Leo Aversa
Leo Aversa

Musical ‘O Frenético Dancin’ Days’ trata da boate que fez história em 1976

Espetáculo de Nelson Motta e Patrícia Andrade, com direção de Deborah Colker, que estreia em São Paulo em 15 de março, lembra história da discoteca

Ubiratan Brasil, O Estado de S. Paulo

28 de fevereiro de 2019 | 03h00

Jornalista, crítico, produtor, Nelson Motta não estava satisfeito com o musical que escrevia, cuja produção já estava garantida pela sua filha, Joana. “O texto estava jornalístico demais, eu me preocupava em respeitar os detalhes históricos e a trama não avançava”, conta ele, que aceitou de bom grado a vinda de uma conhecida colaboradora, Patrícia Andrade. Em pouco tempo, o projeto deslanchou e se transformou em O Frenético Dancin’ Days, musical que, depois de uma temporada de sucesso no Rio, chega ao Teatro Opus, no Shopping Villa-Lobos, no dia 15. “Patrícia acertou ao inventar personagens e não se importar tanto com a veracidade.”

A preocupação de Motta se justifica, pois ele é um dos principais personagens do espetáculo – O Frenético Dancin’ Days conta a história da discoteca de mesmo nome que, durante sua curta vida de quatro meses (entre agosto e dezembro de 1976), reproduziu no Rio uma experiência de alegria e liberdade de expressão em meio a um ferrenho governo militar, que na época sufocava anseios e criatividade. “O Dancin’ Days foi uma ilha de liberdade e alegria. Estávamos já vivendo 12 anos de ditadura e precisávamos mesmo soltar as feras e cair na gandaia”, relembra Motta, que fundou a discoteca ao lado dos amigos Scarlet Moon, Leonardo Netto, Dom Pepe e Djalma Limongi, depois de aceitar o convite de um empresário para ocupar temporariamente um espaço no então novíssimo Shopping da Gávea.

Foi um tremendo sucesso – em seus quatro meses de funcionamento, o espaço reuniu famosos e anônimos, hippies e comunistas, todas as tribos com o único objetivo de celebrar a vida. Artistas como Rita Lee (ainda com o Tutti-Frutti), Raul Seixas, Gilberto Gil fizeram apresentações. A pista da boate fervia ao som de Lady Zu, Banda Black in Rio, Tim Maia, além de hits internacionais como I Love the Nightlife, You Make me Feel Might Real, We Are Family, Y.M.C.A. e Stayin’ Alive, entre outros. Mas o grande feito dos proprietários da boate foi permitir que suas garçonetes Leiloca, Sandra Pêra, Lidoca, Edyr, Dhu Moraes e Regina Chaves fizessem breves apresentações durante a madrugada. Arrasaram tanto que logo abandonaram as bandejas e criaram o grupo Frenéticas.

Curiosamente, um de seus grandes hits, Dancin’ Days, foi usado como tema de uma novela do mesmo nome que a Globo exibiu em 1978 e que ajudou a consagrar a atriz Sônia Braga. “Mas o musical não tem nenhuma relação com a novela”, frisa Deborah Colker, que assina a direção-geral do espetáculo. “Nossa inspiração é apenas a boate.” Consagrada como uma das principais coreógrafas do País (no ano passado, foi premiada na Rússia com o Prix Benois de la Danse, considerado o Oscar da Dança), Deborah estreia no comando de um musical, tarefa que resistiu até aceitar. 

“Para mim, era impossível levantar um espetáculo em apenas dois meses, que era o tempo que eu tinha – com minha companhia de dança, chego a trabalhar até durante um ano”, explica. Mas a coreógrafa logo cedeu ao convite, seduzida por dois detalhes: a incrível história daqueles cinco amigos e a possibilidade de fazer um musical essencialmente brasileiro. “Mais que isso, um espetáculo autoral, com personalidade e seguindo nossa tradição de misturar assuntos.”

Com isso, Deborah, que já trabalhara antes com coreografias que narravam uma história (como Tatyana e Belle), manteve seu estilo e se encarregou de dar personalidade aos personagens, municiando os movimentos de intenções e sentidos. A novidade está no seu preciso timing para a narrativa teatral, alternando dança e dramatização para manter o equilíbrio entre ficção e fato histórico. “Desde o início, mantive o desejo do Nelson e da Patrícia de não criar um espetáculo à la Broadway, mas trazer um olhar do mundo sob a nossa perspectiva.”

De fato, Motta buscava para o espetáculo a essência das chanchadas, aqueles filmes de enorme sucesso no Brasil entre as décadas de 1930 e 60 e que uniam muita música e um humor burlesco. “Oferecemos uma chanchada disco, sem nenhum compromisso com o realismo nem com a tradição da dramaturgia, mas com o descompromisso do teatro de revista, costurando tramas simples com cenas de comédia e números de música e dança”, explica. “Nosso musical não é baseado na Broadway, mas na Atlântida.”

