CAIO GALLUCCI
CAIO GALLUCCI

Musical ‘A Era do Rock’ recria o glam metal dos anos 1980

Gênero dominou a década com calças justas e cabeleiras, com bandas como Twisted Sister e Whitesnake

Ubiratan Brasil, O Estado de S. Paulo

25 Maio 2017 | 04h00

Quando voltou de Nova York, onde costuma assistir aos mais badalados musicais, o ator e diretor Léo Rommano desembarcou, no início do ano, com uma série de certezas para a montagem de A Era do Rock, espetáculo que tem a sua assinatura e que estreia no dia 2 de junho, no Teatro Porto Seguro. “Fiquei impressionado com a quebra da hierarquia que vi em cena: não havia mais separação entre coro, bailarinos e atores, como estamos acostumados. Isso tem uma relação direta com o espírito libertário da década de 1980, que marca A Era do Rock”, disse.

De fato, estreado em 2005 em Los Angeles, o musical logo se tornou símbolo de uma era em que enormes penteados e calças justas deram o contorno para o glam metal, vertente aqui conhecida como rock farofa e que é um subgênero do hard rock e do heavy metal, que combina elementos desses gêneros com o punk rock e a música pop. A falta de pudor estético se alastrava das canções às vestimentas e marcou a trajetória de bandas como Twisted Sister, Whitesnake, Europe, Foreigner, Poison e Extreme.

“Um momento de liberdade total”, conta Rommano, que cita os figurinos dos programas da Xuxa como exemplo inspirador dessa extravagância. “Assim, quando começamos a ensaiar, eu permiti que todos os atores improvisassem – queria que estivessem à vontade em cena. Com isso, percebi que muitos se revelaram e começaram a surpreender em cena.”

Um deles é Gabriel Bellas, jovem que veio de Niterói com praticamente nenhuma experiência em musical e, portanto, desconhecido para muito entendido no assunto. Ele vive Lonny Barnett, o narrador da história – é Lonny quem primeiro se dirige ao público e, aos poucos, apresenta o ambiente e o contexto da história. Mas Gabriel não faz de maneira convencional: seu entusiasmado, marcado por um humor afiado, apenas prepara o espectador para uma voz fenomenal – na verdade, um vozeirão. É Gabriel quem apresenta a forma como vai ser contada a trama, fazendo intervenções incomuns, como interrompendo o solo de algum cantor, acreditando que o público já entendeu o recado.

“Meu maior desafio é justamente o de contar essa história”, comenta ele. “É viver um personagem que está em 2017 e que fala de um assunto que se passa em 1987. Não pode haver confusão nesses dois tempos, a começar pelo vocabulário: em 1987, falava-se ‘chocante’ e não ‘irado’, como hoje em dia.”

Assim, é pelo gênio quase indomável de Lonny que o público é transportado para Los Angeles, onde ele é gerente da casa de shows Bourbon Room. Lá, Drew (Diego Montez) é um dos funcionários e ajuda a jovem Sherrie (Thuany Parente) a conseguir um emprego de garçonete. Recém-chegada de uma pequena cidade dos EUA, a garota sonha em se tornar uma atriz de sucesso, mas, logo ao desembarcar do ônibus, tem sua mala roubada. O consolo está em conhecer Drew, por quem, logicamente, vai se apaixonar.

O Bourbon é um lendário clube de música, onde muitas bandas de rock iniciaram sua carreira. Empresários alemães convencem o prefeito de Los Angeles a limpar a cidade a fim de transformá-la em um lugar “familiar”. Para que isso aconteça, é preciso que muito comércio duvidoso venha abaixo, incluindo o Bourbon Room. Dennis Dupree (Rodrigo Miallaret), o proprietário, acredita que pode salvar o seu clube se conseguir convencer o veterano astro do rock Stacee Jaxx (Ricardo Marques) e sua banda Arsenal a realizarem lá um show de despedida.

E tudo isso acontece à base de muito rock farofa, como I Wanna Rock e We’re Not Gonna Take It, do Twisted Sister. “Cantamos com a empolgação de um show de rock, mas sempre com o pé no musical”, conta Diego Montez, que tem nova chance de oferecer seu talento – depois de anos em papéis nem sempre de destaque, ele impressionou na recente montagem de Rent e agora, em A Era do Rock, começa a consolidar a posição de grande intérprete.

Diego, como o resto do elenco, valeu-se da liberdade criativa que marcou o início dos ensaios. “Algumas sugestões que surgiram logo foram incorporadas à montagem”, conta ele que, também como os demais, não se baseou no filme inspirado no musical e estrelado por Tom Cruise em 2012 para compor seu personagem. “O longa não traduz aquele espírito de liberdade”, atesta Thuany Parente. “Talvez seu mérito maior seja contar de forma mais realista a relação entre Drew e Sherrie”, completa Ricardo Marques, também produtor geral, à frente da empresa 4ACT Entretenimento, que banca a produção.

Apresentar canções de rock com a roupagem de um musical é o desafio de Paulo Nogueira, diretor musical. “Os arranjos respeitam os originais, mas com uma pegada mais teatral – o coro, por exemplo, às vezes é típico de um show; em outros momentos, lembra um de igreja”, conta ele, que comanda uma banda tratada como parte do elenco, posicionando-se no centro do palco e até com direito a falas. “As canções auxiliam o avanço da história ao mesmo tempo em que brincam com o gênero musical”, completa.

E, além das vastas cabeleiras e das roupas justas, o espírito dos anos 1980 é revivido pelos movimentos do elenco. “O corpo se movia de forma diferente: era mais exagerado, com cores intensas”, observa o coreógrafo Thiago Jansen. “E essa atitude corporal influenciava a atitude vocal.” 

A ERA DO ROCK

Teatro Porto Seguro. Al. Barão de Piracicaba, 740. Tel. 3226-7300. 6ª, 21h. Sáb., 17h e 21h. Dom., 18h. R$ 60 / R$ 120. Até 30/7. Estreia 2/6

 

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