Jimmy King
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Musical ‘Lazarus’, escrito por David Bowie no final da vida, ganha os palcos com Felipe Hirsch

Estreia da versão brasileira de Lazarus está prevista para agosto no novo Teatro Unimed, na esquina da Rua Augusta com a Alameda Santos

Ubiratan Brasil, O Estado de S. Paulo

02 de junho de 2019 | 03h00

David Bowie realizou seus últimos trabalhos sob o espectro da morte. Três meses antes de seu falecimento, em 10 de janeiro de 2016, o cantor e compositor britânico soube que sofria de um câncer terminal. Nesse período, ele conseguiu lançar seu 25.º disco de estúdio, Blackstar, e acompanhar a estreia de seu musical Lazarus, em Nova York, em dezembro de 2015. “São projetos de um artista que esperava pela morte, portanto, recheados de simbolismos”, comenta o encenador Felipe Hirsch, que prepara uma versão de Lazarus, com previsão de estreia em 22 de agosto, quando abrirá uma nova sala de espetáculos, o Teatro Unimed.

O musical apresenta uma série de canções que pertenciam ao catálogo de Bowie (como Heroes, Life on Mars e Absolute Beginners), além quatro novas faixas (Lazarus e Killing a Little Time são algumas) – todas serão interpretadas em inglês, por obrigação contratual. Inspirado no romance de ficção científica O Homem que Caiu na Terra – escrito por Walter Travis, em 1963, e levado ao cinema em 1976, com Bowie no papel principal –, o espetáculo acompanha a atormentada vida de Thomas Newton, um alienígena que vive na Terra disfarçado de humano, incapaz de morrer.

“Bowie falava sobre isolamento e, no caso dele, referia-se aos dez anos em que estava sem gravar um disco”, comenta Hirsch. “O personagem de Lazarus permanece diante da TV para expressar sua solidão, o que é semelhante aos dias de hoje, em que as pessoas fixam seu olhar diante de várias telas, também isoladas.”

Conhecido pelas novidades que acrescenta às suas encenações, Hirsch aceitou o convite também por ter a liberdade de modificar o original, criado por Bowie e pelo dramaturgo irlandês Enda Walsh. Assim, para a direção musical, ele convidou Maria Beraldo e Mariá Portugal, hábeis em criar sonoridades a partir da voz e de instrumentos. Os ensaios começam no dia 20 de junho, mas um detalhe está definido: nenhum ator interpretará um personagem que lembre David Bowie. “Pretendo espalhar suas características entre todos eles – assim, Valentine trará referências da fase mais cabaré de Bowie.”

Hirsch também não pretende se prender no filme estrelado pelo cantor. “Era uma fase em que ele queria ser ator, mas é notável como

Bowie é maior que o longa – ele não cabe na história”, afirma. “A experiência extraterrena tratada pelo musical também não pode ser facilmente identificada com a morte, pois Bowie não era um artista óbvio. O que se vê ali é um homem buscando descobrir como viver seu último ano de vida.”

De fato, ao discutir o musical com Bowie, o dramaturgo Walsh relembrou, em entrevista à France Presse, em 2016, que a conversa versou primeiro sobre como uma pessoa experimenta a morte. “Começamos falando sobre escapar, mas logo o foco foi para alguém que tenta encontrar o descanso. Sobre morrer de uma maneira mais fácil.”

O musical aborda temas próximos a Bowie: a busca de identidade, o sentimento de solidão e abandono e as relações com os outros e com o mundo. Por lidar com tantos temas, Hirsch optou também por montar um elenco heterogêneo, com atores experimentados em musical, como Bruna Guerin, como aqueles ainda debutantes – é o caso de Jesuíta Barbosa, que estreia no gênero. Outros nomes já confirmados são Carla Salle, Erom Cordeiro, Luci Salutes, Natasha Jascalevich, Olivia Torres, Rafael Losso e Valentina Herszage. O período, agora, é de pesquisa. “Estou fascinada por conhecer mais profundamente o universo do Bowie”, diz Bruna. “Era um artista plenamente teatral: sua poesia abraçava todas as artes.”

‘Bowie traz uma sinceridade comovente’, diz Jesuíta Barbosa

O diretor Felipe Hirsch conta que ficou emocionado com o teste feito por Jesuíta Barbosa para definir o elenco. “Eu buscava um ator que, ao cantar, unisse também o trabalho de atuação. E Jesuíta me encantou.” Sobre o desafio, o ator conversou com o Estado.

Como é sua relação com o teatro musical?

Sempre gostei desse assunto, via muitos espetáculos em Fortaleza. Até participei de uma montagem de Hairspray, mas em menor escala. Ali percebi que a música favorece uma animação cênica. E ainda tem a exigência da técnica, o que é bom para qualquer ator.

Como você se prepara?

Fiz aulas de canto, especialmente durante a gravação da série Onde Nascem os Fortes, em que meu personagem, Ramirinho, se transforma Shakira do Sertão e grava um videoclipe. Tive de estudar durante três meses para poder cantar. 

E o que você espera do aspecto musical de Lazarus, com as canções de Bowie?

Bom, quem conhece o Felipe sabe que ele não trabalha com formato fechado – sempre traz uma dramaturgia original. O mesmo acontece com as diretoras musicais, a Maria (Beraldo) e a Mariá (Portugal): elas têm um trabalho arrojado, independente, experimental. É um conceito que combina bem com o trabalho de David Bowie, que não é nada engessado.

Aliás, como você analisa o trabalho dele nesse musical?

Bowie apresenta aqui uma sinceridade comovente, algo comum em sua vida – ele sempre foi sincero. No musical, ele parece se colocar como um extraterrestre para mostrar uma espécie de despertencimento, o que possibilita que ele tire os pés da Terra e se questione sobre passado e futuro. E também permite um embate com temas religiosos, especialmente os delicados.

Diretora Monique Gardenberg cuida da programação

Projetado por Isay Weinfeld, o espaço que vai ser inaugurado por Lazarus ganhou nome depois de negociado o chamado ‘naming rights’, ou seja, a associação de uma marca a uma área cultural ou esportiva. Assim, o espaço localizado entre o 1º e o 3º pavimentos do Santos Augusta, edifício encravado na esquina da Rua Augusta com Alameda Santos, vai se chamar Teatro Unimed.

Com plateia superior e inferior, o espaço terá um total de 249 lugares, além de dois camarins. A programação ficará a cargo da Dueto Produções, sob o comando de Monique Gardenberg, especializada tanto na direção de espetáculos como na organização de grandes eventos. Assim, o espaço tanto receberá peças teatrais e espetáculos de dança como pocket shows e performance art. 

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