DANIEL TEIXEIRA/ESTADAO
DANIEL TEIXEIRA/ESTADAO

‘Mudança de Hábito – O Musical’ revive em São Paulo a era do soul

Exigências na seleção para a peça foram rigorosas; montagem que tem Whoopi Goldberg como produtora estreia no dia 6 de março

Ubiratan Brasil, O Estado de S. Paulo

01 Março 2015 | 03h00

Um dos conselhos mais pedidos à atriz Whoopi Goldberg são feitos pelas atrizes que vão encenar Deloris van Cartier, o principal papel de Mudança de Hábito – O Musical. Nada mais natural, pois Whoopi protagonizou o filme que inspirou a peça (grande sucesso nos anos 1990) e também se transformou em uma das produtoras da sua versão para o palco. A resposta para todas, no entanto, é a mesma: “Não tenho nenhum conselho. Eu criei a primeira Delores e agora cada uma pode criar a sua”. E ainda filosofa: “Sou como uma árvore e vocês são os novos galhos”.

A brasileira Karin Hils nem precisou conversar com a americana para alçar o próprio voo – protagonista da montagem brasileira de Mudança de Hábito, que estreia na sexta-feira, 6, no Teatro Renault, ela aproveitou sua ainda pouca experiência em musicais (surgiu no grupo Rouge e participou da série de TV Sexo e as Negas) para salpicar toques pessoais. “Adoro improvisar, mas sei que espetáculos como esse são rigorosos em sua marcação”, disse. “Mas, nos ensaios, criei alguns detalhes que o diretor adorou e acabou incorporando.”

O diretor, no caso, é o americano Jerry Zaks, profissional experiente (já ganhou quatro prêmios Tony, o Oscar do teatro americano) que esteve no Brasil em 2012, acompanhando a montagem de A Família Addams. Naquela época, ele percebeu a capacidade brasileira de improviso e, apesar de manter a rédea curta, aceitou de bom grado sugestões que se encaixavam no contexto. “Jerry é muito aberto e sabe da importância de o musical ter um toque local”, comenta Fernanda Chamma, a diretora residente, ou seja, a responsável por manter a montagem brasileira no eixo.

A encenação tem um enredo semelhante ao do filme: Deloris van Cartier é uma cantora obrigada a se refugiar em um convento para fugir de bandidos que querem matá-la por ter testemunhado um assassinato praticado por eles. Lá, ela transforma a rotina das freiras, especialmente ao reorganizar o coro, que passa a render dividendos ao quase falido convento.

Mas, se no filme prevaleciam os clássicos da Motown, no teatro, a ação foi transposta para a Filadélfia dos anos 1970, época em que o estilo soul dominava – não à toa, a cidade era conhecida como “Fili Soul”. Para isso, foi composta uma trilha original, com letras de Glenn Slater e melodia do premiado Alan Menken (A Pequena Sereia, entre outros). “As canções são sensacionais, mas exigem uma extensão vocal extraordinária”, diz Karin.

Foi um dos mais exigentes processos de seleção de elenco que se tem notícia. “Artistas excelentes, aqueles que ganhariam papel em qualquer montagem, participaram dos testes do Mudança de Hábito, mas foram reprovados”, conta a diretora residente Fernanda Chamma. “A diferença estava na exigência vocal: algumas canções pedem notas agudíssimas.” 

O elenco sentiu o desafio também durante os ensaios. “Faço um solo que me pede tudo o que sabia em termos de técnica e respiração”, conta Adriana Quadros, que vive a Madre Superiora, personagem que inicialmente reluta contra as modificações propostas por Deloris até se render ao sucesso. “O que mais incentiva nesse papel é que sou completamente diferente da Madre Superiora, que é uma mulher muito rígida, certinha.”

Muito trabalho também enfrentou Thiago Machado, que interpreta o policial Eddie, curioso personagem que auxilia Deloris e a protege, conseguindo um lugar no convento para se esconder. “Tenho uma canção desafiadora, pois tem três oitavas de extensão”, explica. “Passo de uma nota grave para outra extremamente aguda. É bem difícil tecnicamente, ainda penso muito antes de executá-la. Jerry falou que a música acontece pelo texto que você fala. É interessante porque as canções revelam a identidade do personagem e suas transformações.”

Nem todos atores, porém, enfrentam as mesmas dificuldades – há personagens que, se a voz não é tão exigida, o mesmo não se pode dizer da atuação. 

“No meu caso, não é a dificuldade de notas agudas”, garante Cesar Mello, que viveu Mufasa em O Rei Leão e agora é Curtis, um dos mafiosos que saem à caça de Deloris . “Ele canta quase falando. Utiliza o mesmo tom da fala. Mas tenho uma música muito longa que, além de cantar, me obriga a dar muitos passos de dança.”

