Elisa Mendes
Elisa Mendes

Na peça 'Fim', Felipe Hirsch fala do ofício teatral para tratar o impasse da sociedade

Diretor explica que projeto nasceu de uma necessidade de se olhar o momento político do Brasil a partir do segundo turno das eleições presidenciais de 2018

Ubiratan Brasil, O Estado de S.Paulo

08 de março de 2019 | 03h00

O fim da História já foi anunciado diversas vezes, talvez de forma mais barulhenta pelo escritor Francis Fukuyama que, em 1989, com a queda do muro de Berlim e a extinção da Guerra Fria, decretou que o mundo presenciava o ponto final da evolução ideológica da humanidade e a universalização da democracia liberal ocidental como forma definitiva de governança humana. Como se observou, foi o encerramento de um ciclo logo substituído por outro. 

E é justamente sobre uma nova etapa vivida pela sociedade brasileira que trata o espetáculo Fim, dirigido por Felipe Hirsch e que estreia nesta sexta-feira, 8, no Teatro Anchieta do Sesc Consolação. Trata-se de uma sequência de quatro textos escritos pelo argentino Rafael Spregelburd entre 2013 e 2019, todos inéditos no Brasil. E cada um aborda um momento crítico: o Fim das Fronteiras, o Fim da Arte, o Fim da Nobreza e o Fim da História.

“O projeto nasceu de uma necessidade artística minha e do grupo de atores de tratarmos do momento político vivido no Brasil a partir do segundo turno da eleição presidencial do ano passado”, explica Hirsch. “Chamávamos de ‘Interlúdio’ e os textos, além das improvisações, vinham de dois autores, André e Sérgio Sant’Anna. Queríamos falar do nosso ofício e do artista em geral. E também olhar para o Brasil por outro ângulo.”

Para isso, o Teatro Anchieta era um espaço essencial – desde sua fundação, em 1967, o espaço acolheu espetáculos históricos, encenados por intérpretes diversos. “Há uma fantasmagoria no lugar, uma memória de espaço que é ideal para o nosso projeto”, comenta o diretor. O trabalho caminhava até o elenco – formado por Amanda Lyra, Blackyva, Magali Biff, Renato Borghi, Rodrigo Bolzan, Vinicius Meloni e, mais recentemente, Danilo Grangheia – se questionar sobre o rumo tomado nos ensaios. “Experientes, eles duvidavam se o espetáculo que se construía realmente representava a classe artística.”

No meio do impasse, Hirsch recebe uma mensagem do dramaturgo argentino Rafael Spregelburd, que já colaborara com o encenador brasileiro em Antes Que a Definitiva Noite se Espalhe em Latino América, peça que foi encenada no Rio, no início do ano. “Ele ofereceu alguns textos para eu ler e foi assombroso porque casava exatamente com nossas intenções”, conta Hirsch. “Rafael apresenta um estudo sobre o ofício da representação e uma arqueologia sobre o teatro com uma riqueza de detalhes que nos impressionou – até mesmo uma cena em que uma personagem descasca uma laranja, criada em nossas improvisações, estava lá.”

Foi o bastante para o caminho clarear e, a partir do texto de Spregelburd, com alguma contribuição dos Sant’Anna e das improvisações, a peça ganhou o perfil desejado. São quatro momentos em que os atores vivem papéis distintos, cada um ganhando o protagonismo em segmentos diferentes. Assim, em Fim das Fronteiras, por exemplo, Renato Borghi canta uma música dos anos 1930 para explorar o limite idiomático. “Contar com Borghi, aos 82 anos, é um triunfo da peça e esse momento foi um dos poucos em que adaptamos o texto original – que focava nas fronteiras europeias e trouxemos para as latinas”, explica Hirsch.

Já o Fim da Arte se concentra no talento de Amanda Lyra e Rodrigo Bolzan. De uma forma, aqui também se desenvolve a questão das fronteiras, como se a peça evoluísse a partir do final da outra. O público acompanha Bernardo, um português que fala sobre as mediações no limite que separa a Espanha de Portugal. “É traçada também uma fronteira na relação de uma forma geral: entre dois professores, ou entre mestre e aluno, entre acadêmicos e antiacadêmicos e também na relação de um pai com o filho.”

Em seguida, chega-se ao Fim da Nobreza, momento em que brilha o talento de Magali Biff, atriz que, entre seus recursos, domina como poucos a impostação vocal – seus longos discursos magnetizam o espectador, fascinado que, em meio a tanto falatório, surge um personagem com características bem definidas. Aqui, ela vive uma condessa que, casada com Simon, também representante da classe abastada, paga para ter apresentações particulares de artistas, desde um casal circense até um rapaz que dubla como mulher a fim de pagar seu estudo.

“Quando escrevi isso, me ocorreram certas perguntas sobre o valor da arte”, comenta Spregelburd, em entrevista feita por Hirsch. “A peça é muito violenta ideologicamente. Quem tem o privilégio do poder sobre nós acha muitas vezes que os artistas são seres libertos deste poder. Seres mágicos que carregam uma espécie de estranha comunicação com o sentido do além. E eu digo que sim, uma parte do artista persegue esse objetivo, enquanto outra parte precisa comer, atuar sobre a cidade em que vive, e isso me parecia algo interessante de explorar em uma peça.”

Finalmente, chega-se ao último e mais surpreendente segmento, o Fim da História. Para não tirar o prazer do espectador de ficar encantado, é preciso contar pouco – basta falar que se trata de um medíocre grupo teatral que ensaia uma peça que pode ser de Chekhov. Não se tem plena certeza de que são pessoas vivas ou apenas espectros, fantasmas de artistas que passaram um tempo de sua existência naquele teatro.

“Foi nessa fase da peça que descobrimos incríveis coincidências entre o que o grupo vinha improvisando e o texto oferecido por Rafael Spregelburd”, lembra Hirsch. “Existia a questão de uma arqueologia, de um teatro que incendiou ou foi incendiado nas nossas improvisações, e o tema estava ali no texto. Havia também uma pessoa que vinha do futuro, um arqueólogo, que está ali no texto representado por uma espécie de motoboy que vem do futuro.” Conselho útil: é importante acompanhar todas as legendas que são projetadas durante a encenação – elas conduzem o espectador no tempo e no espaço.

Para que as quatro histórias sejam narradas com um mínimo de interrupção, o cenário criado por Daniela Thomas e Felipe Tassara é criativo e prático: todos os objetos, de mala a mesas e cadeiras, ficam suspensos, sendo puxados pelos atores no momento oportuno. “Daniela e Felipe seguiram nossa ideia de se tratar de um espaço perdido no tempo, em que também os objetos pertencem à fantasmagoria”, conta o diretor.

Por coincidência, Hirsch terá outra peça, Democracia, sendo exibida na Mostra Internacional de Teatro de São Paulo, de 18 a 20, na Faap. Uma discussão sobre as cicatrizes da ditadura chilena.

FIM

Sesc Consolação. R. Dr. Vila  

Nova, 245, tel. 3234-3000.  

5ª, 6ª, sáb., 21h. Dom., 18h.  

R$ 12 a R$ 40. Até 14/4

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