REUTERS/Andreas Meier
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Muhammad Ali estrelou por 4 dias musical na Broadway

Em 1969, o maior boxeador de todos os tempos se arriscou como cantor em ‘Buck White’; e poucos se lembram

Adam Langer/NYT, O Estado de S. Paulo

03 de dezembro de 2019 | 08h00

Como o apresentador de esportes Howard Cosell costumava perguntar aos grandes boxeadores: o que deu errado aí, campeão? Quando o musical Buck White estreou no George Abbott Theatre em Nova York, no dia 2 de dezembro de 1969, havia três grandes atrações: o momento oportuno, a trilha sonora forte e sua estrela, o carismático peso-pesado Muhammad Ali.

Encenado na reunião de um grupo militante negro, o show foi baseado em Big Time Buck White, uma peça creditada ao ator e escritor branco Joseph Dolan Tuoti, desenvolvida na Oficina de Escritores de Budd Schulberg, em Los Angeles, e teve temporadas de sucesso por lá, na Filadélfia e no off-Broadway.

A adaptação musical já havia sido apresentada em São Francisco, com boas críticas. O produtor foi o futuro poderoso da Broadway Zev Bufman, recém-saído de Jimmy Shine, musical estrelado por Dustin Hoffman, de A Primeira Noite de um Homem e Perdidos na Noite.

No elenco: Ted Ross, futuro vencedor do Tony Award por The Wiz: O Mágico Inesquecível; Charles Weldon, que viria a ser o diretor artístico da Negro Ensemble Company; e o ator e produtor Ron Rich, que interpretou Luther Boom Boom Jackson em Uma Loura por um Milhão, filme de Billy Wilder. Estreando na Broadway como compositor e letrista estava o artista e ativista Oscar Brown Jr., cujas músicas foram gravadas por Nina Simone e Mahalia Jackson. Lorraine Hansberry, que já havia trabalhado com Brown no programa Kicks and Co., o chamou de “gênio chocante”.

Ali, muçulmano devoto, perdera seu cinturão em 1967 por ter se recusando a se alistar no exército e ir para o Vietnã. Embora não pudesse lutar profissionalmente, estava pronto um retorno. Ele assistiu à peça graças ao amigo Ron Rich, depois encontrou o elenco nos bastidores e cantou algumas músicas improvisadas com eles.

“Fiquei impressionado com sua capacidade de manter o tom. Sua voz era tão hipnotizante quanto seu charme como lutador”, disse Bufman, agora com 89 anos, que acrescentou que teve a ideia de transformar a peça em musical e trazer Ali para o espetáculo.

O New York Times publicou uma dúzia de artigos sobre Buck White. O musical foi capa da revista Jet; o elenco foi convidado para o The Ed Sullivan Show; a Buddah Records assinou contrato para um álbum com as músicas da peça. “A pré-estreia foi o evento teatral mais surpreendente que já vivi”, disse Bufman. “Ali estava brilhante. Esqueça Harry Belafonte. Esqueça qualquer um que já tenha feito Porgy and Bess. Nunca vi ninguém igual, ele tomou o palco com um carisma que deixou as pessoas de pé por cinco minutos seguidos”.

Quatro dias depois, Buck White fechou; hoje, é difícil encontrar muitas evidências de que o espetáculo tenha sequer existido - nenhum disco com o elenco, nenhum filme. Mas o que aconteceu? A recepção crítica tinha sido morna. No Times, Clive Barnes elogiou o elenco “brilhante”, mas disse que a musicalização afogou o que poderia ser uma peça poderosa em um “mar espumoso de clichês bem-intencionados”. Ainda assim, as resenhas não explicam completamente por que o espetáculo mais comentado da Broadway desapareceu a ponto de não ter nem um verbete na Wikipédia.

Leigh Montville, autor de Sting Like a Bee: Muhammad Ali Vs. The United States of America, 1966-1971 (Ferroada de abelha: Muhammad Ali vs. os Estados Unidos da América, 1966-1971) dedicou parte de um capítulo de seu livro a Buck White.

“Havia muito mais substância” no espetáculo “do que as pessoas pensavam”, disse ele em entrevista. O musical era “negro demais para os brancos”? Era radical demais? O musical foi xingado por brancos que consideravam Ali um trapaceiro e por negros que o chamavam de vendido. Ron Rich afirma que ouve envolvimento do FBI. “Ed Sullivan veio ao meu camarim”, disse Rich. “Ele disse: acho que [J. EDGAR]Hoover botou pressão para fechar o espetáculo”.

Ou Buck White, como tantos outros sucessos ambiciosos da Broadway, simplesmente não estava pronto para viver seu grande momento? “Sim, o musical falava da mudança nas atitudes afro-americanas no país, e tenho certeza que isso era perturbador para as pessoas”, disse Jack Landron, que foi demitido do espetáculo antes da estreia, mas teve uma longa carreira como ator e (sob o nome de Jackie Washington) como cantor folk. “Mas, se fosse um grande espetáculo, as pessoas deixariam passar. Fechou porque não era bom”.

O espetáculo que se seguiu a Buck White, no George Abbott, foi Gantry, uma adaptação musical do romance de Sinclair Lewis Elmer Gantry. Ele estreou e fechou no Dia dos Namorados de 1970. Naquela primavera, pouco tempo depois, o George Abbott Theatre também se foi. / TRADUÇÃO DE RENATO PRELORENTZOU

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