GABRIEL ANTUNES/DIVULGAÇÃO
GABRIEL ANTUNES/DIVULGAÇÃO

Mito do duplo inspira 'Doppelgänger', de Domingos Oliveira

A partir da lenda alemã, montagem propõe um jogo que brinca com a morte provocada pela briga de um famoso casal de atores

Entrevista com

Domingos Oliveira

Ubiratan Brasil , O Estado de S. Paulo

23 Outubro 2015 | 03h00

O mito do duplo, conhecido pela palavra alemã Doppelgänger, fascina gerações há séculos. Segundo a lenda, existe um mundo de pessoas duplicadas. Elas seriam iguais em tudo à pessoa original, porém trariam consigo morte e destruição. Foi esse o ponto de partida para Domingos Oliveira criar sua nova peça, Doppelgänger, ou o Mito do Duplo, que estreia no Sesc Pinheiros.

Trata-se da história de casal de atores famosos, Julio (Ricardo Kosovski) e Julia (Priscilla Rozenbaum), que vive uma relação marcada pelo ódio. Até que, em um dia, Julio decide ir embora, mas seu duplo fica. Boa parte da trama se passa no consultório do psicanalista dele, Marco Aurélio (André Mattos), que não esconde sua paixão por Julia. Sobre sua criação teatral, Oliveira respondeu por e-mail as seguintes questões.

O duplo sempre existiu na arte, mas como esse tema chegou até você a ponto de inspirar a peça?

Tive um sonho, li um livro, e a necessidade de escrever sobre isso não me largou durante quinze anos. Quem é aquele outro que aparece no espelho? Certa vez, sonhei com um mundo de duplos – andava em plena Praça da Sé na hora do rush e todos eram iguaizinhos a mim, ou melhor, eram eu mesmo! Quando levanto o braço direito, ele levanta o esquerdo. Como não me vejo, imagino que sou diferente. Nem tão velho, nem tão moço. Cruzo a perna, faço uma pose só pelo prazer de vê-lo me imitar. Sou bom ou mal? Ou feio ou bonito? Foi quando apareceu o compositor Richard Wagner. A peça é toda musicada com trechos de Wagner, com exceção de uma vinheta alegre dos anos 1930. Com Wagner sobre o texto, ocorreu uma verdadeira sobreposição, a peça revelou-se como ela é. Poucas vezes tinha acertado tanto na escolha. Doppelgänger poderia ser uma ópera de bolso. Era preciso que eu escrevesse uma peça de teatro sobre a velha lenda. Dez anos depois completei a primeira versão da peça. Um escritor não escreve nunca sobre o que conhece e sim sobre o que teme. É o melhor texto de teatro que jamais escrevi. 

Enfrentar seu duplo significa, de alguma forma, enfrentar a morte?

Uma vida é pouco para dois homens.

O velho tema do desdobramento da personalidade já foi tratado à maneira intelectual de um Borges e também à maneira demoníaca de um Dostoievski. Qual sua preferência? Por que? 

Minha preferência é contar à minha maneira. As palavras belas e os personagens intensificados pela paranoia, obrigando um ritmo desvairado que faz desaparecer, em meio ao humor, qualquer chance de realismo. 

A literatura é muito presente em sua obra, em sua vida. Há ali algum Doppelgänger literário do qual você não consegue se libertar? Poe? Dostoievski?

Tomo um chá todas as tardes com Dostoievski. Poe e Woody Allen aparecem quando não têm nada melhor para fazer.

Julio e Julia são atores de teatro – você preferiu essa profissão por ser justamente aquela em que se pode viver outras vidas? Se não, qual foi o motivo de eles serem atores?

Pergunte a Artaud. Era complicado encontrar uma dramaturgia simples com tal duplicidade no protagonista. A trama oferece um ‘gimmick’ irresistível. O interessante é o que acontece no palco com o espectador. Ele não sabe nunca quem está em cena: o duplo ou outro. Queria observar que a originalidade é um valor principal, particularmente no teatro de hoje. Doppelgänger é uma história muito original. Um clima completamente reconhecível e onde você nunca esteve.

DOPPELGÄNGER, OU O MITO DO DUPLO. Sesc Pinheiros. R. Paes Leme, 195. Tel.: 3095-9400. 5ª à sáb., 20h30. R$ 25. Até 14/11

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