Flavia Canavarro
Flavia Canavarro

Musical ‘Lazarus’ revela o testamento de David Bowie

‘Estado’ revela detalhes sobre obra baseada no último disco do artista

Ubiratan Brasil, O Estado de S.Paulo

20 de agosto de 2019 | 07h00

Um dos musicais mais aguardados do ano, Lazarus impressiona pelas mensagens cuidadosamente deixadas nas entrelinhas por seu autor, David Bowie, que o finalizou em seu último ano de vida. Afinal, trata-se de uma obra que reflete o estado de espírito de um artista lutando entre o momento de estar vivo e a iminência de deixar tudo para trás. “Lazarus, entre outros assuntos, trata de morte e ressurreição”, comenta Felipe Hirsch, diretor da versão nacional que estreia na sexta-feira, 23, inaugurando um novo espaço, o Teatro Unimed.

De fato, até 10 de janeiro de 2016, quando o mundo foi surpreendido pela notícia de sua morte, em decorrência de um câncer de fígado, Bowie, que completara 69 anos dois dias antes, trabalhou cuidadosamente no álbum Blackstar e no musical Lazarus. E, em ambos, a finitude é um tema que permeia várias letras. “Mas Bowie não traz isso de forma simples, evidente. Seu trabalho tornou-se clássico porque ele nunca refletia diretamente sobre o que se passava com o mundo naquele momento da criação – ele tinha a capacidade de selecionar as ideias que estavam fora do mainstream e que, muitas vezes, só iríamos entender o significado anos depois”, observa Hirsch. “Por isso, Lazarus é mais um convite a uma navegação sensorial que simplesmente uma peça com enredo e música.”

Escrito por Bowie e pelo dramaturgo irlandês Enda Walsh, o espetáculo se inspira no romance O Homem que Caiu na Terra, publicado por Walter Tevis em 1963, cuja versão para o cinema, rodada em 1976, teve o cantor como protagonista. Trata-se da vida atormentada de Thomas Jerome Newton, um alienígena que viaja para a Terra para salvar seu planeta, ameaçado pela falta de água. Na verdade, no palco, Newton é um ser alcoólatra, sem objetivo e incapaz de modificar sua terrível situação: imortal e incapaz de deixar a Terra. “Bowie vivia essa situação intermediária, buscando se encontrar em vez de simplesmente se deixar ir”, explica Hirsch. “Acredito que Walsh veio para ajudar a organizar essas ideias.”

Com total liberdade para reorganizar o original (condição essencial, aliás, para aceitar o convite feito pela Dueto Produções, de Monique Gardenberg), o encenador buscou um caminho distinto das montagens de Londres e Nova York. “Fui mais fiel ao livro de Tevis, que busca descobrir a origem de sua existência.” 

Para isso, contou com a ajuda de colaboradores fiéis ao seu pensamento. Assim, para a direção musical, ele convidou Maria Beraldo e Mariá Portugal, hábeis em criar sonoridades a partir da voz e de instrumentos. As canções, assim, fazem uma interessante costura com o tom ligeiramente onírico da trama. “O trabalho delas traz uma transcendência, alcançando o espírito das músicas de Bowie”, confia o encenador. 

Já Daniela Thomas e Felipe Tassara criaram novamente um cenário instigante, em que o palco se movimenta, formando pequenos declives que auxiliam para mostrar o estado de espírito dos personagens. Com a presença de um enorme espelho atrás, que também se movimenta, Hirsch criou cenas de puro ilusionismo, dignas do canadense Robert Lepage, graças ainda às projeções que identificam o cenário. 

E a trilha traz 18 canções especialmente escolhidas por Bowie, como Life on Mars, Valentine’s Day e Changes. Destaque para as três que foram escritas especialmente para o musical: No Plan, Killing a Little Time e When I Meet You. Hirsch refletiu e, ainda que Bowie preferisse o contrário, manteve uma versão de Heroes no final, como nas outras montagens.

Palco traz espelho que se mexe e alien que luta com a gravidade 

Com cabelo descolorido, Jesuíta Barbosa vive Newton, o protagonista que enfrenta o álcool e a imortalidade​

No primeiro encontro em que falaram sobre Lazarus, David Bowie entregou quatro páginas ao dramaturgo irlandês Enda Walsh. “É daqui que eu gostaria de começar”, disse Bowie, que apresentou três novos personagens para contracenar com o alienígena Thomas Newton: uma garota, que podia ser ou não real, um assassino em massa chamado Valentine e uma mulher inspirada em Emma Lazarus, a escritora americana cujo poema The New Colossus está esculpido na base da Estátua da Liberdade – ou seja, uma personagem que facilmente se apaixonaria por Newton, o mais viajado dos imigrantes.

“Conversamos sobre pessoas fora de controle, cuja história é marcada tanto por uma tristeza obscura como por beleza, amor incondicional e bondade”, afirma Walsh, em texto sobre o espetáculo. “É verdade: os personagens criados por Bowie trazem uma profunda teatralidade, algo que percebemos em sua música”, comenta Bruna Guerin, que vive Garota, a que pode não ser real. 

Especialista no gênero musical (participou de grandes montagens como Cantando na Chuva), ela passou por um processo diferente, típico da forma de trabalho do encenador Felipe Hirsch. “Passamos dois meses em imersão na obra do Bowie sem se preocupar com a busca do canto perfeito. O desejado é algo mais puro, mesmo que sujo, com alguma nota desafinada.” 

Bowie sabia que seu tempo se encurtava, o que justifica frases dilacerantes ditas por Newton como “Sou um homem morrendo que não pode morrer” ou “Olhe aqui em cima, estou no céu”. 

“Seu trabalho era reconhecido pela humanidade, mas Bowie nunca fez discos fáceis porque eram extremamente autorais”, explica Hirsch, que descobriu a obra do cantor inglês nos anos 1980, quando era um jovem de 11 anos, tornando-se então um especialista.

“Bowie arma um jogo de memórias em um ambiente fantasioso”, observa Jesuíta Barbosa, intérprete de Newton, papel que lhe obrigou a descolorir os cabelos. Como o alienígena sofre problemas com a gravidade, o ator anda aos tropeços, o que é visível graças ao detalhado trabalho corporal criado por Alejandro Ahmed, que também mirou o elenco. “Buscamos encontrar a musicalidade no físico, algo que Bowie expressava com maestria”, afirma Rafael Losso, estreando em musical como Valentine.

Lazarus tem um final comovente, que não vale revelar. A cena fecha um ciclo com o início da trama, em que dois personagens conversam: “Existe um fim para isso?” e “Você vai ser livre”. O espetáculo estreia o Teatro Unimed, que ocupa três dos 18 andares do edifício Santos Augusta, iniciativa do empresário Fernando Tchalian. Projetado por Isay Weinfeld, o teatro tem 249 lugares divididos em duas plateias.

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