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Movimentos ganham mais precisão e uma nova densidade em 'VeRo'

Espetáculo de Deborah Colker remete à prática do esporte

Ubiratan Brasil, O Estado de S.Paulo

21 de junho de 2016 | 04h00

Em um primeiro momento, VeRo, novo trabalho da coreógrafa Deborah Colker que estreia na quinta-feira, 23, abrindo a Temporada de Dança do Teatro Alfa, parece inspirado em antigos espetáculos, Velox, de 1975, e Rota, de 1997 - até a contração da palavra VeRo faz com que o espectador raciocine desse jeito. Mas não se trata unicamente de uma fusão: “Cada espetáculo tem sua própria história, mas, em VeRo, eu quis juntar momentos incríveis daqueles trabalhos porque eles propõem questões que até hoje me inspiram”, conta Deborah.

Trata-se basicamente da noção de espaço e de como resulta em algo contraditório o diálogo com o espaço. Trocando em miúdos, Deborah trabalha cada vez com uma abrangência de estilos, ou seja, para ela, a dança não pode se resumir ao clássico - daí a bem-vinda “invasão”, por exemplo, da dança de rua. “Desde que comecei a trabalhar com o poema Cão Sem Plumas, de João Cabral de Melo Neto, há um ano, tive a certeza de que precisava mexer na formação da companhia, de ‘sujar’ nosso trabalho”, reforça a coreógrafa.

Assim, firme nessa crença, Deborah idealizou VeRo com movimentos artísticos que remetem à prática esportiva como veículo para a liberdade expressiva e orgânica, refletida no espírito olímpico. É preciso lembrar que Deborah Colker se tornou uma das mais conhecidas e admiradas coreógrafas brasileiras a nível mundial. A qualidade de seus trabalhos a levou a ser convidada para criar Ovo, do grupo canadense Cirque du Soleil. Ela também será Diretora de Movimento responsável pela cerimônia de abertura da Olimpíada do Rio de Janeiro, função que tem consumido seu tempo ultimamente.

Em todos movimentos, Deborah universaliza a dança. “Pretendo unir o balé clássico com os passos que vêm da rua. Quero criar uma linguagem que tenha mais carne, ou seja, mais próxima da realidade”, conta ela, que prega liberdade sem dogma.

Deborah acredita que a dança tem um apelo duradouro porque oferece um sentido de auto expressão que transcende a linguagem. Basta acompanhar a filosofia que rege VeRo - o primeiro ato é marcado pelos movimentos Ostinato, Cotidiano e Sonar, que utilizam o vocabulário do balé clássico e da dança contemporânea, brincando com gestos do dia a dia e movimentos no solo. É o momento em que, imprimindo força, leveza, humor, velocidade e dinâmica, a coreógrafa revela suas marcas registradas.

A surpresa é também um ponto predominante em seus espetáculos - em VeRo, o palco é levantado e se transforma em uma parede móvel, de 7 metros de altura. Ali, os bailarinos realizam uma espécie de balé aéreo. Um desafio idêntico marca o início do segundo ato, com o quadro chamado justamente de Gravidade. Aqui, os bailarinos se movimentam em estado de flutuação, como se fossem astronautas dentro de nave. Os movimentos ganham novas densidades, em meio a manobras milimétricas e vagarosas que demandam muito equilíbrio e resistência muscular - os bailarinos experimentam várias possibilidades de caminhar em suspensão, em todos os sentidos e direções.

Como sempre, a coreógrafa trata a dança como uma prática intransitiva, que domina o princípio do prazer. Deborah sempre manteve a disciplina como o definidor de sua personalidade e, por extensão, de seu trabalho. Com isso, ela consegue a rara transformação do esforço em beleza, ou seja, ensaios incansáveis para que, no palco, a coreografia se pareça com um improviso.

O segundo ato termina com Roda, quando uma aparelho como esse, medindo 5 metros de altura, transforma o palco em uma espécie de parque de diversões. Inspirada na rotação da Terra, Roda traduz a investigação constante que Deborah faz dos conceitos da física e da mecânica do movimento.

“Há 20 anos, VeRo não seria possível, pois os bailarinos não estavam ainda preparados para dançar na parede, desafiando a gravidade, por exemplo”, explica a coreógrafa, para quem atitude contemporânea está na saudável desobediência a fórmulas prontas.

Temporada. VeRo abre uma importante temporada de dança que vai ocupar o Teatro Alfa até o início de novembro. A coreografia de Deborah Colker fica em cartaz até o dia 3 de julho e cederá lugar, entre os dias 15 e 17 de julho, para o Ballet de Santiago, que vai apresentar uma versão de Zorba - O Grego, adaptação do romance de Nikos Kazantzakis com trilha sonora de Mikis Theodorakis. 

Em seguida, nos dias 23 e 24 de julho, será a vez do butô contemporâneo do Sankai Juku, que vai apresentar Meguri, palavra que se refere a um ciclo como a da água. Finalmente, o Grupo Corpo mostrará, entre 4 e 14 de agosto, duas peças importantes de sua trajetória: Dança Sinfônica e 21. A programação se completa com a dança de salão da Mimulus (22 e 23 de outubro) e com o hip hop francês do grupo Käfig (5 a 7 de novembro), com apresentação tecnológica.

VERO

Teatro Alfa. Rua Bento Branco de Andrade Filho, 722, S. Amaro, 5693-4000. 3ª a 5ª, 21h; 6ª, 21h30; sáb., 20h (dia 2/7 também 16h); dom., 18h. R$ 50/ R$ 150. Até 3/7. Estreia 5ª (23)

Deborah Colker terá Cláudio Assis como cocriador

João Cabral de Melo Neto (1920-1999) não acreditava em inspiração - para ele, a obra-prima era fruto do extenuante trabalho com a palavra. Era um arquiteto da poesia - cada verso era cuidadosamente pensado, a fim de dar forma a uma estrutura consistente do poema.

“João Cabral reforçou minha visão de brasilidade”, conta Deborah Colker, que há um ano trabalha em seu 13.º espetáculo, inspirado em O Cão Sem Plumas, longo poema no qual, com uma linguagem depurada, o poeta humaniza um dos símbolos do Recife: o rio Capibaribe.

Para encontrar a verdade desse novo trabalho, Deborah convidou como parceiro uma figura aparentemente com nenhuma ligação com a dança: o cineasta Cláudio Assis. “Gosto da estética dele, da verdade de suas imagens”, explica a coreógrafa. “E é justamente esse ato do Claudão em nadar contra a corrente que me aproxima de João Cabral."

O poema foi publicado em 1950, quando João Cabral vivia em Barcelona, e inicia um ciclo poético em que ele revela sua preocupação com a realidade nordestina, especialmente a miséria. “Claudão me fez entrar no mangue, um trecho do rio em que água é escura e nada revela de seu fundo. No início, tive medo, mas foi a coragem de enfiar o pé no desconhecido que me deu mais confiança para esse trabalho.”

Com o cineasta, Deborah também visitou uma sambada e uma apresentação de maracatu. Junto de Cláudio Assis, a coreógrafa vem regulando seu olhar de dança para novos caminhos. “Ele me acompanhou em alguns ensaios e fez importantes apontamentos, algo simples como o fato de um bailarino dar três voltas ao invés de uma. Parecia simples, mas o efeito foi decisivo.” 

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