Dalton Valério
Dalton Valério

Musical 'Céu Estrelado' trata de imigração embalado pelo cancioneiro popular brasileiro

Produção faz referência a clássicos da cultura popular e faixas icônicas, como 'Não Aprendi Dizer Adeus'

Dirceu Alves Jr., Especial para o Estadão

23 de junho de 2022 | 20h00

Protagonista do espetáculo Céu Estrelado, a potiguar Juliana Linhares deixou Natal, no Rio Grande do Norte, aos 20 anos para estudar teatro no Rio de Janeiro. Ela, que integrou o elenco de montagens como Ópera do Malandro (2015) e Gabriela (2016), dirigidas por João Falcão, viu seu percurso mudar de rota, no entanto, através do trabalho como cantora. No começo da pandemia, Juliana chamou a atenção em lives, como aquelas comandadas pela sambista Teresa Cristina, e, no ano passado, lançou o primeiro álbum, o elogiado Nordeste Ficção. “O teatro me deu a cantora que eu sou hoje”, diz a artista, aos 32 anos, que ainda é alternante de Laila Garin em A Hora da Estrela ou o Canto de Macabéa.

Diferentemente de Juliana, Antônia, a personagem de Céu Estrelado, peça que faz quatro apresentações, de quinta a domingo, no Centro Cultural Banco do Brasil, ainda não conquistou reconhecimento. No Rio, canta em bares para defender uns trocados e, depois de cinco anos, volta à cidade fictícia de Carneirinhos, onde nasceu, cresceu e saiu rompida com o pai, Seu Cris (representado por Bruno Garcia), contrário à vocação da filha. Junto dela chega o namorado estrangeiro (vivido por Hamilton Dias), e o conflito se intensifica diante do reencontro com Paixão (o ator Daniel Carneiro), um amor do passado, a irmã Cidinha (papel de Dani Câmara) e a faz-tudo da fazenda da família, Fafá (a atriz Natasha Jascalevich). “Meus pais foram grandes incentivadores e não saí brigada com ninguém, mas, muitas vezes, questionei minhas escolhas, assim como a Antônia”, confessa Juliana.   

Com direção cênica de Vinícius Arneiro e João Fonseca, Céu Estrelado investe em um típico sonho brasileiro, aquele que habita o imaginário de milhares de pessoas, como a real Juliana e a ficcional Antônia, que cresceram longe dos centros urbanos. A dramaturgia escrita pela carioca Carla Faour, inspirada nos movimentos migratórios, é costurada por canções famosas sob a direção musical de Tony Lucchesi.

Romaria, de Renato Teixeira, Nada Será Como Antes, de Milton Nascimento e Ronaldo Bastos, e Correnteza, de Tom Jobim, são interpretadas pelos seis atores apoiados pelo violonista Gabriel Quinto. Bate Coração, sucesso de Elba Ramalho, e Não Aprendi Dizer Adeus, gravada por Leandro e Leonardo, também aparecem na trama. “É gratificante quando percebemos que uma música composta há tanto tempo enriquece os diálogos de uma nova história, como foi o caso ainda de Tocando em Frente e Um Jeito Estúpido de te Amar”, comenta Arneiro. “Esse cancioneiro é transformado em auxiliar da dramaturgia.”

Histórias em torno da imigração atravessam a biografia de boa parte dos integrantes da equipe, cheia de sotaques e vivências que se misturam em cena. Assim como Juliana, Arneiro, de 36 anos, deixou aos 17 a cidade de Comendador Levy Gasparian, no interior do Rio, para estudar na capital. “Meus pais continuam lá, morando na mesma casa onde nasci e cada vez que os visito minha memória volta aos lugares em que brincava na infância”, declara o codiretor. 

Produtor e idealizador do projeto, o gaúcho Gustavo Nunes, de 47 anos, saiu de Cruz Alta aos 16 para viver em Porto Alegre, onde passou oito anos, e está há 21 no Rio. “Existe o vínculo com a terra, claro, e isso tenho com Cruz Alta, um flashback de todas as memórias voltam ao mesmo tempo quando piso lá, mas os laços afetivos eu reencontro em Porto Alegre”, justifica. “Por esse lado emotivo, quis recuperar um cancioneiro tão brasileiro e pouco prestigiado no teatro musical que une pessoas de diferentes regiões.” 

 

O pernambucano Bruno Garcia, de 51 anos, já carregava experiência de palco quando saiu do Recife aos 20 para solidificar uma carreira no Rio. “O meu interesse era trabalhar em televisão e cinema, um mercado que, poucos anos depois, despontou no Recife, mas, na época, estava estagnado”, lembra o ator, conhecido pelos papeis em novelas e séries da Rede Globo. 


Em sua vasta bagagem, o artista participou do musical A Ver Estrelas (1995), de João Falcão, e, além de atuar, escreveu, assinou a trilha sonora e dirigiu o infantojuvenil O Livro de Tatiana (2016). “Mas esta é a primeira vez que participo de um musical em que é preciso usar diferentes registros da voz”, avisa. “Sem falar que tratamos de um tema íntimo, essa questão do deslocamento, que também é o caso do meu pai, paraibano de Campina Grande, que construiu a vida no Recife e, agora, retornou à cidade natal.”

SERVIÇO

Céu Estrelado

CCBB-SP. Rua Álvares Penteado, 112 - Centro. Informações: (11) 4297-0600.

Sexta às 19h; sábado e domingo às 17h. Até domingo (26). 

Ingressos - R$ 30 e R$ 15

Classificação - 12 anos. Duração - 1h30.

Estacionamento conveniado: Rua da Consolação, 228. Valor: R$ 14 pelo período de até 6 horas. É necessário validar o ticket na bilheteria do CCBB.

Traslado gratuito até o CCBB. No trajeto de volta, a van tem parada na estação República do Metrô.

 

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