Francesco Melponene
Francesco Melponene

Musical revê a vida de Da Vinci e avalia quem seria a inspiração de 'Mona Lisa'

Em cartaz na Itália, 'Leonardo, il Musical' faz parte das homenagens pelos 500 anos de morte do gênio, cuja programação inclui ainda exposições pelo mundo

João Paulo Carvalho, Especial para o Estado

23 de julho de 2019 | 03h00

FLORENÇA - É uma noite muito especial para o Teatro Arqueológico de Fiesole, que fica a oito quilômetros de Florença, na região da Toscana, na Itália. Situado em uma colina com vista esplendorosa para o Vale do Arno, ocupado pelos etruscos ainda no século 8.º a.C., o local recebe centenas de espectadores. Com assentos ao ar livre, o teatro romano enche em poucos minutos. Os olhares curiosos buscam incessantemente identificar o rosto do ator que está prestes a interpretar uma das figuras artísticas mais importantes da história: Leonardo da Vinci.

Não demora muito para que o jovem Antonio Melissa seja reconhecido e caia nas graças do público. Desenvolto, o italiano de 35 anos chama a atenção pela boa expressão corporal e afinação impecável. “Estudar e estudar. Sempre! Que responsabilidade a minha!”, diz ele nos bastidores.

Melissa, que vive Da Vinci na juventude, é um dos destaques de Leonardo, il Musical, que estreou na Itália na semana passada. Dirigido pelo músico, diretor e dramaturgo brasileiro Adrian Steinway e o português João Carvalho Aboim, o espetáculo faz parte das celebrações mundiais que lembram os 500 anos da morte de Leonardo da Vinci

Nascido em 1452, filho bastardo de uma camponesa e de um tabelião muito rico, Da Vinci ajudou a formatar o método científico e enveredou pelas mais diversas ciências: da botânica à engenharia militar, da cartografia à ótica, da anatomia à geologia. Ele também deixou mais de 7 mil desenhos, projetos, esboços e perguntas como “o que é a alma?”. 

Leitor de Euclides e Arquimedes e estudioso do latim, Da Vinci criou máquinas voadoras e esboçou um projeto para desviar o curso do Rio Arno de Florença a Pisa. Foi exatamente ali, no Teatro Arqueológico de Fiesole, que ele teria criado muitos de seus experimentos relacionados às máquinas de voos com as quais tanto sonhava.

É na arte renascentista, no entanto, que Da Vinci alcançou seu reconhecimento mundial. E esse, portanto, é o foco do musical, que passa por vários pontos conturbados da juventude do artista. A primeira parte da história, inclusive, se concentra nesse período. Uma das cenas mostra um Da Vinci teimoso, que acreditava veementemente que a arte era pura inspiração e talento – o que lhe rendeu alguns bons puxões de orelha de seu mentor, o professor Verocchio (Roberto Andrioli). 

A polêmica, e sempre controversa, orientação sexual de Da Vinci também é relatada no espetáculo. Acusado de sodomia pela jovem Bianca di Medici (Camila Gai), ele é julgado e condenado no tribunal de Florença. Após cumprir a pena, o artista decide voltar para Vinci, sua cidade natal. Posteriormente, ele acaba sendo convencido por sua amiga Costanza (Myriam Somma) a retornar a Florença.

A jovem, por sinal, teria sido a primeira inspiração para que Da Vinci pintasse a Mona Lisa, sua maior obra-prima. Muitos teriam sido os rostos que inspirariam a criação do sorriso mais icônico do mundo. A história mais conhecida é de que Lisa Gherardini (Martina Ferragamo), mulher do nobre Giocondo (Fabrizio Checcaccci), tenha sido a grande musa inspiradora. A mãe de Da Vinci, Catarina (Laura Pucini), e seu ajudante e aprendiz Salai (interpretado pelo brasileiro Pedro Reis) também são alguns dos possíveis nomes. 

Salai também teria sido o modelo oficial de inúmeros quadros de Da Vinci, incluindo o famoso São João Batista. Pesquisas históricas apontam também que Da Vinci e Salai chegaram a ter um relacionamento. “A sexualidade de Da Vinci ainda é um tabu muito grande na Itália. Embora seja do conhecimento de todos, assuntos assim precisam ser tratados com sutileza. Tentei fazer isso de forma delicada”, conta o diretor Adrian Steinway.

