André Barmak
André Barmak

Monólogo recria as horas que antecederam assassinato de John Lennon

'John e Eu', com Nicolas Trevijano, investiga as razões e a humanidade de Mark Chapman

Ubiratan Brasil, O Estado de S.Paulo

18 de março de 2021 | 05h00

Em 2005, depois de fazer uma pós-graduação em psicanálise, o ator e dramaturgo Nicolas Trevijano sentiu-se atraído por um tema delicado: entender a figura de Mark Chapman, que chocou o mundo ao assassinar John Lennon, em 1980. Antes de apenas julgá-lo, Trevijano buscava observá-lo como um paciente e foi a partir da leitura do livro Let Me Take You Down Inside the Mind of Mark David Chapman, the Man Who Killed John Lennon (Deixe-me levá-lo ao interior da mente de Mark Chapman, o homem que matou John Lennon, em tradução livre), de Jack Jones, que a ideia tomou a forma de um monólogo, John e Eu, interpretado por ele e que inicia temporada virtual nesta quinta, 18.

“A peça acontece nas 24 horas que antecedem o crime, dentro do quarto do hotel em que Chapman se hospedou em Nova York, pois morava no Havaí na época e viajou somente para pôr seu plano em prática”, comenta Marco Antônio Pâmio, diretor do espetáculo. “O fato de o hotel ser em frente ao edifício Dakota, onde Lennon morava, é uma licença poética. Durante a ação da peça, Chapman elege vários interlocutores para compartilhar sua história: o espectador, os vários personagens (reais e imaginários) que habitam e ‘embaralham’ a sua cabeça, e o próprio John Lennon, produto da sua construção imaginária.”

Pâmio e Trevijano sabem que transitam em um assunto sensível e, antes de fazer qualquer julgamento a Chapman, buscam mostrar as zonas sombrias de sua psique, relembrando infância e relações familiares conturbadas, além de identificar as semelhanças entre sua história de vida pessoal e a do próprio Lennon.

“Em momento nenhum pensamos em vitimizar Mark, mas também simplesmente condená-lo é responder de forma rasa a questões profundas, e essa foi a minha vontade: tentar entender quem é esta pessoa, antes de julgá-la”, comenta Trevijano. “A linguagem é estruturalista, ou seja, quando falamos que alguém é um maluco o colocamos em uma ‘gaveta’ e assim o distanciamos de nós, pessoas sãs. Assim, apenas julgando, sem procurar entender, nunca vamos elaborar os problemas nos quais, como sociedade, estamos inseridos. Então, resumindo, o desafio foi humanizar alguém que julgamos não pertencer à mesma categoria que nós, seres humanos ‘normais’. Coloco entre aspas porque a linha que separa sanidade de maluquice é muito tênue. Não é à toa que Shakespeare escreve tragédias com vilões que nos fazem querer assistir e montá-las até hoje. Esses vilões estão dentro de nós, nem que seja na nossa fantasia, e o fato de querermos vê-los (mesmo já os conhecendo) é simplesmente porque eles, de certa maneira, estão também presentes em nós. Nossas ‘gavetas’ são mais complexas do que a linguagem tenta nos apresentar. E pensar sobre isso não é só saudável, mas necessário.”

Em sua avaliação, Trevijano observa um psicopata como alguém refém do seu próprio narcisismo, a ponto de não conseguir suportar a ideia de que existe alguém “melhor” (segundo sua fantasia) ou que ameace essa imagem superconstruída. “Então, o sofrimento é tão grande que ele precisa colar, ou aniquilar o outro que ameace essa construção”, continua o ator. “No caso do Mark, ele se identificava muito com Lennon. Ambos tocavam guitarra, ambos tiveram bandas, ambos eram casados com orientais, ambos foram abandonados por seus pais. O fã doente é aquele que vê pontos em comum com seu ídolo, reforçando seu narcisismo, mas que não suporta que o outro seja melhor do que ele. Mais uma vez a questão da linha tênue entre amor e ódio.”

A encenação criada por Pâmio traz uma variação de cores, cuja mudança marca as trocas de plano durante a ação da peça e reforça a tragicidade dos fatos. Uma câmera ficará fixa e vai funcionar como o olhar do espectador, simulando a sua presença na plateia de um teatro. Mas, ao longo da narrativa, haverá trocas de enquadramento para o espectador do online, mudanças de ponto de vista, “para trazer um pouco mais de aproximação e dinâmica à encenação”, segundo Pâmio.

“Quando escrevi a peça, pensei sempre no momento final, da morte trágica de John. Bob Dylan tem uma frase que eu gosto e que colocamos no final: ‘O propósito da arte é parar o tempo’”, conta Trevijano. “A peça, então, segue uma certa ordem cronológica, de como seriam esses possíveis três dias de espera (hora no quarto do hotel, hora em frente ao Edifício Dakota) até culminar no assassinato, mas passando por momentos que quebram o espaço/tempo linear e se deslocam para o passado, no qual Mark conversa com a mãe, o irmão (que não chegou a nascer), e com o próprio John Lennon. Também com seus ‘bonequinhos’ (‘little people’), que ele criou quando criança e que fantasiava como se fosse o rei deles.”

