Sara Krulwich/The New York Times
Sara Krulwich/The New York Times

Musical sobre Michael Jackson abaixa o volume das acusações de abuso

O espetáculo, intitulado 'MJ', do qual o espólio de Jackson é um dos principais produtores, se passa em 1992, um ano antes de o cantor ser publicamente acusado de abuso

Michael Paulson, The New York Times

09 de dezembro de 2021 | 20h00

NOVA YORK - Um musical biográfico sobre Michael Jackson entrou em cartaz na Broadway esta semana, com grande orçamento, uma enorme base de fãs e uma pergunta que não queria calar: como o espetáculo iria lidar com as alegações de que o cantor pop molestara crianças?

A resposta: não lida.

O musical, do qual o espólio de Jackson é um dos principais produtores, se passa em 1992, um ano antes de o cantor ser publicamente acusado de abuso.

O espetáculo, intitulado MJ, mostra Jackson no auge da carreira – era o Rei do Pop, com dons surpreendentes como cantor e dançarino – mas também sugere que ele estava enfrentando problemas financeiros (hipotecando Neverland), era excessivamente dependente de analgésicos (começou a tomar Demerol depois de se queimar durante a filmagem de um anúncio publicitário da Pepsi), sofria com uma carga emocional considerável (seu pai aparece no palco batendo nele) e estava cercado de repórteres atentos a tudo menos sua arte (alguém aí se lembra de Bubbles, seu chimpanzé de estimação?).



O espetáculo, assinado por Lynn Nottage, escritora duas vezes vencedora do Prêmio Pulitzer, e com direção do aclamado coreógrafo Christopher Wheeldon, tem um longo período de pré-estreia pela frente: está programado para estrear só em 1º de fevereiro, e até lá a equipe criativa deve continuar revisando e refinando o musical.

Mas, na noite de segunda-feira, a primeira pré-estreia, com ingressos esgotados, ofereceu um vislumbre da estrutura do espetáculo e indicou que a equipe optou por seguir seu plano inicial, elaborado anos atrás, para se concentrar no gênio de Jackson e mostrar seu catálogo de canções recheado de sucessos. O musical se passa ao longo de dois dias dentro de um estúdio em Los Angeles, onde Jackson está nos estágios finais dos ensaios de sua turnê mundial Dangerous.

O espetáculo, que capitalizou até 22,5 milhões de dólares, oferece contexto para as escolhas criativas de Jackson por meio de flashbacks de capítulos anteriores de sua carreira, a maioria motivada por perguntas de uma documentarista que diz querer observar o processo de Jackson, mas se mostra mais interessada em sinais de problemas.

O musical foi anunciado na primavera de 2018, com previsão de chegada à Broadway em 2020. Mas, sete meses depois, um documentário chamado Leaving Neverland estreou em Sundance, trazendo nova atenção às alegações – negadas por Jackson quando ele estava vivo e por seu espólio desde sua morte – de que Jackson teria abusado sexualmente de crianças. (Por meio de um porta-voz, os homens que aparecem no documentário se recusaram a comentar o musical).

Logo depois da estreia do documentário, a produção cancelou uma temporada pré-Broadway em Chicago, citando problemas trabalhistas, e mais tarde o nome do musical foi alterado – de um potencialmente problemático Don’t Stop ‘Til You Get Enough’ para o mais simples MJ. Quando a temporada de Chicago foi cancelada, a equipe de produção, dirigida por Lia Vollack, anunciou o plano de levá-la para a Broadway no verão de 2020, mas aí a pandemia de coronavírus fechou a Broadway. Então o espetáculo está estreando agora.

Numa entrevista em abril de 2019, um mês depois de a HBO lançar o documentário, Nottage e Wheeldon disseram que seguiam comprometidos com o projeto, mas ainda estavam processando suas reações ao documentário. Nenhum dos dois disse se acreditava que Jackson era molestador de crianças e ambos disseram que não lhes cabia julgar essa questão.

“É obviamente desafiador – não deixa de trazer complicações, com certeza – mas parte do que fazemos como artistas é responder à complexidade”, disse Wheeldon. Ele acrescentou: “Somos sensíveis ao que está acontecendo e veremos se funciona no espetáculo ou não. Mas o foco principal do nosso programa sempre esteve no processo criativo de Michael”.



Nottage disse que queria criar “um musical que todos possam assistir, independentemente de como se sintam em relação a Michael Jackson”.

“Vejo a arte que estamos fazendo como uma maneira de entender mais profundamente Michael Jackson e processar os sentimentos”, disse ela, “e, no final das contas, é isso que o teatro pode fazer”.

Na terça-feira, questionado sobre as escolhas narrativas do espetáculo, Rick Miramontez, porta-voz do musical, observou que Jackson continua sendo “um ícone cultural global” e disse: “Os produtores esperam que o trabalho, a performance e a narrativa dos talentosos criadores da Broadway, que vêm colaborando com esta produção desde 2016, venham a ser uma contribuição valiosa para o exame contínuo da arte, da criatividade e da música de um dos artistas mais controversos e importantes da era moderna”.

O musical, que apresenta 37 canções (algumas executadas na íntegra e outras só em trechos), faz referência à preocupação da proximidade de Jackson com as crianças quando um dos empresários do cantor pergunta a outro membro do staff: “Quem diabos é essa família que ele quer trazer para a turnê?”.

E pouco depois, durante uma coletiva de imprensa, enquanto os repórteres bombardeiam Jackson com perguntas sobre suas cirurgias, sua cor de pele e assim por diante, alguém pergunta: “O que você tem a dizer sobre as recentes alegações de que você...” sem concluir o pensamento.

A casa lotada – o Neil Simon Theatre, com capacidade para 1.445 pessoas – estava arrebatadora, com o público de pé depois de Wanna Be Startin 'Somethin’ e Thriller, aplaudindo ruidosamente as músicas conhecidas – e até mesmo alguns elementos do figurino (a luva!).

Algumas pessoas estavam vestidas com roupas que ficaram famosas com Jackson – havia uns tantos cosplayers de Thriller – ou com camisetas de shows de Jackson. Quando o espetáculo acabou, uma criança continuou dançando em êxtase no fosso da orquestra. Miramontez disse que as pessoas tinham vindo de lugares tão distantes quanto Havaí, Croácia e regiões da Ásia para ver o show.

“Eu amo Michael Jackson desde que era criancinha. Sua música sempre foi muito inspiradora”, disse Jerrell Sablan, 38 anos, de Jersey City, Nova Jersey, que vestia uma espécie de vestido que ela tinha confeccionado em cima de uma camiseta extra grande com imagens de Jackson em vários períodos da carreira.

Seu marido, Will Griffith, 43 anos, estava com um traje de Thriller vermelho-maçã. “Assim como ela, cresci com sua música. Ela viu um dos primeiros anúncios no metrô e voltamos para casa naquele dia e compramos as passagens”. E a reputação manchada de Jackson? “Não sei, não é bom, né?”, disse Griffith. “Mas consigo separar a música e as acusações”.


TRADUÇÃO DE RENATO PRELORENTZOU

 

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