Quase na metade do espetáculo, Reis e Melissa fazem um dos duetos mais bonitos e emocionantes da peça. “Estou aprendendo a falar italiano. Sei algumas coisas e acho que consigo ter um diálogo bastante fluido”, conta o tímido Pedro Reis, de 26 anos. 

Do ponto de vista histórico, o drama inclui também vários fatos importantes que influenciaram diretamente a obra artística do jovem Leonardo da Vinci. O principal deles é Conspiração dos Pazzi. Em 1478, a família de banqueiros florentinos, liderada por Jacopo Pazzi, tentou tomar o poder dos irmãos Juliano (Giacomo Fabbio) e Lourenço de Médici (Edoardo Ferragamo).

Juliano foi assassinado, mas Lourenço sobreviveu ao ataque. O golpe foi arquitetado com a ajuda do papa Sisto IV, de Federico da Montefeltro, e do arcebispo de Pisa. O arcebispo acabou enforcado numa das janelas do Palazzo Vecchio, enquanto a multidão esquartejou os outros conspiradores.

O papa, todavia, não se deu por vencido, pois era apoiado por Fernando I, rei de Nápoles. Lourenço, porém, foi pessoalmente à cidade e convenceu Fernando a apoiá-lo, encerrando assim a conspiração. Esse momento histórico conturbado é plano de fundo para mostrar a ascensão de Da Vinci como artista renascentista. 

Estreia no Brasil. Além de Adrian Steinway e Pedro Reis, o músico Felipe Grytz e a coreógrafa Aline Chan integram a equipe brasileira de Leonardo, il Musical. Juntos, eles lideram um elenco italiano de 16 atores, cantores e bailarinos, 25 músicos de Fiesole e 40 crianças que fazem parte do espetáculo. 

Com montagem de Roberto Andrioli e direção musical de Leonardo Paccini, o espetáculo deve chegar ao Brasil entre fevereiro e março de 2020. “A ideia é organizar os principais traços e personagens fundamentais da vida de Da Vinci, mesmo sabendo da impossibilidade de se fazer um espetáculo exaustivo e hagiográfico, mas com a intenção de celebrá-lo por seu tamanho artístico e científico, universalmente reconhecidos”, acrescenta Steinway.

Exposições. Em 2019, se completam 500 anos da morte de Leonardo da Vinci, o artista mais importante do Renascimento italiano. Para celebrar a obra desse grande gênio, morto na cidade de Ambroise, na França, em 1519, diversos museus pelo mundo estão organizando exposições. 

O evento mais aguardado será realizado no Museu do Louvre, em Paris, a partir de 24 de outubro. A retrospectiva sobre a vida e carreira do artista reunirá pinturas raras, além de grandes clássicos conhecidos mundialmente. “Queremos mostrar o quanto Da Vinci dava vida às suas pinturas. Essa era sua principal forma de investigar e explicar o mundo”, afirma Vincent Delieuvin, um dos curadores da exposição, em entrevista ao The New York Times.

O Royal Collection Trust, no Reino Unido, exibe uma coleção nacional de desenhos em 12 cidades diferentes, de Belfast, na Irlanda do Norte, a Southampton, na Inglaterra. Leonardo da Vinci – A Life in Drawing, em cartaz até 13 de outubro, reúne ao todo 150 peças. Além disso, 50 desenhos adicionais estão em exibição na Galeria da Rainha, no Palácio de Buckingham.

Nos EUA, o Museu de Natureza e Ciência de Denver realiza a mostra Leonardo Da Vinci – 500 Years of Genius. Reproduções das invenções de Da Vinci e até uma réplica da Mona Lisa em 360 graus poderão ser vistas até o dia 25 de agosto. 

Mostra no Brasil. A exposição Leonardo da Vinci – 500 Anos vai marcar a abertura do MIS Imersão, novo espaço do Museu da Imagem e do Som localizado na Água Branca e que deve abrir em outubro. A mostra terá, entre outras, a projeção da Última Ceia em tamanho real. / UBIRATAN BRASIL

 

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