Amanda Perobelli/Estadão
Amanda Perobelli/Estadão

Musical 'Peter Pan' traz efeitos especiais criados pela produção nacional

Peça traz ao todo 9 sobrevoos do menino que não quer crescer e atuações criadas como balé

Ubiratan Brasil, O Estado de S.Paulo

03 Março 2018 | 06h00

Os piratas comandados por Capitão Gancho ameaçam a família da jovem Wendy quando Peter Pan surge inesperadamente cruzando os ares, dando cambalhotas e provocando os jovens malfeitores. O efeito impressiona, pois Mateus Ribeiro, no papel de Pan, realiza verdadeiras acrobacias áreas, como se não estivesse preso a cabo algum. “Aprendi a dançar sem solo”, brinca ele, um dos destaques de Peter Pan, luxuoso musical inspirado na montagem da Broadway que ganha versão nacional e estreia na quinta-feira, 8, no Teatro Alfa.

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Trata-se de uma produção híbrida se comparada à original. Afinal, se traz elementos da versão americana, é completamente inovadora ao acrescentar elementos inéditos que fazem a diferença. Um deles é a maior mobilidade aérea de Mateus, que deverá até sobrevoar a plateia graças ao intenso treinamento que teve com a americana Andrea Gentry. O resultado é um verdadeiro balé aéreo. Outro é a presença de uma atriz, Mariana Amaral, no papel de Sininho - pelo mundo afora, a personagem da pequena fada é sempre representada por um facho de luz. “Como fã da história, eu não me conformava por não ver a Sininho”, brinca a produtora Renata Borges, da Touché Entretenimento. “Para isso, conseguimos a liberação da MTI para apresentá-la em tamanho natural.”

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Renata revela-se obcecada pelo trabalho, buscando sempre um detalhe que transforme sua montagem em algo original. Autorizada a captar até R$ 16 milhões pelas leis de incentivo, ela buscava um espetáculo familiar. O que explica o rigor técnico da produção. Renata, por exemplo, se satisfaz com contradições - como a de tornar cada vez mais verossímeis elementos de contos de fada.

É o que explica, por exemplo, a confecção de um crocodilo em tamanho original. O enorme bicho que comeu uma das mãos do Capitão Gancho (e agora o rodeia em busca do restante) anda para frente e para trás, além de abrir a enorme bocarra. “Foi construído fora do País”, conta a produtora, autora da ideia.

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São detalhes que satisfazem o público ávido por superproduções, mas o grande trunfo de Peter Pan é seu elemento humano. Além de Mateus, que confere graça e rara leveza ao papel do menino que não quer envelhecer, há ainda Bianca Tadini e sua voz encantadora como Wendy e, principalmente, Daniel Boaventura no papel de Gancho.

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Experiente em musicais (A Bela e a Fera, Chicago, Família Addams), Boaventura exibe seu imenso arsenal humorístico para construir um personagem ao mesmo tempo histriônico e hilariante. E seu trabalho ganha ainda mais relevância graças ao jovem que interpreta Smee, o primeiro assistente de Gancho. Naturalmente engraçado, Pedro Navarro confere o tom certo do serviçal atrapalhado. “Ele é um parceiro perfeito no jogo cênico”, elogia Boaventura.

Para contar a história da Terra do Nunca, habitada por crianças que não querem envelhecer, o diretor José Possi Neto percebeu que o vigor físico seria primordial no desenho do espetáculo. “Trata-se de um musical em que os personagens falam por meio do corpo”, observa ele que, experiente na dança, conferiu um tom de balé às movimentações.

Nesse caminho, entram no mesmo passo o coreógrafo Alonso Barros e o diretor musical Carlos Bauzys, que contribuem para que o ritmo, embora frenético, seja controlado. Barros, por exemplo, criou movimentos que ressaltam o tom juvenil dos personagens e sua energia infinita. “A linguagem é, realmente, corporal, o que faz com que todos os atores tenham uma necessidade atlética”, observa. Já Bauzys cuidou para que as notas musicais identificassem o papel de cada um. “Precisei modular os tons (grave para os piratas, agudo para os meninos perdidos) para marcar as diferenças.”