Para Pâmio, não há dúvida de que Chapman sempre desejou matar Lennon. “Ele estava absolutamente determinado e certo sobre o que iria fazer. Há uma entrevista que ele deu da própria cadeia, em 1992, para o apresentador Larry King. Em nenhum momento, ele está fora de si, perturbado, muito menos arrependido. Pelo contrário, a lucidez com que fala sobre o crime e seu passo a passo é estarrecedora.”

'Cabe ao público julgar', diz Marco Antônio Pâmio

O ato de Mark Chapman não tem perdão. Assim, como apresentar um personagem visto como eterno vilão?

Com certeza o ato de Chapman é imperdoável, injustificável, desumano. Mas nem por isso ele deixa de ter suas motivações, sua lógica particular – nem que essa lógica seja absolutamente torta, insana e delinquente. Diante do desafio de dar vida a esse homem enquanto personagem de uma obra dramática, meu objetivo foi o de me afastar de qualquer tipo de julgamento e tentar compreender essa lógica, puxar esse fio que liga suas motivações – exatamente como se faz num processo de construção de qualquer personagem fictício. Caberá unicamente ao público fazer seu próprio julgamento e tirar suas próprias conclusões.

O ato também levanta a questão da idolatria que se torna uma perigosa obsessão, não?

Com certeza. No decorrer do espetáculo, vão se desvendando inúmeros pontos de aproximação e coincidências na história de vida de Lennon e Chapman. Talvez esses fatos específicos tenham se introjetado na mente de Chapman no sentido de ele se enxergar como um espelho de seu ídolo, com a diferença de que Lennon habitava a luz e Chapman, a sombra. Ou seja, por mais parecidos que fossem, Lennon tinha uma coisa que passava longe de Chapman: fama e notoriedade. Isso foi fatal.

Tal busca de notoriedade só se resolveria por meio de um crime que causasse comoção mundial?

Chapman sempre foi explícito ao dizer, em depoimentos e entrevistas, que cometeu esse crime porque queria se tornar famoso, reconhecido, amado até. Existe uma fala na peça em que ele diz: “No meu caso, buscando ser amado, vou ser odiado por todos”. Seu passo em direção à fama só poderia acontecer se cometesse um crime dessas proporções, pois ele, ao contrário de sua vítima, era um ser absolutamente medíocre, com uma vida insignificante segundo seus próprios padrões. As redes sociais hoje não nos deixam mentir. Às vezes, penso que, a cada vez que uma dancinha ou foto em trajes íntimos é publicada no Instagram, um John Lennon deixa de ser assassinado no mundo. 

Prisão perpétua deverá ser mantida

Em agosto do ano passado, Mark David Chapman, de 65 anos, teve seu pedido de liberdade condicional negado pela 11.ª vez. A cada dois anos, o assassino de John Lennon solicita o abrandamento da pena perpétua em regime fechado a que foi condenado em 1981. Assim, ele terá de esperar até 2022 antes de conseguir outra audiência com o Departamento de Correções e Supervisão da Comunidade do Estado de Nova York, que avalia os pedidos. 

Yoko Ono, viúva de Lennon, já chegou a afirmar, em 2015, que a libertação do criminoso poderia colocar em risco a segurança da sua família. “Acho que ele poderia fazer isso de novo, matar outra pessoa. Pode ser eu, pode ser o Sean (filho do casal), pode ser qualquer um, então existe essa preocupação”, disse.

O risco, porém, parece ser pequeno – em 2018, a justificativa das autoridades para a sua resposta negativa baseou-se no fato de a libertação de Chapman “ser incompatível com o bem-estar e a segurança da sociedade”.

Em sua defesa, Chapman alega arrependimento. “Só quero reiterar que lamento meu crime”, repetiu ele à junta judicial. “Não tem desculpa. Fiz isso pela glória pessoal. Acho que (o assassinato) é o pior crime que pode acontecer contra alguém inocente. Ele (Lennon) era extremamente famoso. Eu não o matei por causa de sua personalidade ou do tipo de homem que ele era. Ele era um homem de família, um ícone, alguém que falava sobre coisas sobre as quais podemos falar agora, e isso é ótimo. Eu o matei (...) porque ele era muito, muito, muito famoso e eu estava muito, muito, muito em busca de glória pessoal, algo muito egoísta.”

Na noite de 8 de dezembro de 1980, por volta das 23 h, Chapman disparou quatro vezes contra o ex-Beatle, quando ele chegava a seu apartamento na região do Upper West Side, em Manhattan. Enquanto Lennon caía, sob os gritos de Yoko Ono, o assassino foi imobilizado pelo porteiro do edifício, arrancando-lhe da mão o revólver calibre 38.

Horas antes de ser assassinado, Lennon autografara para seu algoz uma cópia de seu recém-lançado álbum Double Fantasy. Dizendo-se um grande fã, Chapman visitou várias vezes o prédio onde vivia o ex-Beatle, pedindo ao porteiro que o avisasse quando Lennon estivesse presente

Chapman havia chegado do Havaí, onde morava, no dia anterior. Antes de cometer o crime, comprou um exemplar do livro O Apanhador no Campo de Centeio, clássico de J.D. Salinger, e chorou copiosamente ao lê-lo em uma praça – em depoimento depois da prisão, disse que se identificava com o isolamento e a solidão do personagem principal, o adolescente Holden Caufield.

Na prisão de segurança máxima Wende Correctional Facility, onde cumpre pena, ele trabalha como porteiro em uma área restrita, para onde foi levado por motivo de segurança. 

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