Annet Hardegen
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Mostra Internacional de Teatro chega à 5ª edição com ambição de se espalhar pela cidade

Realizada em mais de 25 espaços, a MITsp traz espetáculos, debates, oficinas e um plataforma inédita para internacionalização de trabalhos brasileiros

Leandro Nunes, O Estado de S.Paulo

28 de fevereiro de 2018 | 06h00

Marcar território no calendário de São Paulo ainda representa um desafio para a Mostra Internacional de Teatro de São Paulo. Se na edição passada correu-se o risco de cancelar a 5ª edição, que abre nesta quinta-feira, 1º, a ambição dos idealizadores é a de se espalhar ainda mais pela cidade e para fora do País. “O formato da MITsp já tem inspirado festivais pelo mundo”, conta o diretor de produção Guilherme Marques sobre a programação que já ocupa mais de 25 espaços, desde unidades do Sesc, teatros locais, o Itaú Cultural, museus, a Funarte, o Centro Cultural São Paulo, a Fábrica de Cultura da Brasilândia e o Instituto Pombas Urbanas, na Cidade Tiradentes. 

Com uma lista de 12 atrações na mostra principal, mais atividades paralelas, oficinas, debates, a MITsp não nega a herança do Festival Internacional de Teatro criado pela atriz e produtora Ruth Escobar, nos anos 1970. Se há 40 anos não era simples conceber a principal mostra do gênero, o modelo da MITsp tem se fortalecido a cada edição, afirma Marques. “Ainda não conseguimos fazer o projeto ideal, mas podemos nos orgulhar das parcerias”, diz.

Ele afirma que apesar da descontinuidade na política brasileira, que interfere no planejamento da mostra, descobrir o impacto da programação na cidade faz parte das próximas ações. “Estamos preparando uma pesquisa para descobrir números, como geração de empregos, o perfil do público e melhorar o diálogo com as políticas públicas e patrocinadores”, conta Marques sobre edição que foi erguida com R$ 2,1 milhões, contra R$ 2,9 milhões em 2017, R$ 3,4 milhões em 2016, e R$ 3,2 milhões em 2015.

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Criar um panorama nacional, desejo antigo dos idealizadores, inaugura-se esse ano. A MITbr traz 12 espetáculos, de cinco cidades, apresentados para curadores internacionais. “No ano passado, fui a mais de sete festivais internacionais e vi muito pouco de artistas brasileiros. A ideia é que a gente consiga internacionalizar a nossa produção brasileira que é grande”, diz Marques. 

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Ser ou não ser.

O diretor suíço Boris Nikitin tem uma grande desconfiança da realidade. Destaque na programação com Hamlet, ele dirige o performer e músico eletrônico Julian Meding no solo sobre a tragédia shakesperiana do príncipe da Dinamarca que tenta vingar a morte do pai, apresentado nos dias 6, 7 e 8, no Teatro Faap.

Nikitin conta que o poder persuasivo da política, religião e da mídia na construção de uma “realidade” cria um ambiente autoritário que é explorado em sua montagem e que se liga à conhecida frase do personagem. “Eu tenho o desejo de negar essa realidade para poder jogar com ela. É sobre ser você mesmo sem ter que ser você mesmo”, afirma o diretor em entrevista ao ESTADO por e-mail. Junto ao ator, um quarteto de cordas recorre à música barroca e se mistura ao estilo eletrônico do artista. “Ele é um intérprete e um músico, e ficou claro desde o início que ambas as qualidades estariam no centro deste solo. A referência de fundo barroco acabou se combinando ao ‘eletro’ de Meding.” 

O foco na peça não foi reproduzir inteiramente a tragédia do príncipe sabotado pelo tio que inventa uma peça de teatro para denunciar o assassinato do pai. O temperamento cênico de Meding, com sua aparência andrógina, se funde ao desejo libertário e questionador do personagem, explica Nikitin. “Nós usamos a peça de Shakespeare como uma estrutura e como um espaço de ressonância para esses tópicos. ‘Hamlet’ é uma espécie de máscara que Julian está vestindo. Nosso ‘Hamlet’ é sobre Julian, mas ao mesmo tempo, tudo o que ele menciona faz referências à narrativa. Portanto, é sobre os dois. Sobre documentação e sobre ilusão.” 

A questão de gênero é parte integrante dos trabalho de Nikitin. Em um deles, A Constituição da Alemanha, ele discute a fundação do país sob o ponto de vista de vários artistas queer, – termo que engloba pessoas não heterossexuais. “Todo o desafio das minorias é o da invisibilidade. E a cultura queer trata-se de tornar visível e refletir esse processo politicamente. No espetáculo existe essa estranheza, mas ao mesmo tempo tentamos detestar todo tipo de glorificação do corpo saudável como mercadoria.”

DESTAQUES

Suíte Nº 2 (França) 

Joris Lacoste cria peça a partir de sua Enciclopédia das Palavras; 1º, 2 e 3/3, no Auditório do Ibirapuera

 

Campo Minado (Argentina)

Versão da Guerra das Malvinas contada por Lola Arias; 1º, 2, 3 e 4/3, no Teatro do Sesi

 

Árvores Abatidas (Polônia) 

Krystian Lupa adapta obra de Thomas Bernhard sobre reencontro de amigos artistas; 2,3 e 4/3, no Sesc Pinheiros

 

King Size (Suíça)

Christoph Marthaler faz um musical num quarto de hotel; 3, 4 e 6/3, no Sesc Vila Mariana

 

Palmira (Grécia/França)

A antiga cidade síria ganha foco por Bertrand Lesca e Nasi Voutsas; 5, 6 e 7/3, no Teatro Sérgio Cardoso

 

Hamlet (Suíça)

Solo do músico eletrônico Julian Meding retoma obra de Shakespeare; 6, 7 e 8/3, Teatro Faap

sal. (Reino Unido)

Selina Thompson revive trajeto de navio escravagista; 7, 8, 9 e 10/3, no Itaú Cultural

 

País Clandestino (França, Argentina, Brasil, Espanha e Uruguai)

Artistas repensam eventos recentes em seus países; 9, 10 e 11/3, no Teatro Cacilda Becker

 

A Gente se Vê por Aqui – 24h Globo

Nuno Ramos coloca performers ligados à programação televisiva; 11/3, Galpão do Folias

5ª MOSTRA  INTERNACIONAL DE TEATRO. Vários lugares. 1º a 11/3. Ingressos: R$ 30 / R$ 15. Site: mitsp.org/2017

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