Werther Santana/ Estadão - 2017
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Morre Maria Alice Vergueiro, 85, atriz formadora do teatro brasileiro

Atriz brechtiana, ela montou o próprio velório na peça 'Why the Horse?', mas foi o curta 'Tapa na Pantera', de 2006, que a tornou popular no País, revelando seu lado bem-humorado

Antonio Gonçalves Filho, O Estado de S.Paulo

03 de junho de 2020 | 12h30

O nome podia ser de quatrocentona, mas sua verdadeira vocação era a liberdade, que encontrou nos palcos. A paulistana Maria Alice Monteiro de Campos Vergueiro, mais conhecida por Maria Alice Vergueiro, morreu aos 85 anos, em São Paulo, nesta quarta, 3, deixando um legado precioso nos palcos e fora deles. Ela estava internada no Hospital da Clínicas, para tratamento de pneumonia, e seu corpo será cremado na quinta, em Itapecerica da Serra, segundo informou sua filha Maria Silvia. Entre os vários trabalhos no teatro, ficou conhecida pelo curta-metragem Tapa na Pantera (2006).

Pedagoga, professora, atriz e diretora, ela formou alunos como Cacá Rosset, com quem fundou o irreverente Grupo Ornitorrinco (ao lado do ator, já falecido, Luiz Roberto Galizia), participou de montagens históricas, como O Rei da Vela, dirigida por José Celso Martinez Corrêa, e pode ser definida como a maior atriz experimental de sua geração, no sentido de estar sempre aberta a novos autores e linguagens. Foi intérprete de clássicos (Shakespeare, Molière), modernos (Brecht, García Lorca) e contemporâneos (Jodorowsky) com a mesma paixão, a mesma dedicação com que entrou no teatro pela primeira vez, em 1962, para participar de uma montagem de A Mandrágora, sob direção de Augusto Boal.

Em mais de meio século de teatro, Maria Alice trabalhou com grandes diretores, além dos nomes já citados, de Gerald Thomas a Felipe Hirsch, contracenou com os melhores atores brasileiros (Paulo Autran, entre eles), mas isso não a transformou num diva. Antes, gostava de se atirar em novas experiências ao lado de garotos e garotas de gerações mais novas, sempre testando os limites da plateia – e, por que não dizer, os próprios limites, mesmo que isso significasse trair um clássico. Daí ser chamada de “musa do underground’ ou de “velha dama indigna”, título algo limitadores que não fazem justiça ao enorme talento e vozeirão da atriz.

Exemplo da radicalidade de Maria Alice Vergueiro foi o espetáculo em que encenou o próprio velório, Why the Horse? (2015), em que a atriz encarou a própria morte ao lado do ator que a acompanhou em todos os últimos espetáculos, Luciano Chirolli. Já limitada pelas sequelas do mal de Parkinson e numa cadeira de rodas, Maria Alice, em 2015, queria morrer no palco, mas não foi atendida. A peça chegou a mais de 100 apresentações, cumprindo uma temporada que, em dois anos, ocupou diversas salas. Why the Horse?, não por acaso, fazia referências a Brecht e Jodorowsky, dois autores com os quais a atriz é automaticamente associada.

Seu primeiro Brecht foi a Ópera dos Três Vinténs, montada em 1964, dois anos após a estreia da atriz e na alvorada do golpe militar. Peça musical de Brecht e Kurt Weill, que estreou em Berlim em 1931, adaptada do clássico de John Gay, ela mostrava o submundo do crime e da prostituição como uma parábola política, o que levou o regime nazista a tirar o espetáculo de cartaz. Imagine na época da ditadura a filha de Nicolau Pereira de Campos Vergueiro Neto e de Maria Antônia Borges, pentaneta do senador Vergueiro, um dos mais poderosos políticos do Império do Brasil, desfilando numa peça de Brecht em que o protagonista é Mackie Messer, um vigarista que explora prostitutas e ensina outro bandido, Peachum, seu inimigo, a aperfeiçoar a arte de comandar uma gangue de mendigos pedintes. Foi, claro, um escândalo na família. A ruptura foi inevitável.

Maria Alice preferiu ser fiel ao teatro. Nos dez anos seguintes, sempre atuando sob direção de José Celso Martinez Corrêa, fez outras peças de Brecht – isso em plena vigência do regime militar. Em 1975, participou da histórica montagem de “Galileu Galilei” no Oficina, onde nasceu o grupo Ornitorrinco, cantando, claro, músicas de Brecht e Weill (em 1977). Nesse mesmo ano, a embrionária companhia conquistou os críticos com uma peça ousada adaptada de A Mais Forte, de Strindberg, que virou Os Mais Fortes na versão de Cacá Rosset, diretor com que Maria Alice mais trabalhou depois que fundaram juntos o Ornitorrinco, viajando para vários países com a companhia e participando de festivais importantes como o New York Shakespeare Festival, a convite do produtor Joseph Papp (de A Chorus Line).

Com Rosset, a atriz foi a mulher abandonada pelo amante em O Belo Indiferente, de Jean Cocteau, em 1983, logo após o tremendo sucesso de Mahagonny Songspiel, encenada no mesmo ano pelo grupo Ornitorrinco, tão ultrajante que a detentora dos direitos do compositor Kurt Weill em Nova York logo entrou com uma ação para encerrar a temporada na cidade. A parceria com Rosset iria até 1998, quando o diretor montou O Avarento, de Molière. Nos anos 1980 ela tentou outros caminhos: fez Electra com Creta, dirigida por Gerald Thomas, em 1986, mesmo ano em que entrou em contato com o universo de Beckett, dirigida por Rubens Rusche. Foi uma epifania para ela. Beckett e seu universo oclusivo, em Katastrophé, fizeram Maria Alice optar por um teatro ainda mais radical, sem compromisso com o êxito popular.

A despeito disso, não recusou papéis em novelas de televisão (fez Lucrécia em Sassaricando, em 1987, com Paulo Autran) e participou de vários filmes (Cronicamente Inviável, em 2000, de Sérgio Bianchi, entre outros). Paradoxalmente, depois de uma carreira como essa, foi um curta veiculado no YouTube que a transformou num fenômeno de massa, Tapa na Pantera, em que interpreta uma mulher que fuma maconha há mais de 30 anos e encerra seu depoimento com uma observação: “E nunca fiquei viciada”. Esse humor era bem típico de Maria Alice. Ainda é possível ouvir sua sonora e adorável gargalhada ecoando no mundo.

 

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