Nesse sentido, Deborah foi rigorosa no processo de seleção do elenco – não bastava apenas cantar bem e dançar divinamente: era preciso saber atuar. Seguindo esse raciocínio, ela deixou grandes nomes de fora para unir um punhado de atores afiados e bem preparados. Para o papel de Nelson, por exemplo, a diretora buscava um intérprete que apresentasse o ecletismo do jornalista. “Ele tanto lê muito como faz uma ponte com a rua, como gostar de carnaval.” Daí sua escolha recair sobre Bruno Fraga, ator dono de uma voz potente e sedutora, além de conseguir traduzir no palco toda a ternura e a energia de Nelson Motta.

“Assisti a muitos vídeos da época, buscando detalhes como forma de falar e gestos”, conta o ator, que era bombardeado por informações pelas pessoas que conhecem o jornalista há muito tempo, como Deborah e a filha dele, Joana. “No início, era desesperador, mas, aos poucos, fui trazendo o texto para mim até encontrar o jeito de ser do Nelson, sua alegria, tranquilidade, docilidade. Ele não é um personagem com características fortes como Cazuza ou Tim Maia, que já inspiraram musicais, mas tem um detalhe aqui, outro ali que o tornam especial.” A certeza do caminho certo foi dada pelo próprio Nelson Motta, que o cumprimentou logo no primeiro ensaio.

Com um elenco de 17 atores e seis bailarinos (a novidade é a presença de Érico Bras no papel antes defendido por André Ramiro), O Frenético Dancin’ Days surpreende por não contar com uma banda, mas com uma arrojada tecnologia de edição e manipulação de samples e loopings orquestradas por Alexandre Elias e que resulta em um som impressionante, capaz de acompanhar a pulsação dos atores e bailarinos. “No começo, era estranho cantar sem a presença de um maestro, mas logo nos acostumamos”, conta Fraga. 

 

Projetos. Nelson Motta é incansável – enquanto O Frenético Dancin’ Days ainda levanta voo, ele já prepara novos projetos musicais. Como ter a assinatura da coreógrafa Deborah Colker em uma nova versão de Tim Maia – Vale Tudo, o Musical, que João Fonseca dirigiu em 2012 e consagrou Tiago Abravanel no papel principal. “Mas quero agora uma versão mais enxuta, de no máximo 1h40 de duração, e que não seja cronológica”, diz. Ao Estado, Deborah apenas riu, mas não confirmou sua presença. “Vou ainda conversar com o Nelson.”

Mas o que realmente tem ocupado o tempo do jornalista e crítico musical é a edição de um importante documentário sobre a produção de um disco seminal, Elis & Tom. Realizadas entre 22 de fevereiro e 9 de março de 1974, no MGM Studios de Los Angeles, as gravações foram marcadas por discussões acaloradas e carinhos explícitos.

“Eles se estranharam no início, pois Tom Jobim não queria elementos eletrônicos na execução de músicas da Bossa Nova, como Elis, mas logo se acertaram e terminaram entre beijos e abraços”, conta Motta, que trabalha na edição de 16 horas de imagens, gravadas por Roberto de Oliveira. A previsão é que o documentário esteja pronto até agosto, quando se completam 45 anos de lançamento do disco. 

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ENTREVISTA

Érico Brás, ator

‘Trilha sonora contagia a plateia’

Como você se preparou para viver Dom Pepe, que foi um dos primeiros DJs do Brasil? 

Primeiro, fui conversar com o Nelson Motta, que é o autor da história e conheceu todas as particularidades do Dom Pepe. Também falei com amigos que trabalham atualmente comigo na Globo, como Otávio Muller e Evandro Mesquita, que viveram aquela época. Em seguida, fui conhecer em detalhes como estava estruturado o momento político do Brasil naquele ano de 1976, especialmente o comportamento social da juventude e como isso se encaixava em uma boate, que se destacava por ser um lugar pleno de liberdade.

Deborah Colker elogiou, entre outros detalhes, seu timing de humor. Como essa graça se encaixa no espetáculo? 

Costumo ser honesto com as histórias. Na minha pesquisa, procurei entender como era a felicidade naquela época. Nelson me contou que havia muitos fluxos de alegria na discoteca e isso resultava em muitas risadas, o que trouxemos para o espetáculo. A comédia é um respiro para a história que, por mais que seja leve, tem o humor como uma ferramenta para ajudar o público a dissolver as situações e a absorver também o discurso da peça – por mais que aqui não seja político, o discurso vale a pena ser refletido e a comédia ajuda na assimilação.

A trilha musical daqueles anos 1970 é espetacular, mas como é cantar sem orquestra? 

Cantar é cantar, de qualquer forma. Isso varia de um solfejar a cantar junto com uma banda ao vivo ou um playback. O barato dessa trilha é levar o espectador, junto com o elenco, para uma determinada época. A plateia acaba contagiada, mesmo aquelas pessoas que não viveram aquele momento. Cantar com ou sem orquestra em um musical genuinamente brasileiro não faz diferença. O que importa é que a arte em si está assentada no palco e consegue contagiar o público.

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O FRENÉTICO DANCIN’ DAYS

Teatro Opus. Shopping Villa-Lobos. Av. das Nações Unidas, 4.777, 4º piso. 6ª, 21h. 

Sáb., 17h e 21h. Dom., 18h. R$ 75 / R$ 170. Até 26/5. Estreia 15/3

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