Para evitar a desagradável situação de encerrar o número sem fôlego, arfando, Cesar passou os últimos dois meses adaptando um exercício físico. “Como costumo fazer corrida, comecei a cantar a música enquanto corria, a fim de atingir uma qualidade e conquistar uma voz limpa.”

A encenação também foi lembrada por outro veterano do musical no Brasil, Fred Silveira, que participou de grandes espetáculos como West Side Story, O Fantasma da Ópera, Avenida Q e Jesus Cristo Superstar, entre outros. Em Mudança de Hábito, ele vive o Monsenhor, personagem que, ao contrário da Madre Superiora, vê rapidamente a vantagem de ter Deloris entre as noviças.

“Esse é o personagem mais fácil que já interpretei, vocalmente falando”, confidencia. “O desafio está justamente na atuação, especialmente na transformação que ele passa com a vinda da Deloris ao convento. Isso acontece na passagem do primeiro para o segundo ato, quando Monsenhor realiza o desejo de se transformar em apresentador dos shows das freiras.”

Para quem não se lembra da história, Deloris enfeitiça as irmãs com seu canto ao mesmo tempo religioso e sensual, transformando um coro apático em um conjunto vibrante. As animadas canções das noviças atraem mais fiéis à paróquia, garantindo doações necessárias à sua sobrevivência. 

“Esse é o segundo musical com maior dificuldade vocal entre todos com que trabalhei”, comenta a maestrina e diretora Vânia Pajares, uma das maiores especialistas do gênero no Brasil. “Só não bateu Jesus Cristo Superstar, que exige agudos absurdos.”

Segundo ela, as canções criadas por Alan Menken e Glenn Slater são inspiradas nos estilos musicais da Motown (soul e funk), passando por influências como Barry White e Chaka Kahn até chegar a grandes temas da disco music. “Menken compôs um trilha belíssima em que os conhecedores desse ritmo logo detectam pedacinhos aqui e ali de grandes composições da era da discoteca.”

Vânia tem uma explicação para a dificuldade – segundo ela, as canções facilitam para quem fala inglês, idioma mais aberto e frontal. “Já o português é uma língua mais nasalada, interna, o que exige um ajuste de sonoridade. Posso garantir que, quem foi escalado para esse musical, é porque é muito bom.”

É o caso também de Karin Hils, graças à sua extensão vocal. “É realmente uma enorme exigência, que tem de ser apresentada ao público sem nenhuma dificuldade”, explica a atriz. “Mas minha maior dificuldade, na fase de ensaios, foi me acostumar ao rigor, tanto na marcação de cena como na apresentação das canções – não é permitido quase nenhum improviso.”

Karin vê o humor como trunfo para sua atuação – de resto, para todo o elenco. A tradução afiada de Bianca Tadini e Luciano Andrey manteve em alto nível os engraçados diálogos, especialmente ao revelar o contraste entre o ambiente pudico das freiras e o lascivo dos bandidos. “Mas talvez o grande trunfo deste musical é o de pregar a conciliação como melhor caminho”, observa Adriana Quadros, a Madre Superiora. “Na atual fase de intransigências em que o mundo vive hoje em dia, a tolerância ao diferente é uma das principais lições.”

O musical nasceu de um desejo do produtor Joop van den Ende que, em 2009, convidou Whoopi Goldberg para reviver Deloris no palco. Ela recusou, mas aceitou ser coprodutora, exigindo apenas que o papel principal sempre fosse interpretado por uma atriz negra. Hoje, o espetáculo já soma apresentações em 11 países e foi assistido por mais de 5 milhões de pessoas.

 


MUDANÇA DE HÁBITO

Teatro Renault. Av. Brig. Luís Antônio, 411, tel. 4003-5588. 5ª e 6ª, 21 h; sáb., 17h e 21h; dom., 16h e 20h. R$ 25/ R$ 260. Estreia em 6/3. 

PRESTE ATENÇÃO - Uma santa figura no final

1. Nos hábitos vestidos pelas atrizes: inicialmente sisudos, aos poucos adquirem detalhes mais alegres e tons mais dourados.

2. No espetacular número de Curtis (César Mello): além de divertido, traz uma variedade de canções de coreografia.

3. Nas canções originais de Alan Merken: há inúmeras homenagens sutis a grandes grupos e cantores dos anos 1970, como da cantora Chaka Kahn.

4. No cenário, que vai se tornando cada vez mais suntuoso à medida em que o coro de freiras ganha mais sucesso.

5. Na figura especial, que aparece de costas no final do espetáculo e dá sua bênção ao trabalho das freiras e suas canções.

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