Tiago Queiroz/Estadão
Tiago Queiroz/Estadão

'Constellation' traz 16 canções clássicas do repertório americano

Escrito por Cláudio Magnavita, musical se passa em Copacabana

Ubiratan Brasil , O Estado de S. Paulo

31 Julho 2015 | 03h00

No dia 2 de agosto de 1955, o mundo pareceu realmente menor para os cariocas. Naquela data, a Varig, então maior companhia aérea brasileira, inaugurou uma nova rota entre o Rio e Nova York, utilizando sua nova aquisição, o Super Constellation G, a aeronave mais moderna que havia no mercado naquele momento. Com isso, o tempo de voo foi reduzido de 72 horas para cerca de 20 horas.

“Isso também permitiu um maior intercâmbio cultural entre o Brasil e os Estados Unidos”, comenta Jarbas Homem de Mello, ator que até recentemente era o protagonista de Chaplin - O Musical e que agora assina a direção de Constellation - Uma Viagem Musical pelos Anos 50, que estreia no domingo, quando justamente se completam 60 anos do voo inaugural.

Escrito por Cláudio Magnavita, o musical é ambientado no bairro de Copacabana, em 1955, época de ouro pois o Rio encantava celebridades internacionais e lançava modismos que se espalhavam pelo País. “É um momento em que o bairro começa a atrair mais moradores, gerando um boom imobiliário”, conta Jarbas. “Foi uma época de muito romantismo, Copacabana vivia seu apogeu, as pessoas se arrumavam mesmo para ficarem em casa.”

A história acompanha a jovem Regina Lúcia (interpretada por Jullie, participante do programa The Voice) que, como várias outras, sonha com a possibilidade de ganhar uma passagem para Nova York no primeiro voo do Super Constellation G. Ela participa de um concurso promovido pela Rádio Nacional, cuja final acontecerá no Golden Room Copacabana Palace. Regina Lúcia vive com a mãe (Lovie Elizabeth), que está separada do marido, e a tia Maria da Penha (Andréa Veiga) em um quarto e sala localizado no famoso bairro.

“A menina sonha conhecer o mundo, enquanto a mãe se sacrifica para ter um apartamento em Copa. São dois momentos distintos vividos pelas pessoas naquela época. E a escolha dos passageiros que fariam parte das primeiras viagens foi feita por Jorginho Guinle, nome destacado da alta sociedade do momento”, conta Jarbas. “Assim, celebridades como a miss Brasil Martha Rocha foi uma das convidadas, enquanto que o voo de volta trouxe artistas como a atriz Lauren Bacall.”

Os anos 1950 foram marcados por grandes avanços científicos e tecnológicos, que mudaram o comportamento da sociedade. A televisão, por exemplo, chegou em 1950 e, aos poucos, modificou a formato da comunicação em larga escala.

“A chegada do Constellation permitiu que a alta sociedade frequentasse a Big Apple e isso trouxe uma grande influência musical. Ao mesmo tempo, Copacabana viu seus imóveis diminuírem de tamanho e serem ocupados por jovens sonhadoras pela american way of life”, observa o produtor Frederico Reder. Para ilustrar isso, foram escolhidas 16 músicas clássicas do cancioneiro americano, como Blue Moon (Richard Rodgers / Lorenz Hart), Only You (A. Rand / Buck Ram), Stand By Me (B. King / J. Leiber / M. Stoller) e Unforgettable (I. Gordon), todas interpretadas em inglês. “Nunca pensamos em fazer uma versão das letras para o português pois são canções que têm um apelo muito grande e não seria recomendável adaptar”, diz o diretor, que cuidou dos detalhes da reconstituição da época.

A cenografia de Natalia Lana e os figurinos de Patrícia Muniz buscam reproduzir o colorido e o glamour dos anos 1950. Já a coreografia, assinada por Vanessa Guillen, buscou um meio termo entre o antigo e o moderno. “Não podíamos ter apenas passos típicos daquela fase, mas também não era possível utilizar somente uma coreografia moderna”, comenta Jarbas. “A solução foi promover uma mistura entre os dois estilos, sem que nenhum descaracterizasse o outro.”

CONSTELLATION

Teatro Promon. Av. Juscelino Kubitschek, 1830. Tel.: 3071-4236. 5ª, 6ª, 21h. Sáb., 19h e 21h30. Dom., 18h. R$ 60 / R$ 150. Até 27/9

Aeronave trouxe, no voo oficial, cozinheiro da família real russa e, pela primeira vez no Brasil, mulheres comissárias

 

Em 1955, o Rio de Janeiro ainda era a capital do Brasil e o país contava com aproximadamente 52 milhões de habitantes. Café Soçaite, com Jorge Veiga, era a música mais tocada nas rádios, principal meio de comunicação da época - a televisão, surgida em 1950, em São Paulo, ainda engatinhava. 

Foi nesse cenário que a Varig, primeira empresa aérea brasileira fundada em 1927, inaugurou a rota entre o Brasil e Nova York com o avião Lockheed Super Constellation. Esse voo deu início à era das viagens de luxo na Varig. Os aviões tinham mordomias como espaçosas mesas, nas quais os passageiros divertiam-se jogando cartas, confortáveis poltronas reclináveis, cabines privativas à prova de som e até janelas panorâmicas. “Agora os brasileiros podem alcançar as principais cidades do mundo utilizando o rei do espaço: o Lockheed Super Constellation”, diziam os anúncios publicados do Estado

Além de todo o luxo e glamour, a nova aeronave era mais rápida e potente. O tempo de viagem da rota Brasil-Nova York caiu de 72 para 20 horas. Essa nova rota cobria o seguinte itinerário: Buenos Aires, Montevidéu, Porto Alegre, São Paulo, Rio de Janeiro, Belém, Trujillo e Nova York. Inicialmente, a frequência era de dois voos semanais.

Em reportagem publicada no Estado em 21 de julho de 1955, dizia-se que a aeronave comportava até 99 poltronas, mas, para as viagens de luxo, eram armadas somente 63 poltronas, o que proporcionava mais espaço para os passageiros.

O primeiro voo oficial do Constellation para os Estados Unidos aconteceu no dia 28 de julho de 1955, com um tempo de viagem de 20 horas, com parada em Belém do Pará, Trindade e Tobago e na República Dominicana. A bordo, um cozinheiro da família real russa assinava o cardápio que, pela primeira vez no Brasil, era servido por mulheres como comissárias de bordo. A passagem custava o que hoje seriam R$ 9 mil.

Em Constellation - Uma Viagem Musical aos Anos 50, a família da jovem Regina Lúcia se empenha para que ela seja uma das felizardas a ganhar uma passagem do primeiro voo comercial até Nova York - Regina vence ao ganhar um concurso promovido pela Rádio Nacional: ela acerta o título de três canções interpretadas pela orquestra no Golden Room do Copacabana Palace.

Além de viajar, ela ainda terá, ao seu lado no avião, Jorginho Guinle, famoso socialite e playboy que, no espetáculo, arma a lista de passageiros VIPs. /U.B

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