Nilton Fukuda/Estadão
Nilton Fukuda/Estadão

'Num Lago Dourado', amor e discussões são costurados a partir de pequenas variações na interpretação

Elenco do espetáculo conta com Ary Fontoura e Ana Lucia Torre

Ubiratan Brasil, O Estado de S.Paulo

04 Abril 2017 | 05h00

Quando estreou em 1981, o filme Num Lago Dourado foi apontado como uma chance de pai e filha se redimirem - Jane Fonda utilizou a trama para acertar as contas com o pai, o grande Henry Fonda (1905-1982), já próximo da morte e com quem manteve diferenças políticas durante muitos anos. Assim, a história do longa sobre a visita que Chelsea faz aos pais Norman e Ethel em sua casa de campo serviu ainda para que os Fondas finalmente se acertassem, sob a bênção da também notável Katharine Hepburn (1907-2003), que completou o trio de protagonistas. O longa, porém, foi inspirado em uma peça de Ernest Thompson, que traz mais que soluções familiares. É o que mostra a encenação de Num Lago Dourado, que estreia sábado, dia 8, no Teatro Renaissance.

“A peça fala de toda e qualquer relação familiar: os conflitos entre pai e filha, mãe e filha, e todas as diversidades que uma família sofre durante sua pequena existência, quando algumas são resolvidas, outras não”, observa Elias Andreato, diretor do espetáculo. “As questões familiares são tratadas com muito humor e leveza, sem passar por cima de nada e sem radicalizar. A peça não se propõe a isso dramaturgicamente. É um tipo de espetáculo como a vida, tudo transcorre cotidianamente com altos e baixos, sem grandes tragédias.”

É dessa forma que ele narra a história do professor aposentado Norman (Ary Fontoura) que, prestes a completar 80 anos, vislumbra a morte com incrível proximidade. Ao contrário de sua mulher Ethel (Ana Lucia Torre), cujo espírito continua jovem. Passando férias em sua casa à beira do lago dourado, eles recebem a notícia de que receberão a visita da filha Chelsea (Tatiana de Marca), que não virá sozinha: além do novo namorado, o dentista Bill Ray (André Garolli), também está para chegar o filho dele, o adolescente Bill Ray Jr. (Lucas Abdo). Enquanto espera a visita, o casal se relaciona com os habitantes locais, como o carteiro (Fabiano Augusto), que já fora apaixonado por Chelsea.

Norman é dono de um humor fino, mas agridoce, pelo qual diz suas verdades. O acerto de contas com a filha, porém, será atenuado graças à presença de Bill Jr. - o garoto, aos poucos, conquista o velho professor, que vê nele o filho que não teve. “É quase uma vida que começa. Isso acontece em momentos apropriados”, observa Ary Fontoura, cujo timing para o humor revela-se perfeito para as tiradas de Norman. “Vejo a peça como uma onda, na qual ora você se comove, ora se alegra, exatamente como a vida, que se modifica sempre e marcada pela grande possibilidade de que, de repente, tudo mude e o entendimento aconteça.”

Acompanhando atentamente as transformações do marido - especialmente os perigosos sinais de esquecimento e desorientação -, Ethel é a catalisadora do bom convívio dentro da casa, aparando os excessos do marido ao mesmo tempo em que orienta a filha. “É um personagem solar, pois sempre ilumina aquele ambiente ao mesmo tempo em que segura a relação entre Norman e Chelsea”, comenta Ana Lucia Torre, novamente revelando suas inúmeras qualidades artísticas. “O casal tem uma rabugice, de um implicar com o outro, mas também nutre um profundo amor entre ambos. É o que me toca nessa peça - as pessoas vivem anos juntas, alimentam suas implicâncias, mas o amor é maior. Nesse sentido, Ethel é catalisadora, pois harmoniza o ambiente, busca equilibrar a balança, mas, de vez enquanto, ela também explode.”

Nesse sentido, a encenação de Elias Andreato buscou a valorização dos detalhes da interpretação, o que torna o elenco todo como um protagonista. “Essa dramaturgia é muito saborosa porque permite a composição dos personagens por meio de suas emoções e das suas sensações, o que ajuda cada um a se individualizar em cena”, observa. “Cada um acrescenta um pouco de informação para que o espectador construa em sua cabeça o julgamento que fará sobre um e outro. Isso se assemelha à vida real - para você entender seu pai ou sua mãe, você conversa com seu irmão e ele vai revelar uma visão provavelmente diferente da sua, da mesma forma que a vizinha terá outra e tudo isso vai compondo um entendimento.”

Ainda que a peça tenha o agradável clima de uma sessão da tarde, o que a torna mais leve que o filme, Andreato vê força em sua concepção. “Contar uma história de amor entre dois idosos, com inteligência e poesia, também é um ato político nos dias atuais”, observa.

Quando a arte imita a vida, Jane e o velho Henry, seu pai

Lady Jayne Seymour Fonda - acredite, é o nome dela - sempre teve uma relação complicada com o pai, Henry Fonda, a quem creditava o suicídio da mãe, a socialite Frances Seymour Ford. No fim dos anos 1970, ela já recebera duas vezes o Oscar. Seu pai, nenhum. Jane, então, produziu o filme baseado na peça de Ernest Thompson na expectativa de que a ajudasse a resolver o impasse com o pai, a quem, apesar de tudo, admirava tanto. Na ficção, como na realidade, pai e filha têm uma relação difícil. É dos melhores filmes de Mark Rydell, quando ainda era um grande diretor. Papai Fonda ganhou seu único Oscar. Katharine Hepburn, o quarto. É um filme sobre velhice, e muito mais. Jane entregou o prêmio ao pai, no hospital. Ele morreu naquele ano, 1982./LUIZ CARLOS MERTEN

NUM LAGO DOURADO

Teatro Renaissance. Alameda Santos, 2.233. Tel.: 3069-2286. 6ª e sáb., 21h30. Dom., 18h. R$ 80. Até 2/7. Estreia 8/4

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