Na TV e no audiovisual, Camila Pitanga estreia peça com personagem tão inquieta quanto ela

Atriz comentou o sucesso do filme 'Parasita', celebrou o cinema brasileiro e falou da segunda temporada da série 'Aruanas'; no teatro, faz temporada com 'Por Que Não Vivemos?'

Leandro Nunes - O Estado de S.Paulo

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Camila Pitanga está paulistana. A atriz mudou para a capital, temporariamente. Com ela, vieram a filha Antônia, os bichinhos e a namorada Beatriz Coelho. Mas o novo estilo urbano da atriz carioca não durou muito. Quando chegou ao Teatro Cacilda Becker, na região da Lapa, cumprimentou o repórter com um beijo a mais. “Ficou faltando um”, brinca.

A temporada na cidade tem bons motivos. Estreou na sexta, 14, o espetáculo Por Que Não Vivemos? Ao lado da companhia brasileira, a atriz vai compartilhar com a plateia a versão do diretor Marcio Abreu para a peça Platonov, de Anton Chekhov, em sessões de quase três horas de duração. Para Camila, o texto do autor russo publicado em 1923 tem tudo a ver com o Brasil. “As personagens são confrontadas com a própria insatisfação. A realidade não pode ser mais escondida. Está tudo às vistas.” 

De mala e cuia. Atriz também está no espetáculo ‘Embarque Imediato’, com o pai e o irmão Foto: TABA BENEDICTO/ESTADÃO

Não é de hoje que a atriz se mantém interessada em trabalhos que possam compartilhar algum tipo de reflexão sobre o Brasil, com o público brasileiro. De algum modo, não deixa de repisar as pegadas de seu pai, Antonio Pitanga. O ator de 80 anos também está por estas bandas. Ao lado do filho, Rocco, Pitanga-pai está em cartaz com a peça Embarque Imediato, um percurso cênico sobre identidade e herança, com dramaturgia de Aldri Anunciação. “Meu pai me contou que só este ano ele já fez participações em cinco filmes”, conta a atriz sem esconder surpresa. “É claro que com o tempo e a idade, o trabalho para alguns artistas começa a rarear. Ele segue e eu fico sempre comovida.” 

Camila também está no palco de Embarque Imediato, ao menos de maneira virtual. Na peça, dirigida por Márcio Meirelles, dois homens se conhecem numa sala especial de um aeroporto. O jovem é um pesquisador que seguirá para a Alemanha e o outro, um africano misterioso. No palco, Camila empresta a voz e rosto para conduzir a rotina de avisos de embarques e decolagens. Juntos, os atores vão percorrer questões sensíveis sobre identidade africana que, diferentemente de uma cultura europeia, construída nos livros, tem força na oralidade. “O texto do Aldri e a presença do meu pai e do meu irmão em cena ampliam o entendimento sobre nossas origens. Não é difícil imaginar que somos todos do mesmo quilombo”, afirma a atriz.

Essa inquietação por entender a si olhando o mundo também se mostra no interesse da atriz pelo cinema. O olhar atento com que dirigiu o documentário Pitanga, com Beto Brant, não perde de vista os expoentes do cinema mundial. Do Oscar, ela conta que viu e adorou Parasita, o grande vencedor da premiação com quatro estatuetas para o filme do sul-coreano Bong Joon-ho.

Para Camila, é muito mais que uma produção de última hora. “Ele não veio do nada. Para que Parasita pudesse brilhar, o país entendeu que cultura é investimento, não acessório.” Nessa esteira ela também aponta para a produção nacional, como Bacurau, de Kleber Mendonça Filho, e A Vida Invisível, de Karim Aïnouz, ambos premiados no circuito europeu. “Quando vemos os elencos de Kleber e Karim nos tapetes vermelhos, nos sentimos ali, vistos por todo mundo.”