O elenco de 18 intérpretes responde com vigor, garantindo o equilíbrio. “Trabalhamos juntos já desde a audição”, conta Pedro Navarro, substituto de André Dias (que não pôde se unir à produção) e hoje elemento indispensável. Assim como Mateus Ribeiro que, mesmo com diversos ferros presos ao corpo, que lhe permitem dar um total de nove sobrevoos, convence o espectador de que não existe limite entre o céu e a terra. 

ENTREVISTA - DANIEL BOAVENTURA - ATOR E COPRODUTOR

Como é sua volta aos musicais depois de seis anos?

Fui convidado pela Renata (Borges, produtora) para ser o Capitão Gancho. Depois, acabei me envolvendo demais com o projeto e me tornei coprodutor. Pois bastou olhar os meninos perdidos para ter a certeza de que vai dar certo.

E como é fazer o vilão?

Adorável, pois Gancho permite vários tipos de humor. Ele é o próprio anti-herói, quase histriônico. E já estou na idade para fazer um vilão maduro.

E seu sucesso no México?

É incrível, o show lota casas enormes, as pessoas se emocionam. Uma bela experiência.

Personagem inspirou síndrome sobre eterna infância

Peter Pan tornou-se um personagem ícone ao longo dos anos, simbolizando as figuras que se recusam a envelhecer. O comportamento até gerou a síndrome de Peter Pan, detalhada em um livro escrito pelo psicólogo Dan Kiley, no qual descreve rasgos de irresponsabilidade, rebeldia, cólera, narcisismo, dependência e negação ao envelhecimento. Para Kiley, crianças superprotegidas adquirem este distúrbio que podem levar para vida toda.

O personagem foi criado pelo escocês James Matthew Barrie (1860-1937), no início do século passado. Primeiro, de relance em um romance, depois como protagonista da peça Peter Pan, ou O Menino Que Não Cresceu, estreada em Londres, em 1904. Contava a história do menino criado por fadas que, além de poder voar, vivia em uma terra mágica chamada Neverland (ou Terra do Nunca), onde não envelhecia jamais.

A inspiração teria nascido de personagens reais, os filhos de Sylvia Llewelyn Davies, uma dona de casa viúva a quem o escritor conheceu por acaso, para criar o mundo mágico de Neverland. Em 1911, com a publicação do romance Peter and Wendy (ou simplesmente Peter Pan), Barrie narra a clássica história dos irmãos Darling, Wendy, João e Miguel (Wendy, John e Michael, em inglês), que acompanham Peter Pan em uma jornada pela Terra do Nunca, onde enfrentam piratas, liderados pelo Capitão Gancho. No final do romance, Peter visita uma Wendy já adulta.

As aventuras de Pan e sua disposição para nunca sair da infância representariam também um consolo para o autor escocês, que lamentava a falta de amor de sua mãe e de sua mulher. Segundo biógrafos, Barrie escreveu a peça numa tentativa de definir seu remorso por perder sua infância e nunca ter tido um filho ou filha como Peter ou Wendy.

O personagem foi tema de inúmeras publicações, no teatro e também no cinema, com destaque para a versão animada de Walt Disney, de 1953, e do longa Hook - A Volta do Capitão Gancho (1991), de Steven Spielberg, sequência do livro de Barrie e com Robin Williams vivendo um Peter Pan adulto.

PETER PAN, O MUSICAL 

Teatro Alfa. R. Bento Branco de Andrade Filho, 722, tel. 5693-4000. Estreia 5ª (8). 5ª e 6ª, 20h30. Sáb., 16h/20h. Dom., às 17h. R$ 50 a R$ 210. Até 1º/4.

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