Walt Disney Studios
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Musical premiado que narra a vida de Alexander Hamilton vira filme

Musical ganhou o prêmio Tony e foi gravado para ser transmitido na plataforma de streaming da Disney Plus

Michael Paulson, The New York Times

03 de julho de 2020 | 05h00

Na primavera de 2017, um produtor executivo retirou um disco rígido criptografado de um cofre de Manhattan e embarcou para Londres. Um ano antes, uma equipe de filmagem havia gravado duas das apresentações finais de Hamilton, com a maior parte do elenco original. O plano era trancar as filmagens por cinco ou seis anos, até chegar a hora de compartilhá-las com o público.

Mas uma versão estava pronta para ser mostrada à pessoa cuja opinião mais importava: Lin-Manuel Miranda, o elogiado criador e estrela da atração. Miranda estava na Grã-Bretanha, filmando O Retorno de Mary Poppins – ele interpretou o candeeiro. Então, os produtores do filme Hamilton foram até lá e alugaram uma sala de projeção privada no porão de um hotel que a estrela podia acessar durante um ou outro intervalo da canção Cherry Tree Lane.

A equipe não precisou esperar muito para descobrir o que Miranda estava pensando. Quando chegou o número final, ele tirou um sapato e o jogou para cima. “Pensei: ‘beleza, fizemos o nosso trabalho’”, disse Jon Kamen, presidente e diretor executivo da RadicalMedia, que produziu o filme. “Quando ele começa a jogar os sapatos pelo ar quer dizer que está muito bom.”

Agora, o público finalmente terá a chance de assistir ao filme – nem um longa nem um documentário, mas uma captura ao vivo do espetáculo. Por causa da pandemia de coronavírus, a Disney anunciou que abriria mão do lançamento nos cinemas para transmiti-lo no streaming da Disney Plus, a partir de 3 de julho.

O filme, conhecido por legiões de fãs pela hashtag #Hamilfilm, será a primeira oportunidade para muitos assistirem a um show que narra a vida e a morte de Alexander Hamilton, que foi o primeiro secretário do Tesouro dos Estados Unidos, nos tempos da revolução. O espetáculo ganhou o Prêmio Pulitzer de 2016 em drama e o Tony Award de melhor musical estreante; suas produções pré-pandemia na América do Norte e em Londres estavam sempre esgotadas e seu álbum está na parada da Billboard 200 há 246 semanas.

Os espetáculos da Broadway muitas vezes são gravados para fins de arquivo, mas raramente para fins comerciais. Hamilton foi filmado em três dias, em junho de 2016, logo após os Tonys e pouco antes de Miranda e vários artistas saírem do elenco.

“O teatro é como Brigadoon – uma coisa meio mágica. E, se você não estava lá, perdeu”, disse a atriz Renée Elise Goldsberry, que interpreta a cunhada de Hamilton, Angelica Schuyler. “Então, conseguir preservar o que foi participar desse espetáculo, naquele momento, junto com essas pessoas, foi um presente.”

Não houve ensaios – parecia desnecessário, já que a maioria do elenco já havia feito o show centenas de vezes. “São os atores mais bem ensaiados da história do cinema”, disse Miranda. Mas não havia espaço para erros. “Não tínhamos a opção de voltar”, disse Thomas Kail, que dirigiu a produção teatral e o filme.

Kail tinha ideias bem claras sobre a filmagem de Hamilton. “Não queria fingir que não estávamos no teatro”, disse ele. “É por isso que você ouve o público. Queria criar um documento que desse a sensação do que era estar no teatro naquela época.”

Os produtores do musical – Jeffrey Seller, Sander Jacobs e Jill Furman – financiaram as filmagens. “Tínhamos uma sensação estranha de que, independentemente do acordo que fizéssemos naquele momento, não seria suficiente”, disse Seller. “Acabou sendo uma boa decisão.”

Os produtores gastaram “menos de US $ 10 milhões” filmando Hamilton, disse ele. E o venderam para a Disney por aproximadamente US $ 75 milhões.

De certa forma, a Disney parecia uma escolha inevitável, não apenas por causa de sua escala e poder, mas também por causa de seu crescente relacionamento com Miranda, que escreveu músicas para Moana, estrelou O Retorno de Mary Poppins e agora está escrevendo para o estúdio um novo musical de animação, ambientado na Colômbia.

Caminhos. Mas a equipe de Hamilton fez a Disney suar a camisa pelos direitos do filme. Em 2018, os produtores passaram por Hollywood oferecendo o produto e, depois, recusaram todo mundo. “Não sabíamos o que fazer”, disse Seller, “e, às vezes, quando você não tem certeza do que está fazendo, tira o pé do acelerador”. Foi então que, inesperadamente, Kail se juntou à família Disney. Ele dirigia a minissérie Fosse/Verdon para a FX quando a Disney adquiriu a 20th Century Fox. E, no ano passado, Kail procurou Bob Iger, então executivo-chefe da Disney, para informá-lo de que o filme estava disponível.

Iger realmente queria o filme. Ele tinha visto o musical na Broadway (mas não no elenco original) e em Los Angeles. Disse que seus filhos eram “grandes fãs” e que ele tinha “alguns netos que sabiam cada palavra de cor”.

“Pensei que Hamilton era uma das obras mais culturalmente significativas que já tinha visto”, disse. “E, quando vi o filme, fiquei extremamente impressionado. Não é apenas o melhor assento da plateia. É um assento que não existe na casa, porque, quando você está no palco, é como se estivesse entre as personagens.”

Então Iger embarcou num avião para Nova York para defender a ideia. “Falei do fundo do meu coração”, disse ele. “Abraçar essa história não seria apenas ótimo para a nossa empresa, nós também faríamos jus à obra.”

Selou-se o acordo. “Parecia a melhor maneira de levar o filme ao maior número possível de lugares”, disse Miranda. Os proventos da venda, segundo Seller, serão compartilhados com os beneficiários da produção da Broadway, incluindo o Public Theatre, que não tem fins lucrativos, onde foi realizada a produção off-Broadway, e os membros do elenco original, que em 2016 venceram uma dura batalha para repartir os lucros da produção teatral. “Os atores estão colhendo os frutos das nossas recompensas financeiras”, disse Seller. 

“Os veículos pelos quais a história passa são parte da criação da obra de arte, e estou muito agradecido por essa família compreender esse fato”, disse Goldsberry. “É o que sempre deve acontecer quando alguém contribui para um filme, assim como qualquer pessoa no teatro.”

A mudança para o streaming tem implicações para a Disney e para Hamilton. “É uma proposta financeira muito diferente daquela das salas de cinema”, disse Iger. Ele não quis dar uma estimativa específica para o potencial de bilheteria do filme, mas disse: “Achamos que seria muito bem recebido pela crítica e que as pessoas o amariam, mas também não estava claro como seria no resto do mundo, então nossas estimativas eram relativamente conservadoras fora dos Estados Unidos e otimistas aqui dentro.”

Agora, a empresa espera se beneficiar das novas assinaturas do Disney Plus. No período que antecedeu o lançamento do filme, o serviço parou de oferecer períodos de degustação gratuitos nos Estados Unidos, embora afirme que a mudança não está ligada a Hamilton. E Iger disse que os benefícios para a Disney não são totalmente monetários. “Na verdade, não vemos apenas como uma proposta financeira para nós”, disse ele. “Nós vemos como algo a que realmente vale a pena ligar nosso nome.” / TRADUÇÃO DE RENATO PRELORENTZOU 

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