Thiago Queiroz/Estadão
Thiago Queiroz/Estadão

Musical 'Rocky Horror Show' ganha versão brasileira e estreia em São Paulo

Espetáculo ficará em cartaz durante um mês; noite de abertura será nesta sexta-feira, 11

Ubiratan Brasil, O Estado de S. Paulo

07 de novembro de 2016 | 06h00

Há algumas semanas, o ator Marcelo Medici ensaiava uma cena da novela Haja Coração quando percebeu que o resto do elenco estava em silêncio, apenas o encarando. “Pela primeira vez na minha carreira aconteceu de eu confundir meus personagens”, diverte-se ele que, ao invés do tímido Agilson do folhetim, estava ali se esbaldando como cientista maluco Frank-N-Furter, protagonista do musical Rocky Horror Show, que estreia sexta-feira, 11, no Teatro Porto Seguro.

São, de fato, personagens completamente distintos e, se em novelas Marcelo já consolidou seu prestígio, no musical produzido por Charles Möeller (que também dirige e responde pelos figurinos) e Claudio Botelho (responsável pela versão brasileira), ele terá a chance de se consagrar definitivamente.

Rocky Horror Show é um espetáculo que por si só já seria motivo para a existência do termo cult. Lançado em Londres, em 1973, em uma sala para apenas 70 pessoas, logo se tornou um sucesso. No ano seguinte, repetiu a boa performance em Los Angeles, mas, quando chegou à Broadway, em 1975, não passou de 75 apresentações. Ainda em 1975, ganhou uma versão para o cinema, Rocky Horror Picture Show, que também foi um fiasco no início, tornando-se um must somente depois em que passou a ocupar as sessões da meia-noite, fomentando intermináveis legiões de fãs, que não se contentavam apenas em assistir ao longa, mas também em interagir, repetindo falas e recriando situações, sempre vestidos com o mesmo figurino dos personagens.

“Trata-se de uma bem sucedida criação, que homenageia os filmes B de ficção científica e de terror, que contesta a hipocrisia da sociedade por meio de personagens sexies e excêntricos, que exercitam um humor levado às últimas consequências”, observa Charles Möeller. “Uma graça típica inglesa que, de tão feroz, não foi entendida na Broadway, daí o fracasso inicial.”

O musical foi escrito pelo britânico Richard O’Brien durante as tardes de inverno em que estava desempregado. Ao descobrir que o diretor australiano Jim Sharman pretendia levar uma montagem no Royal Court Theatre, O’Brien apresentou seu projeto, que fascinou Sharman pela sua riqueza – logo na primeira canção, Science Fiction/Double Feature, surge um turbilhão de referências, como à atriz Fay Wray, do primeiro King Kong, e ao ator Dana Andrews, ao personagem Flash Gordon, a filmes B como O Dia em que a Terra Parou e O Homem Invisível. “Precisei traduzir as letras enquanto revia o filme”, conta Claudio Botelho. “O longa e o musical têm basicamente o mesmo roteiro, que é cheio de referências pop e também refinadas, como citações literais de falas de peças de Beckett e reprodução do quadro American Gothic, de Grant Wood, logo no início do filme, quando aparece o casal de fazendeiros.”

A trama se passa na noite de tempestade do dia 9 de agosto de 1972 (quando Richard Nixon renunciou à presidência americana), e começa quando Brad (Felipe de Carolis) e Janet (Bruna Guerin), típico casal americano – virgem, inocente e recém-casado –, vê seu carro quebrar perto de um castelo. Eles pretendem visitar a um antigo professor da Universidade, Dr. Scott (Nicola Lama). O casal é forçado a pedir ajuda e encontra no lugar pessoas, digamos, estranhas: o cientista travesti Furter (Medici), os irmãos que trabalham como servos Riff Raff (Thiago Machado) e Magenta (Gottsha), a assistente Columbia (Jana Amorim) e uma série de indivíduos excêntricos em uma noite na qual Furter pretende criar o homem perfeito, Rocky (Felipe Mafra), para seu próprio deleite. O elenco é completado por Marcel Octávio como o Narrador e Thiago Garça e Vanessa Costa como Fantasmas.

Ao longo da história, Frank tira a virgindade de Janet e Brad e faz uma das melhores críticas à fragilidade moral dos EUA nos anos 1960, ao som de canções que se tornaram clássicas. “Vamos do rock-and-roll ao blues, cantados com voz rasgada”, comenta Marcelo Medici, já desenvolto para circular no palco com salto, espartilho e sunga. “Furter é egocêntrico, louco, canibal, um personagem sensual e sexual, que tem a alma feminina, mas a energia masculina. É meu Hamlet.”

Assista ao trailer do filme de 1975: 

Para Möeller e Botelho, a inspiração para Furter são as grandes divas do cinema e do teatro, que não enxergam ninguém além de si mesmas. “Mulheres como Gloria Swanson e Joan Crawford”, exemplifica Botelho. “E, como se trata de um alienígena, Furter tem liberdades de comportamento e sexuais que, nos terráqueos, seria algo condenável. Isso serviu de inspiração para artistas se pintarem como David Bowie e a banda Kiss”, completa Möeller, lembrando ainda os trajes do filme impactaram diretamente o desenvolvimento da música e as tendências da moda punk, tais como meias arrastão rasgadas e cabelo tingido.

Uma refilmagem do longa foi ao ar na TV americana no último dia 20 de outubro, com a transexual Laverne Cox como Furter, o que rendeu mal entendidos nas redes sociais envolvendo Botelho. 

ROCKY HORROR SHOW

Teatro Porto Seguro. 

Alameda Barão de Piracicaba, 740.

Telefone: 4003-1212.

6ª e sáb., 21h. Dom., 19h. 

R$ 50 / R$ 120.

Estreia 11/11. Até 11/12

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