Musical com o cantor Diogo Nogueira propõe uma viagem história do samba

Desde as canções nascidas em terreiros até a apoteose na avenida, estreia do sambista como ator se dá em peça que narra a evolução do gênero brasileiro

Ubiratan Brasil, O Estado de S. Paulo

15 Março 2015 | 03h00

RIO - Diogo Nogueira sentia, intimamente, que estava no caminho certo, mas a confirmação veio quando observou a reação da mestra Beth Carvalho - ao lado de baluartes como Monarco, Arlindo e Jorge Aragão, a grande dama do samba acompanhou um ensaio de Sambra, mescla de musical e show que conta a trajetória desse ritmo em cem anos de história no Brasil. “Seu sorriso foi meu melhor elogio”, conta Diogo, estreando como ator no espetáculo que inicia carreira no Rio no dia 19 e chega a São Paulo no dia 26, com apresentações até domingo, 29, no Espaço das Américas.

A tarefa realmente não é fácil - escrito e dirigido por Gustavo Gasparani, o musical acompanha toda a transformação do samba, por meio de 70 músicas cantadas e outras 25 cujas letras inspiram os diálogos. “O samba é o protagonista”, explica Gasparani, que pesquisou durante três meses para escrever o texto. “Pensei em fazer uma espécie de almanaque teatral, distante do didático, mas sem perder a essência do samba. Por isso, eu me fixei nos movimentos, na chegada do choro, na relação do teatro com o samba, na irreverência das revistas, na importância da Praça XI, na explosão do rádio até chegar às escolas de samba.”

Um dos mais badalados sambistas da atualidade, Diogo Nogueira foi a primeira opção quando o projeto nasceu, fruto da parceria das empresas Musickeria e Aventura Entretenimento, unidas por uma ideia sugerida pelo publicitário Washington Olivetto. Empolgado com a ideia, Nogueira só ficou inseguro em relação à interpretação. “Era algo que nunca fiz, mas fiquei tranquilo quando o Gustavo me pedia para ficar à vontade em cena. Também os ensaios têm uma estrutura diferente dos de shows”, comenta o cantor que, além de cantar sucessos históricos, vive em cena diversos personagens marcantes como Francisco Alves e João Gilberto. “Jamais busquei imitar, apenas faço uma homenagem.”

Diogo está acostumado ao ambiente - filho de João Nogueira, ele cresceu nas rodas de samba organizadas pelo pai. “Minha casa vivia cheia de músicos. Muita vezes, quando eu ia dormir, eles estavam cantando e, quando acordava, continuavam tocando.”

Apadrinhado de Clara Nunes, Diogo Nogueira pertence à última fase da história do samba contada em Sambra. “O ritmo passou por uma série de modificações ao longo de sua trajetória e, mesmo não sendo linear, o musical mostra essas mudanças”, diz Gasparani.

A primeira história narrada em Sambra é a de Ernesto dos Santos, o Donga, que registrou na Biblioteca Nacional aquele que é conhecido como primeiro samba brasileiro gravado, Pelo Telefone, em 27 de novembro de 1916. E também provocou a primeira rusga oficial entre os músicos, pois Donga precisou incluir depois Mauro de Almeida como coautor. “Era comum, naquela época, as canções não terem apenas um criador, o que dificulta muitas vezes a identificação mais correta”, observa Gustavo Gasparani, autor e diretor do espetáculo. “Pelo Telefone, por exemplo, nasceu no quintal da Tia Ciata, importante figura do começo do século.”

Para evitar o didatismo, Gasparani pontilhou o enredo do musical de inúmeras licenças poéticas. A começar pelo encontro fictício entre Donga e Ismael Silva, quando ferve a discussão sobre a autoria do samba. “Podem dizer que não sou o único autor, podem dizer que não é o primeiro samba gravado, podem dizer até que não é samba! Mas uma coisa é certa: Pelo Telefone foi o primeiro samba gravado a fazer sucesso! E, depois dele, a nossa turma saiu do anonimato e entrou para a História. E esse feito é meu!”, brada Donga.

De fato, foi no carnaval de 1917 que o samba virou mania. A letra original ganhou foro de crítica de costume na paródia que se tornou mais conhecida do que a versão do autor: “O chefe da polícia, pelo telefone/ Manda me avisar/ Que na Carioca tem uma roleta/ Para se jogar”. 

É o marco zero do gênero no Brasil, ponto de partida para o musical se desdobrar ao longo do século e apresentar as inúmeras modificações sofridas pelas canções - de Pelo Telefone, um samba de terreiro de ritmo de maxixe, até mais recentes como Pra Tudo se Acabar na Quarta-Feira, de Martinho da Vila, e exemplos identificados como híbridos contemporâneos, ou seja, choros sambados (ou sambas chorados).

O grande estudioso e também compositor Nei Lopes costuma contar uma lenda segundo a qual o termo “samba” teria sua origem em dois verbos da língua iorubá: “san”, pagar, e “gbà”, receber. Dar e receber. 

