GABRIELA BILO / ESTADAO
GABRIELA BILO / ESTADAO

Musical de Miguel Falabella celebra um grande mistério da mente humana

Com Mirna Rubin e Alessandra Maestrini, 'O Som e a Sílaba' retrata relação de jovem autista com sua professora de canto

Ubiratan Brasil, O Estado de S.Paulo

07 Outubro 2017 | 05h00

Fã confesso do talento da atriz Alessandra Maestrini, Miguel Falabella sentia a necessidade de criar um espetáculo especialmente para ela, capaz de apresentar toda a extensão de suas habilidades vocais e de interpretação.

Era 2010 e, ao tomar contato com uma poesia de Emily Dickinson ao mesmo tempo em que aprofundou seu conhecimento sobre uma síndrome não tão rara, Falabella escreveu O Som e a Sílaba, delicado musical de câmara que estreou na sexta-feira, 6, no Teatro Porto Seguro.

“Meus projetos nascem depois de uma longa gestação”, conta Falabella que, inicialmente, pretendia criar um papel para Alessandra, soprano absoluta, exibir sua tessitura vocal que atinge quatro oitavas. Sem um caminho definido, ele encontrou o fio da meada nos versos da poeta americana Emily Dickinson (1830-1886), sua longa companheira de viagem, especificamente esses: “A mente pesa tanto quanto Deus. / Se a pesagem é feita com instrumento bom, / A diferença, se houver, / É da sílaba para o som”. “Especialmente esse último verso me fez pensar em pessoas com habilidades específicas que, por causa disso, vivem à margem da sociedade.”

Nascia, assim, a história de Sarah Leighton (Alessandra), uma jovem com diagnóstico de autismo altamente funcional, com habilidades específicas em algumas áreas e sua relação com Leonor Delis (Mirna Rubim), sua professora de canto recém-divorciada. “A música vai unir essas duas mulheres e esse encontro mudará a vida de ambas”, conta Mirna, também conhecida no meio artístico como uma das mais procuradas preparadoras vocais do País. “Leonor já percebe sinais de que sua carreira está decaindo e quer fechar. Sarah, por outro lado, quer mostrar seu talento para todos.”

É justamente do encontro entre duas mulheres com disposições tão distintas que brota uma amorosa relação de amizade. Sarah tem síndrome de Asperger, que a torna sensível a determinados assuntos de seu interesse, ao mesmo tempo que permite a ela desenvolver habilidades incomuns, como afiada memorização e um cuidado extremado com o canto.

“Miguel me apresentou uma extensa pesquisa sobre o assunto, eu também consultei sites e li depoimentos de pessoas autistas, mas necessitava ter um contato com alguém com essa síndrome”, conta Alessandra, que encontrou o apoio ideal com a cineasta Julia Balducci, que é autista. “Com ela, conheci os desejos, os temores, o charme e a maneira amorosa de se relacionar com a vida e com os outros.”

Assim, os anseios de ambas provocam uma transformação. “São duas mulheres diferentes, mas que se entendem. Isso é o que me interessava: falar de tolerância entre pessoas que respeitam os desejos do outro”, conta Falabella, que selecionou para a trama uma caprichada lista de canções líricas apresentadas pelas atrizes – desde Vissi d’Arte, de Giacomo Puccini, a O Mio Babbino Caro, da ópera Gianni Schichi, também de Puccini e que foi imortalizada por Maria Callas. Sem se esquecer do Dueto das Flores, da ópera Lakmé, de Léo Delibes, um dos mais belos duetos existentes entre soprano e mezzo-soprano.

A performance vocal da dupla beira a perfeição, o que obrigou a produção a fazer um curioso anúncio antes de cada encenação, depois da dúvida surgida no público, em apresentações prévias: “As músicas são, de fato, cantadas pelas atrizes”.

O SOM E A SÍLABA. Teatro Porto Seguro. Al. Barão de Piracicaba, 740; 3226-7300. 6ª e sáb., 21h. Dom., 19h. R$ 90 / R$ 120. Até 26/11 

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