WERTHER SANTANA/ESTADÃO
WERTHER SANTANA/ESTADÃO

Miriam Mehler e Renato Borghi celebram oito décadas de vida com um 'Romeu e Julieta' bem-humorado

Dupla festeja reencontro na peça de Shakespeare e fala de assédio e marchinhas de Carnaval

Leandro Nunes, O Estado de S.Paulo

17 Janeiro 2018 | 06h00

Nada contra peças eletrizantes nas quais os gritos quase agridem os ouvidos da plateia, nem contra aqueles espetáculos em que sobra bastante espaço para se tirar um cochilo. A verdade é que se o espectador saiu de sua casa foi para acompanhar uma boa história, não necessariamente ter uma revelação. Por isso, sentar-se nas poltronas do Sesc Ipiranga a partir desta quinta, 18, pode ser uma ótima chance para os amantes de grandes histórias, já que Miriam Mehler e Renato Borghi, estreiam Romeu e Julieta 80, uma aventura na peça de Shakespeare protagonizada pela dupla de octogenários. 

A magia provocada na cena enquanto os atores ensaiavam, dias antes da estreia, pode não revelar pistas tão evidentes para as gerações mais recentes, mas traz rastros: Miriam contracenou com Borghi pela primeira vez em Quatro num Quarto (1962), no Teatro Oficina, quando ela substituiu uma atriz do elenco. Na peça em questão, Borghi ainda não sabia lidar com os ossos do ofício de ator, o que lhe provocava ansiedade. Por vezes, ele queria fugir – nestas palavras – das peças e fugia. “O Zé Celso foi me buscar dentro do avião porque eu tinha desistido.” Mais tarde, foram os sucessos Pequenos Burgueses e Andorra que firmaram o trabalho de direção da companhia que tentava, a todo custo, se estabelecer. “A gente fazia empréstimos no banco para produzir as peças e pagava com o dinheiro da bilheteria, em sessões de terça a domingo. Era tudo tão diferente!”, afirma Miriam. “O público sempre estava conosco”, acrescenta. 

E é esse o quilate do espectador esperado pela dupla, que ainda contracena com Elcio Nogueira Seixas e Carol Fabri, na montagem de Marcelo Lazzaratto. “A ideia da peça tem dez anos”, diz o diretor. Mas com a habitual escassez de recursos para a Cultura, nessa era de editais – quase único meio para viabilização –, Romeu e Julieta ganharam mais uma década de vida, nada parecido com a idade real dos personagens na peça do bardo – o garoto Montecchio teria 16 anos e a Capuleto, 13. “Espero que não venham protestar contra a nossa peça, já que não temos a idade deles”, brinca Borghi. “Mas também que atores poderiam fazer, com 13 e 16 anos?”, questiona Elcio. Por outro lado, que jovem casal teria o lirismo romântico concebido por Shakespeare?

De fato, o teatro não deveria excluir ninguém – muito embora isso não signifique que a arte seja democrática na prática. A questão é que a montagem de Lazzaratto está longe, bem longe de uma cena ao pé da letra. “Hoje, está tudo muito literal, sem poesia. Essa peça é uma história simples e que atinge o simbólico, quando temos dois atores de 80 anos no papel desse jovem casal.” E o que o diretor diz, fica evidente nas cenas: É Romeu, Julieta, Renato e Miriam no palco, mesmo que o ator ache que não tem talento para personagens certinhos. “Eu sempre fui de gostar dos sacanas”, diz Borghi que acabou de encerrar a temporada de O Rei da Vela em comemoração aos 50 anos de estreia da montagem do Oficina, e que reuniu gerações para ver a obra de Oswald de Andrade, peça que colocou o teatro no mapa da Tropicália. “No terceiro ato da peça, o público mal respirava, tamanho era o silêncio”, lembra Borghi que foi substituído, já que a peça vai fazer nova temporada em fevereiro no Teatro Sérgio Cardoso. “Não se pode ter tudo”, revela ainda.

+ Cenógrafo de 'O Rei da Vela', o nome de Hélio Eichbauer ultrapassa a música, o teatro e o cinema

Já Miriam fez a grande produção Abelardo e Heloísa (1971), uma história de amor com mais de 20 atores em cena, figurinos e cenografia opulentos, no seu Teatro Paiol, com o marido Perry Sales. “Tivemos que reformar todo o espaço para dar conta dos cenários que subiam e desciam. Algo inconcebível de fazer hoje. E nem era um musical”, diz a atriz. Sua última peça foi a divertida e delicada Fora do Mundo, no ano passado, que marcou os festejos de 60 anos de carreira, no papel de uma aristocrata que ficou trancafiada na própria casa, na Bela Vista, por 42 anos. A história verídica se apoiava entre o sonho e a realidade de uma mulher nascida no fim do século 19 e, sem herdeiros, deixou uma fortuna de US$ 4 milhões para a Universidade de São Paulo. Tudo isso em uma época sombria para as mulheres. Não que hoje seja diferente, com França e EUA liderando uma discussão que no fim só diz respeito ao corpo de cada mulher, como ressalta Miriam. 

“Na televisão, já vivi uma situação que se insinuou como assédio, mas na hora em que percebi, dei um basta. Talvez por isso que não me chamem tanto para novelas, porque não tenho papas nas línguas”, afirma. Por outro lado, ela entende que a carta pró-flerte encabeçada pela atriz Catherine Deneuve pode impedir o mais simples elogio. “É claro que os casos recentes de assédio num ônibus e metrô são nojentos. Mas tinha umas cantadas tão gostosas, e elogios. Se o fulano estava distante, ótimo. Não vai morder!” Para Carol Fabri, em tempos bicudos é preciso saber diferenciar o que é individual e coletivo. “Não podemos forçar que o modo como entendemos o assédio seja universal. É algo a ser construído.” 

Para Borghi, o carnaval também ficou careta, com a extinção de algumas marchinhas com letras politicamente incorretas. “Não precisava ser assim”, e logo emenda a cantar: “Branca é branca preta é preta, mas a mulata é a tal, é a tal! Quando ela passa todo mundo grita: Eu tô aí nessa marmita! Quando ela bole com os seus quadris, eu bato palmas e peço bis, ai mulata, cor de canela! Salve, salve, salve, salve, salve, ela!”. Miriam que não se arriscou a acompanhar, acrescenta: “Eu posso não cantar, mas encanto”.

Enquanto o carnaval 2018 não chega – e ele vem aí –, o quarteto vive essa festa na versão mascarada da cidade italiana de Verona, palco do amor de Romeu e Julieta, mas também do ódio mortal das duas famílias. Seja no encontro do casal, com os rostos cobertos, ou nas fugas para se encontrarem, com a ajuda de frei Lourenço, a poesia de Shakespeare é o que conduz a trama e que oferece um exercício de audição para a plateia. “Nos ensaios, ficamos emocionados com o texto”, diz Miriam. 

Essa delicadeza também está presente numa trama de tecidos atrás dos atores, na mesa de jantar que reafirma a intenção de contar e ouvir uma história, e nos objetos de vidro para fabricação do temido veneno, alguns deles criados especialmente para a peça.

ROMEU E JULIETA 80. Sesc Ipiranga. R. Bom Pastor, 822. Tel.: 3340-2000. 6ª, sáb., 21h, dom., 18h. Estreia 5ª (18/1), às 21h. Até 18/2. 

Mais conteúdo sobre:
Renato Borghi Miriam Mehler

Encontrou algum erro? Entre em contato

publicidade

publicidade

publicidade

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.