Ronaldo Gutierrez
Ronaldo Gutierrez

Montagem de Ibsen ganha contornos contemporâneos ao falar de racismo estrutural

‘Um Inimigo do Povo’, sob a direção de José Fernando Peixoto de Azevedo, é inspirado em peça do dramaturgo norueguês

Dirceu Alves Jr., Especial para o Estadão

19 de abril de 2022 | 05h00

O dramaturgo norueguês Henrik Ibsen (1828-1906), o mesmo de Casa de Bonecas e Hedda Gabler, escreveu Um Inimigo do Povo em 1882. Na trama, o médico Thomas Stockmann sofre ameaças de políticos, empresários e comerciantes ao denunciar que as águas de uma cidade balneária turística estão contaminadas e oferecem riscos à população. Sob a direção de José Fernando Peixoto de Azevedo, o clássico realista está em cartaz no Teatro Aliança Francesa, ventilando conexões com a realidade política, social e comportamental. 

José Fernando Peixoto de Azevedo foi chamado para tocar o projeto no fim de 2019, quando a crise sanitária que abalou o mundo, no máximo, parecia boato dos pessimistas. Ele estava em cartaz com o espetáculo As Mãos Sujas, que fundia a obra de Jean-Paul Sartre com referências ao cineasta Glauber Rocha em uma reflexão sobre o individualismo e a coletividade. Depois de assistirem à peça, os atores Clara Carvalho e Sergio Mastropasqua, impactados, sugeriram ao produtor e ator Cesar Baccan o nome de Azevedo. “O texto ganhou uma atualidade desesperadora com as discussões sobre a ciência, o contágio e a manipulação das informações na pandemia”, comenta o diretor. “Se, como dramaturgo, eu escrevesse uma história dessas seria criticado por ser literal e preso à realidade.”

Uma das propostas de Azevedo foi misturar intérpretes brancos e negros no elenco, que, além de Clara, Mastropasqua e Baccan, conta com Augusto Pompeo, Lilian Regina, Lucas Scalco, Raphael Garcia, Rodrigo Scarpelli, Tatah Cardozo, Thiago Liguori e Rogério Brito, escalado para o papel principal. “Cada vez mais me interessa essa presença negra em cena e perceber o quanto esse cruzamento ressignifica qualquer resultado”, diz ele, que foi fundador do Teatro de Narradores, colaborador do grupo Os Crespos e dirigiu, entre outros, o espetáculo Navalha na Carne Negra (2018), com um trio de artistas pretos.

O médico Thomas Stockmann, dentro desta perspectiva, é interpretado por Brito, ator negro, e seu irmão, o prefeito da cidade, Peter Stockmann, ganha a representação de Mastropasqua, que é branco, assim como Clara, que vive Catarina, mulher do protagonista. Ela, por sua vez, é filha de criação de Morten Kiil, defendido por Pompeo, também preto. “A dimensão racial é ampliada para um debate de mobilidade social e coloca o negro em confronto direto com o poder”, explica Azevedo. 

 Clara Carvalho revela entusiasmo com as múltiplas camadas propostas pela encenação e que, segundo ela, leva o grupo a discutir novas conotações. “Eu enxergo o Doutor Stockmann não como só o homem idealista, que luta para proteger a comunidade, mas percebo nele um certo narcisismo, um autoritarismo a ponto de fazê-lo questionar valores democráticos”, ressalta a atriz. “Então, nesse ponto, ele seria também um inimigo do povo, como aqueles que ignoram a poluição das águas por causa do dinheiro.”

Em certo momento, o intelectual Stockmann, admirador das teorias iluministas, fala que, se a maioria da humanidade é constituída por imbecis, quando se vive em uma democracia, as lideranças eleitas serão inevitavelmente imbecis. Como diretor, Azevedo aponta outras nuances na personalidade do protagonista, como o apego excessivo às convicções em uma sociedade em que nada avança sem que haja negociação de interesses. “É um cientista que tem dificuldade de politizar suas posições e acho importante trazer isso à tona em uma época em que não basta dizer a verdade ou denunciar as mentiras”, declara o diretor da peça.

 Se em As Mãos Sujas, o encenador se inspirou na estética glauberiana do longa Terra em Transe (1967), agora é do filme de terror A Noite dos Mortos-Vivos, dirigido por George A. Romero em 1968, que surgem as referências. Em meio a projeções simultâneas que captam os atores como se a própria peça fosse um filme, Azevedo promove um diálogo com os gêneros de suspense e terror capaz de atingir a obra de Ibsen. “Desde que dirigi Casa de Bonecas, em 2005, vejo em seus textos a recorrência de um espaço confinado em que aparece alguém de fora desencadeando mistério e medo”, afirma. Essa associação atinge o ápice em Um Inimigo do Povo quando a residência de Stockmann é apedrejada, e o médico passa a ser de fato, para os habitantes da cidade, um adversário. “Me pareceu interessante criar um desdobramento para a violência racial como uma experiência de terror, só que aqui subvertemos o clichê de que os invasores são zumbis. O protagonista negro é ameaçado por pessoas brancas.”.

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