Patrick T. Fallon/AFP
Patrick T. Fallon/AFP

Musical que nasceu no Tik Tok ganha prêmio no Grammy

Abigail Barlow e Emily Bear criaram versão não oficial da série 'Bridgerton'

Julia Jacobs, The New York Times

06 de abril de 2022 | 20h00

Quando a dupla de letristas e compositoras por trás de The Unofficial Bridgerton Musical subiu ao palco no domingo para receber seu Grammy de melhor álbum de teatro musical, a lista de pessoas que elas queriam agradecer não começou com a gravadora ou o produtor, mas sim com seus seguidores nas redes sociais.

“Queremos agradecer a todos na internet que nos viram criar este álbum desde o início”, disse Abigail Barlow, que faz a voz de mais de uma dúzia de personagens diferentes no álbum. “Nós compartilhamos esse prêmio com vocês”.

No ano passado, Barlow assistiu à primeira temporada do drama de época da Netflix sobre o mercado de casamentos de elite no período regencial da Inglaterra, junto com milhões de outras pessoas em busca de entretenimento escapista durante a pandemia. Aspirante a cantora pop com 22 anos e uma quantidade considerável de seguidores no TikTok, ela postou uma música que compusera com uma premissa simples, mas promissora: “E se Bridgerton fosse um musical?”.

Quando a faísca da ideia começou a crescer, ela procurou a ajuda de uma colaboradora, Emily Bear, compositora e musicista de 19 anos que foi apresentada ao mundo como um prodígio do piano de 6 anos de idade, mas queria provar seu valor como algo mais do que apenas uma velha atração de programas de auditório.

A dupla começou a construir o que acabaria por ser um álbum de 15 músicas que inclui um dueto amoroso entre o casal protagonista da série, um solo cômico e um número de abertura que elas compuseram com um grupo da Broadway vestido com todo o luxo esvoaçando pelo palco das suas cabeças.

Bear produziu e orquestrou o álbum ela mesma, usando seu computador e um teclado eletrônico para criar o som de uma orquestra sinfônica completa.

No domingo, somando cerca de seis anos de experiência em composição de teatro musical, a dupla de compositoras da Geração Z derrotou uma lista de poderosos indicados ao Grammy que incluía Cinderela, de Andrew Lloyd Webber, Girl From the North Country, de Conor McPherson, composto em torno de músicas de Bob Dylan, e um musical de Stephen Schwartz. “É difícil de entender – tipo, fizemos tudo dentro dos nossos quartos”, disse Barlow na segunda-feira.

“Na minha cabeça, era uma coisa impossível de acontecer”, acrescentou Bear. “Nós só queríamos lançar o álbum para as pessoas que acompanharam todo o processo”. E essas pessoas eram muitas, vindas de todos os cantos da internet. Barlow e Bear transmitiam suas sessões de composição ao vivo de Los Angeles, convidando os fãs a opinar. Os seguidores compartilharam ideias para encenação e coreografia e viralizaram os vídeos.

Os vídeos do TikTok ganharam a aprovação de Julia Quinn, autora dos livros Bridgerton que inspiraram a série de TV; dos membros do elenco da série; e da Netflix, que deu aos advogados de Barlow e Bear a luz verde para que elas transformassem suas músicas em álbum, disse a dupla.

Os vídeos originais continuam no TikTok, e o álbum produzido de forma independente está no Spotify, no Apple Music e em outros serviços de streaming, mas o musical ainda não foi encenado. (Isso está longe de ser a norma para a categoria de álbuns de teatro musical, que costumava ir para grandes musicais da Broadway, como Hamilton, Jersey Boys e O Rei Leão).

Falando em uma videochamada de seus quartos de hotel em Las Vegas, onde o Grammy foi realizado, Barlow, agora com 23 anos, e Bear, 20, falaram sobre o sucesso inesperado de seu álbum, sua prática de colaborar criativamente com os fãs e para onde suas carreiras estão indo (começando com um musical da Broadway que elas ainda não podem revelar). Aqui vão trechos editados da conversa.

Abigail, o que havia em ‘Bridgerton’ que fez você querer transformá-lo em musical?

BARLOW: A cena de abertura é muito teatral. Eu ficava vendo cada parte do palco se iluminando no meu cérebro. E então continuei escrevendo linhas de diálogo que pareciam títulos de músicas. A expressão “ocean away” foi a primeira que me fez correr para o piano.

Onde vocês estavam antes de tudo isso entrar nas suas vidas?

BARLOW: Estávamos muito deprimidas. É difícil entrar na indústria da música, e eu estava quase desistindo. Estava me candidatando a empregos de recepcionista de gravadora e chorando com meus pais porque eles estavam me ajudando a me sustentar em Los Angeles e diziam: “Você precisa de um emprego de verdade. Não conseguimos mais ajudar você”. Foi uma decisão muito difícil tentar só mais uma vez.

BEAR: A gente estava, tipo, “Será que escolhemos a carreira errada?”. Eu sinto que estávamos lançando música boa, mas ninguém estava ouvindo, ninguém estava levando a gente a sério.

Aí, de repente, vocês criaram um musical que começou a ter muito envolvimento do público e vídeos com milhões de curtidas no TikTok. Era uma forma de aprovação, mas como é receber essa forma de aprovação institucional do Grammy?

BEAR: Os executivos poderosos vão atrás do que as pessoas querem. Claro que é bom quando alguém que te desprezou quer comprar a mesmíssima música. Mas é mais do que isso. Queremos abrir caminho para todas as outras mulheres incríveis – e não apenas mulheres – compositoras que amam o ofício.

Alguns artistas podem se irritar com sua estratégia de pedir o feedback dos fãs enquanto compõem, deixando o processo aberto à influência significativa do público.

BARLOW: Eu faço transmissões ao vivo enquanto canto e componho desde que era adolescente. É tipo um músculo: quanto mais você exercita, melhor você fica. Emily tem formação clássica, mas eu não tenho, então meu processo meio que foi ganhar a perspectiva das pessoas sobre o que elas achavam e como eu poderia melhorar.

BEAR: Era como se a gente estivesse se apresentando em tempo real. A gente recebia feedback ao vivo das pessoas que iriam ao show ou comprariam o álbum.

Vocês acham que vão continuar assim agora que têm essa aprovação institucional?

BARLOW: Nós adoraríamos, mas temos alguns projetos empolgantes depois que ‘Bridgerton’ nos abriu as portas. Mas ainda temos que guardar segredo. / TRADUÇÃO DE RENATO PRELORENTZOU

 

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