Mas antes que se possa sacudir o mundo, essa inquietação precisa surgir no interior, ela acredita. É o tipo de movimento que Chekhov engendra para Anna Petrovna, personagem de Camila em Por Que Não Vivemos? A mulher tem sua vida sacudida pelo professor Platonov. “Nenhum deles é especial ou virtuoso. Anna afirma que ser lúcida é uma coisa difícil, porque sempre é mais simples viver alienado.”

Bem diferente de Anna é seu papel na série Aruanas, da Globoplay, que deve iniciar as gravações ainda no primeiro semestre. A trama que escancarou a atuação criminosa na Amazônia deixa a região desmatada da primeira temporada para debater um conflito mais urbano. “Agora será sobre a indústria do petróleo, inspirada na MP do Trilhão, sobre a isenção que beneficiou petroleiras.”

E o discurso da atriz afinado com este tempo só amplia a beleza de Camila. No fim do ano, ela gravou a nova temporada do programa Superbonita, no canal GNT, em que fala de maquiagem, cabelo, com mulheres de todas as cores. Ao vivo, Camila é um desbunde para os olhos e para a mente. 

‘Por Que Não Vivemos?’ funde o arsenal de Chekhov com Rihanna

Marcio Abreu e a companhia brasileira encenam o russo pela primeira vez, e com um texto inacabado

Chekhov não terminou de escrever a peça Platonov. Os manuscritos repletos de anotações malucas serviram de deleite para o diretor Marcio Abreu. “A primeira leitura com elenco levou cinco horas.”

Ao receber o título de Por Que Não Vivemos?, a nova peça da companhia brasileira não deixa de surpreender pela ousadia de um grupo que passa por autores celebrados e obras inéditas, sem perder apuro estético que satisfaz uma plateia mais interessada no choque entre clássico e contemporâneo. 

Ressaca. Na época, peça foi ignorada por atriz russa famosa Foto: NANA MORAES

Até chegar à peça do russo, a companhia brasileira vinha de peças mais radicais e inéditas como Bem-vindos à Espécie Humana (2019), Preto (2017) e de autores contemporâneos como Krum (2015), e Esta Criança (2012). Para Marcio, observar o texto de Platonov, publicado em 1923, mobiliza uma força bélica na cena. “O autor nos apresenta um arsenal de linguagens e de investigação das relações sociais.”

É claro que não se pode comparar Platonov com o domínio do Chekhov que escreveu O Jardim das Cerejeiras, sua última peça. Platonov foi concebido como um drama, quando o dramaturgo tinhas 20 e poucos anos. A peça teve vários títulos, entre eles “os sem-pai”. Foi enviada para uma famosa atriz de Moscou que devolveu o texto sem qualquer comentário. “É possível perceber um entusiasmo juvenil de um artista que queria escrever sobre tudo, experimentar linguagens e se comunicar”, aponta Abreu.

Vencido pela indiferença, Chekhov desistiu de encenar o texto, mas prosseguiu com semelhante clareza ao retratar a sociedade russa, aqui diante de uma situação de aniquilamento. “Ele já trazia um caráter moderno ao texto por não se apoiar nos ideais de ação e conflito. Nessa peça ele coloca as pessoas em primeiro plano, e a convivência tediosa e o desejo de uma revolução pessoal.”

Para a atriz Camila Pitanga que interpreta Anna Petrovna, as personagens têm suas crises despertadas pelo professor Platonov, mas não sabem como seguir, ou sequer voltar atrás. “São questões muito profundas, mas que podem atingir qualquer tipo de pessoa. A insatisfação chegou. O que fazer?”, conta. 

Em cena, Abreu retrata o encontro dessa sociedade que vai do brilho das festas, ao som de Diamonds, de Rihanna, à ressaca moral e física de uma transformação sem volta. “É uma peça para estar à disposição do médico Chekhov, porque inspiramos cuidados”, diz o diretor.

POR QUE NÃO VIVEMOS? TEATRO CACILDA BECKER. RUA TITO, 295. TEL. 3864-4513. 5ª, 6ª, SÁB., 20H, DOM., 19H. R$ 30 / R$ 15. ATÉ 1º/3

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