João Caldas
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Monólogo 'Apareceu a Margarida' transita entre a crítica social e o deboche

Wilson de Santos estreia versão do espetáculo que foi celebrizado por Marília Pêra que critica o abuso de poder

Dirceu Alves Jr., Especial para o Estadão

01 de outubro de 2021 | 20h00

A primeira imagem que o ator Wilson de Santos, de 54 anos, carrega de Marília Pêra (1943-2015) é a do filme Pixote, A Lei do Mais Fraco, de 1981, a da atriz dramática, às voltas com um menino de rua. “Eu era um adolescente e enlouqueci, sabia as falas de cor, o pai de uma amiga, lá em Santos, era dono de uma videolocadora, nem sei quantas vezes vi essa fita”, revela o artista, que começaria a carreira profissional em 1984. 

Pelas três décadas seguintes, ele esbarraria diversas vezes em Marília, criando uma relação embalada como uma cuidadosa amizade. “Trabalhamos no musical Vitor ou Vitória, nos cruzamos na novela Duas Caras e, quando ficava em cartaz no Rio, Marília me assistia, jantei em sua casa, vi alguns de seus ensaios”, conta, com ar de fã. 

Ao vestir o figurino e colocar a peruca do monólogo tragicômico Apareceu a Margarida, escrito por Roberto Athayde em 1971, que estreia neste sábado, 2, às 19h, no Teatro Renaissance, Wilson presta, claro, uma homenagem à atriz, mas não é só isso. Afinal, do repertório de Marília, o ator já interpretou, em 2017, Brincando em Cima Daquilo, solo de Dario Fo e Franca Rame, e este pode ser apontado como um tributo, até devido ao calor da montagem, um ano e meio depois da morte da estrela. “Na época, pensei na Margarida, mas não era o momento, até porque outra atriz, a Marília Medina, estava com uma montagem simultânea e percebo que valeu esperar, a personagem conversa melhor com os nossos dias.” 

Em Apareceu a Margarida, Wilson transita entre a crítica social e o deboche, marcas da ensandecida professora, papel definidor de um estilo escrachado celebrizado por Marília na encenação original, dirigida por Aderbal Freire-Filho em 1973. “Assim como naquele tempo, o do regime militar, representar Margarida é uma tomada de posição porque nós nos defendemos de bombas o tempo todo e temos a obrigação de superar os absurdos da realidade.” 

Diante da lousa, Margarida expõe sua questionável visão do mundo em um diálogo com os alunos, no caso a plateia. A professora perde gradativamente o filtro e mistura educação, sexo e autoritarismo em uma metáfora sobre os abusos de poder. Elias Andreato, diretor da atual versão, ressalta a pertinência do texto no momento em que o País convive com líderes sem pudores de assumir ideias reacionárias. “Margarida prega que o ensino forma o cidadão obediente e seu discurso é próximo ao do dos ministros Milton Ribeiro e Damares Alves e do Sérgio Camargo, presidente da Fundação Palmares”, compara Andreato. “Esse humor vai além da brincadeira, passa pela crueldade, vamos ver se o público vai rir tanto, como acontece em A Noviça Mais Rebelde, o outro espetáculo do Wilson.”

O ator está pronto para o que vier e só tem a festejar com a retomada das apresentações presenciais. Desde que voltou ao cartaz com A Noviça Mais Rebelde, no mesmo Renaissance, em 1.º de agosto, ele diverte cerca de 300 pagantes a cada domingo. “Pensei que me apresentaria para 20 ou 30 pessoas e percebi uma sede, uma vontade de o público relaxar em meio a esse caos que vivemos”, observa.

A persistência de se manter na ativa vem de algumas lições dadas por Marília. Em meio à temporada de Vitor ou Vitória, dirigido por Jorge Takla em 2001, Wilson titubeou ao receber um outro convite, para o espetáculo A Diabólica Moll Flanders, protagonizado por Ary Fontoura, que seria ensaiado no Rio de Janeiro e estrearia no ano seguinte. “Marília me olhou séria e disse: ‘Ator não pode recusar trabalho e você vai pedir ao Takla para organizar sua agenda, ensaiar no Rio nos dias de folga e não comprometer nossas apresentações em São Paulo’”, relembra. 

Anos mais tarde, na estreia de A Noviça Mais Rebelde no Rio, Marília, que estava na plateia, puxou a orelha do colega. Wilson, depois de levar o público a gargalhar por uma hora, enquanto agradecia os aplausos, revelava a falta de patrocínio e implorava por um boca a boca para sustentar a turnê. “Marília me falou que ninguém tinha nada a ver com isso, o problema de assumir o risco financeiro era meu, todo mundo saiu do teatro feliz, louco para recomendar a peça e eu lancei um balde de água fria nas pessoas.” 

O último encontro da dupla se deu em São Paulo, logo após uma sessão de Herivelto Como Conheci, solo da estrela apoiado nas canções de Herivelto Martins, em outubro de 2014. Wilson nem se recorda direito a causa, mas estava triste naquele dia, um pouco apagado, e Marília, sensível, olhou para seus olhos e apenas comentou: “Está perseverando, não é, meu amigo? É isso mesmo, ser artista é perseverar, vá em frente”. 

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