João Caldas
João Caldas

Na peça 'Estado de Sítio', Gabriel Villela une beleza visual a trama contundente

Inspirado em texto de Albert Camus, diretor reflete sobre o presente sem forçar pontos de contato entre a ficção e a realidade

Maria Eugênia de Menezes/Especial para o Estado, O Estado de S.Paulo

30 Novembro 2018 | 06h00

Com a estreia de Estado de SítioGabriel Villela surpreende por sua capacidade de apreender os conflitos políticos hoje em marcha no País. Nada mais natural do que o teatro refletir sobre o seu tempo. É notável, porém, que o diretor consiga realizar o feito de maneira tão aguda, e em momento tão oportuno, valendo-se de um texto de Albert Camus, escrito em 1948. 

À época, o escritor franco-argelino queria tematizar o medo – assunto que mobilizava suas reflexões na ficção e na filosofia – e olhava diretamente para o franquismo, regime ditatorial espanhol que atravessou e sobreviveu à Segunda Guerra Mundial. Na peça, a cidade de Cádiz se vê assolada por uma epidemia. O advento da doença é anunciado pela passagem de um cometa, o que causa pânico em seus moradores e abre espaço para a supressão de direitos e um governo cada vez mais autoritário. 

Para compor essa obra, Camus valeu-se de formas teatrais distintas. Bebeu nos gregos antigos para trazer o coro – a voz coletiva que comenta as ações. Fez questão de ter em cena um bufão, espécie de bobo da corte que a todos pode criticar e ridicularizar. Criou uma estrutura semelhante à dos autos sacramentais ibéricos, representações de episódios bíblicos que inspiraram grandes dramaturgos, como Lope de Vega e Gil Vicente

A direção de Gabriel Villela leva em consideração essa variedade de formatos e influências sem abdicar de uma unidade. Trata-se de tarefa difícil: a peça foi duramente criticada por ocasião de sua estreia, chegando a ser considerada um fracasso. De certa maneira, o encenador consegue contornar algumas das fragilidades dessa dramaturgia. Lança mão de elementos recorrentes de sua estética particular (que mistura o circo ao barroco mineiro), manipulando-os em consonância com as demandas do texto.

É assim que cria imagens de grande impacto, como no caso da cena de abertura, em que o cometa risca o céu e o povo faz previsões catastróficas. Ou no momento da morte do personagem Nada. São passagens nas quais elementos simples, usados com engenho – como uma sombrinha branca ou um pano azul –, podem realçar os simbolismos que vicejam no texto. 

Além dos figurinos – item sempre bem cuidado pelo diretor e sua equipe – merece especial atenção o cenário, a cargo de J. C. Serroni.

Sua ambientação revela uma interessante leitura da obra dramática. Em vez de tentar reproduzir supostas características de uma cidade espanhola, o cenógrafo trata de materializar aspectos incorpóreos como o medo e a doença. Semelhante a um emaranhado de espinhos, uma nuvem negra paira como ameaça constante sobre os personagens. E se movimenta como uma aranha gigante, prestes a engolir o povoado. Todas as paisagens necessárias são criadas em harmonia com esse grande elemento cênico, utilizando-se apenas de bancos e tábuas de madeira, manipulados pelos próprios atores.

Cabe ao elenco parcela considerável do sucesso desse Estado de Sítio. Chico Carvalho, que participou das montagens mais recentes do encenador, traz brilho à peça como o bêbado Nada. Com sua ironia feroz, ele desmonta qualquer argumento: desacredita tanto os poderosos, quanto os bem-intencionados. E o que sobra? Camus não acredita nesse ímpeto destruidor e podemos localizar o personagem como uma crítica sua aos existencialistas. Herói da trama, Diego é apaixonado por Vitória e desafia os ditadores. Algo ingênuos, seus monólogos em defesa do amor e da liberdade não encontram realização muito feliz com Pedro Inoue. Mas toda a encenação cresce e se transfigura com a entrada em cena de seus antagonistas: a Peste (Elias Andreato) e sua secretária, a Morte (Claudio Fontana), em duas interpretações brilhantes. 

No teatro, o viés alegórico pode ser uma armadilha em mãos menos habilidosas. Com a urgência de dar conta de um presente aterrador, muitos espetáculos em 2018 tentaram sublinhar certas mensagens para chamar a atenção do público. O espelhamento entre a situação fictícia e a realidade, contudo, não é nem pode ser exato. Estado de Sítio surpreende por chegar em hora tão oportuna. E mais ainda por confiar nas habilidades do espectador. Quem quiser que encontre os pontos de semelhança e desacordo entre o teatro e a rua. Os artistas só deixam no ar as muitas coincidências entre o infortúnio do povoado espanhol e o cenário político brasileiro. 

SERVIÇO

Sesc Vila Mariana. Rua Pelotas 141, tel. 5080-3000.

5.ª a sáb., às 21h; dom., às 18h. R$ 12,  

R$ 20 e R$ 40. Até 16/12

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