Amanda Cibele / Divlulgação
Amanda Cibele / Divlulgação

Musical 'My Fair Lady' ganha nova versão e prova como seus temas continuam contemporâneos

Espetáculo estreia neste sábado, 27, no Teatro Santander, em São Paulo

Ubiratan Brasil, O Estado de S. Paulo

25 de agosto de 2016 | 06h00

Uma imensa reprodução da página de um jornal ocupa todo o palco do Teatro Santander. Trata-se de uma publicação inglesa, com notícias do início do século passado e, se o espectador notar com cuidado, terá ali algumas dicas do musical que assistirá em seguida – como as elegantes corridas de cavalo, a primeira viagem do transatlântico Aquitania ou a notícia sobre a mobilização de mulheres em torno do direito de votar. É sobre a afirmação da condição feminina na sociedade que trata My Fair Lady, grandioso espetáculo que estreia neste sábado, 27. “E também de muitos outros assuntos importantes sobre a condição humana”, completa Jorge Takla, responsável pela concepção cênica e um dos produtores da peça, ao lado de Stephanie Mayorkis, diretora da divisão de teatro de IMM Esporte e Entretenimento.

Um dos mais importantes musicais de todos os tempos, My Fair Lady, que estreou na Broadway em 1956, tem grandes trunfos. Primeiro, o texto, inspirado na peça Pigmalião, de George Bernard Shaw (1856-1950), que traça um panorama crítico e bem-humorado da relação entre homem e mulher. Shaw também é um exemplo de dramaturgo que domina o verbo e o deseja ver potencializado na voz do intérprete, o que acontece nessa montagem.

Por fim, a bela trilha sonora, com libreto de Alan Jay Lerner e música de Frederick Loewe, que inclui canções que hoje figuram no cancioneiro popular, títulos como I Could Have Danced All Night, On the Street Where You Live, Get me to the Church on Time, e a divertida The Rain in Spain. “A música é perfeita”, observa o jornalista e escritor João Máximo, em texto escrito especialmente para o espetáculo. “Pôde servir às intenções do espetáculo e, ao mesmo tempo, ter vida própria fora dele.”

A trama é conhecida graças principalmente à versão cinematográfica de 1964, dirigida por George Cukor e estrelada por Rex Harrison e Audrey Hepburn. Trata-se da famosa história do cavalheiro da alta sociedade, professor de inglês, que aceita uma aposta: a de que conseguirá transformar uma vendedora de rua, que não tem nenhum gesto refinado, em uma dama da sociedade.

“Essa montagem acontece em um momento oportuno”, acredita Stephanie. “A sociedade busca discutir de forma mais ampla temas e questões tratadas no texto e que, infelizmente, ainda são muito atuais como a discriminação de classe, o preconceito de gênero e as barreiras sociais.”

Temas de ‘My Fair Lady’ continuam contemporâneos, como barreiras sociais e discriminação de classe

A versão de My Fair Lady marca duas estreias distintas: a do experiente barítono Paulo Szot em um musical brasileiro e a primeira montagem de fôlego da novata Daniele Nastri. Ele vive Higgins, professor de fonética que, para comprovar a eficiência de sua técnica, faz uma aposta na qual garante transformar Eliza Doolitle, uma florista rudimentar (personagem de Daniele), em uma grande dama. “São papéis que exigem não apenas um ótimos cantores, mas principalmente intérpretes que saibam representar”, garante o encenador Jorge Takla, que já dirigiu uma montagem dessa peça em 2007.

Szot notabilizou-se como cantor de ópera. Nos Estados Unidos, onde faz temporadas regulares no Metropolitan, também trabalhou na Broadway e, em 2008, ganhou o Tony de melhor ator por sua atuação no clássico South Pacific. Além da excelente técnica vocal, em que explora com desenvoltura a tessitura da voz, o barítono sempre se destacou também pelo tipo físico e pela energia cênica.

Já a soprano Daniele Nastri iniciou carreira em Goiânia, onde desenvolveu uma sólida formação em óperas – interpretou a rainha das fadas Tytania, de Sonho de Uma Noite de Verão. E estreia agora em um musical. “A dificuldade do papel se traduziu logo nas audições, que duraram três dias seguidos”, conta a atriz, que foi testada não apenas no canto, como também em atuação e dança. “Eliza passa por uma profunda transformação e isso precisa ser muito bem mostrado pela responsável pelo papel”, comenta Takla. “Fui alfabetizada em inglês (meu pai estudou na Inglaterra), o que me permite entender mais facilmente como o modo de falar indica a classe social de cada um”, completa a atriz.

A dicção é, de fato, essencial – e também em relação às canções. “My Fair Lady é uma obra sofisticada, em que as entrelinhas são muito importantes”, comenta Luis Gustavo Petro, compositor e maestro responsável pela regência. “O segmento dramático vem da orquestração.” Ele precisou reescrever os compassos originais e adaptá-los para 14 músicos, que é o tamanho da orquestra – no original, são 30. “Como se trata de uma partitura muito rica, o trabalho de reescrita foi minucioso para manter o respeito ao original.”

Sofisticação é uma qualidade presente em todo o espetáculo. Fabio Namatame, por exemplo, apostou em cores mais densas, com o predomínio do colorido, ao criar os figurinos. “Meu conceito visual se baseia na época em que se passa o musical (anos 1910), mas com um olhar mais contemporâneo”, explica ele, que também cuidou do guarda-roupa da montagem de 2007, dirigida por Takla. “É desesperador você voltar a uma obra que teve sucesso. Para não me tornar refém, decidi que ser diferente seria o melhor caminho.”

Os figurinos estão de acordo com o cenário criado pelo argentino Nicolás Boni que, depois de uma extensa carreira trabalhando na ópera, também estreia em um musical. O cenógrafo apostou na sofisticação, especialmente na cena do baile, uma das mais deslumbrantes, ainda que teve de enfrentar o desafio das constantes trocas de cenário. “A precisão é fundamental”, explica Boni, que decidiu abrir o espetáculo com a enorme reprodução de um jornal britânico dos anos 1910. Trata-se, na verdade, da junção de diversas notícias da época que fazem referência aos temas do musical. “Há até uma crítica do Pigmaleão, do Shaw, na lateral.”

“Eterno desafio é sempre se desconstruir”

Paulo Szot exercita seu talento dramático não apenas nas canções, mas também nas muitas cenas faladas, que correspondem à quase dois terços do espetáculo. Sobre o assunto, ele falou ao Estado.

Como é o desafio de enfrentar o papel do professor Higgins?

Muito estimulante, mas também um desafio, talvez o maior de minha carreira. Em um musical, o ensaio não é repetido integralmente em cena, pois a interpretação faz com que aconteçam mudanças, o que é natural. Mas isso também dá um frescor ao trabalho dos atores.

Qual a diferença entre participar de um musical e de uma ópera?

Na ópera, a linha musical é restrita. Também na ópera, o canal de comunicação com o público é a voz – se você não tem um agudo tecnicamente resolvido, por exemplo, não adianta. Nesse caso, o ator precisa encontrar a humanidade indicada pelo texto e pelas canções. Daí o eterno desafio de se desconstruir. 

MY FAIR LADY

Teatro Santander.

Shopping JK. Av. Juscelino Kubitschek, 2041. 5ª e 6ª, 21h. Sáb., 17h e 21h. Dom., 16h e 20h.

R$ 50/R$ 260. Até 6/11

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