A explicação é adequada para explicar o cotidiano dos terreiros onde o ritmo floresceu, no centro do Rio de Janeiro, espaço sociocultural que unia africanos e mestiços, e onde o samba rural baiano e outras formas musicais se encontraram e deram origem a composições como a registrada por Donga. 

“O samba urbano, então, nasce na ‘Pequena África’ de Sinhô e Donga; ganha forma no Estácio de Ismael Silva; lapida-se em torno da Vila Isabel de Noel Rosa; e se consolida em duas vertentes básicas: a de Ari Barroso e a de Ataulfo Alves”, escreve Nei Lopes, em um ensaio presente no encarte que acompanha a série Apoteose ao Samba, conjunto de seis CDs criado pelo jornalista e crítico de música Tárik de Souza, em 1997. 

“A partir daí, o samba sai do gueto, atinge mais camadas sociais, chega ao rádio e ao teatro de revista”, conta Gasparani. “A melodia torna-se mais crítica, ganha novos contornos com a Bossa Nova até que Paulinho da Viola e uma nova geração retorna ao samba de raiz que vai culminar com resgate dos terreiros, dos quais se destacam, entre outros, Zeca Pagodinho, Jorge Aragão e o próprio Diogo Nogueira.”

Nesse sobrevoo histórico, a trama mostra preciosidades históricas como estreias fundamentais (Dorival Caymmi com Carmem Miranda em O Que É Que a Baiana Tem, por exemplo), ou encontros que merecem nota, como o de Dona Ivone Lara e Clementina de Jesus em Sonho Meu, de Dona Ivone e Décio Carvalho.

Para dar conta de uma história tão fundamental (e fenomenal), Gasparani selecionou um elenco de 16 atores que mantêm uma íntima aproximação com o samba, a começar por Diogo Nogueira. “Isso é importante porque não é possível entrar em cena sem uma energia que sustenta e, ao mesmo tempo, dá resistência ao samba”, reconhece Nogueira.

Entre os destaques, Beatriz Rabello, estrela de Divina Elizeth e filha de Paulinho da Viola; Izabella Bicalho, que participou de musicais como Gota D’Água e Era nos Tempos do Rei; Ana Velloso, de Clara Nunes - Brasil Mestiço; e Cristiano Gualda, veterano ator de musicais, com passagem por Oui Oui... A França É Aqui e Quase Normal.

Sambra marca também a estreia promissora de Bruno Quixotte, rapaz de incrível desenvoltura cênica e presença cativante. O musical vai ainda se desdobrar em um livro sobre os 100 anos do samba, um portal, uma rádio web e um ciclo de encontros, com a presença de historiadores e compositores. E, nas estreias em Rio e São Paulo, acontecerão rodas de samba após as apresentações. 

AS CANÇÕES

‘Agoniza Mas Não Morre’

Nelson Sargento

‘Bebadosamba’

Paulinho da Viola

‘Benguelê’

Pixinguinha

‘Vatapá’

Dorival Caymmi

‘Ora Vejam Só’

Sinhô

‘Aquarela do Brasil’

Ary Barroso

‘No Rancho Fundo’

Ary Barroso e Lamartine Babo

‘Testamento de 

Partideiro’

Candeia

‘Dama do Cabaré’

Noel Rosa

‘Vingança’

Lupicínio Rodrigues

‘Brasil Pandeiro’

Assis Valente

‘Chega de Saudade’

Tom Jobim e Vinícius de Moraes

‘Coisa de Pele’

Jorge Aragão e Acyr Marques

‘Aquarela Brasileira’

Silas de Oliveira

‘Apoteose ao Samba’

Silas de Oliveira e Mano Décio Viola

SAMBRA

Espaço das Américas. Rua Tagipuru, 795, Barra Funda. tel. 3829-4899. Dia 26, 21h30; dias 27 e 28, 22h30; dia 29, 20 h. R$ 100/ R$ 160. 

OUÇA GRANDES CLÁSSICOS DO SAMBA

(Entre parênteses o ano da primeira gravação das canções)

Donga e Chico Buarque - Pelo Telefone (1917) - (Donga/Mauro de Almeida)

Noel Rosa - Com Que Roupa (1930) - (Noel Rosa)

Cartola - O Sol Nascerá (1964) - (Cartola/Elton Medeiros)

Martinho da Vila - Casa de Bamba (1968) - (Martinho da Vila)

Paulinho da Viola - Foi Um Rio Que Passou em Minha Vida (1970) - (Paulinho da Viola)

Beth Carvalho - Folhas Secas (1973) - (Nelson Cavaquinho/ Guilherme de Brito)

Alcione - Não Deixe o Samba Morrer (1975) - (Edson/Aloísio)

Clara Nunes - Banho de Manjericão (1979) - (João Nogueira/ Paulo César Pinheiro)

Zeca Pagodinho - Deixa a Vida Me Levar (2002) - (Serginho Meriti/ Eri do Cais)

Diogo Nogueira - Sou Eu (2009) - (Ivan Lins/ Chico Buarque)

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