jorge traz essa relação homem-natureza e homem-sagrado como se fosse tudo uma coisa só, tudo faz parte de um mesmo ciclo”, comenta Ariane. Além da participação dele, o grupo contou com o intercâmbio do grupo Hodi, de Moçambique.

A oralidade e o ritualístico, presentes na tradição africana, são essenciais no desenvolvimento da trama, assim como a musicalidade, sob o comando, em cena, do multi-instrumentista Fábio Mukanya Soares. Tambores e outros instrumentos de origem no continente reforçam a busca pela ancestralidade. 

Um projeto anterior – A Trilogia da Guerra – chamou a atenção de produtores chineses durante o Festival de Edimburgo, na Escócia, e abriu as portas para que o Amok interagisse com mais uma cultura. “É uma possibilidade de fazer teatro político sem que as autoridades chinesas se incomodem, ele é sutil na panfletagem”, conta Ana. A partir dessa primeira turnê, na virada de 2014 para 2015, surgiu o convite para também levar Salina à China. A montagem passou por Pequim e outras quatro cidades entre dezembro e janeiro passados. 

E o espetáculo deve voltar a São Paulo em 2018, nas comemorações de 20 anos do Amok Teatro, acompanhado da segunda incursão do projeto A África em Nós, Os Cadernos de Kindzu, inspirada no livro Terra Sonâmbula, do moçambicano Mia Couto. Dessa vez, uma visão mais contemporânea das investigações do grupo sobre a África. 

O repórter viajou a convite da produção do espetáculo

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