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Ignácio de Loyola Brandão
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Miriam e Renato aos 80, na mais bela história de amor

Dupla dá vida ao casal símbolo de paixão através dos séculos em ‘Romeu e Julieta’

Ignácio de Loyola Brandão, O Estado de S. Paulo

19 Janeiro 2018 | 02h00

Quase 60 anos atrás, hoje estaríamos lendo as críticas de Romeu e Julieta, de Marcelo Lazzaratto, que estreou ontem à noite do Sesc Ipiranga. Naquela época, anos 1960, na hora de abrir a cortina, diretor e elenco estavam ansiosos nos bastidores esperando por ELE, enquanto o público que conhecia o meio teatral murmurava: ELE ainda não chegou. Minutos antes de a cortina se abrir, ELE entrava, apressado, amável, gentilíssimo, elegante, cumprimentava os conhecidos, sentava-se e o pano se abria. Era o ritual sagrado. ELE era Décio de Almeida Prado, que não fazia isso por se julgar estrela. Trabalhava no O Estado de S. Paulo e saía correndo da redação em cima da hora. Ou estava dando aulas na EAD. Mais tarde, esperou-se por Sábato Magaldi ou Delmiro Gonçalves. Formavam o trio mais importante da crítica teatral paulista. Respeito, admiração, certo temor. Mas, mesmo quando as críticas eram ruins, a maneira de escrever era pontuada pelo domínio total do que era teatro. Esperava-se os jornais saírem na madrugada (como nos filmes americanos) para se dormir contente ou frustrado.

Ontem, ao entrar no Sesc Ipiranga, senti a nostalgia daquelas noites de devoção. Apenas sabia que hoje não leríamos as críticas, como era o costume. Ontem, procurei no saguão e na plateia remanescentes de minha época de formação e descoberta e dei com vários. De qualquer maneira, a mágica continua. Estariam no palco Miriam Mehler e Renato Borghi, os dois com 80 anos. Numa encenação insólita de Lazzaratto, diretor corajoso que enfrentou há pouco tempo a indiferença inexplicável da crítica com sua Diáspora, espetáculo forte, com 40 atores em cena. Além de atualíssimo, veja-se o documentário Human Flow, do chinês Weiwei. 

Renato e Miriam mostram que não vão encerrar carreira sem terem feito um Shakespeare, em uma peça das mais célebres, que tem cerca de 427 anos. Já vimos todos os tipos de Romeu e Julieta, até com Oscarito e Grande Otelo em uma deliciosa chanchada. Mas é preciso assistir à Miriam e ao Renato dando frescor e intensidade ao casal símbolo de paixão através dos séculos. Curiosa e arrojada encenação.

Sei que foi em 1964, não me lembro o mês. Quem não viveu aquele ano não sabe como tudo era confuso, esquisito, medroso. Todas as noites, eu saía do jornal às oito e meia direto para o Teatro Oficina no mesmo lugar em que ele está hoje, mas com arquitetura diferente.

Sim, todas as noites eu ia assistir a Andorra, de Max Frisch, dirigida por Zé Celso Martinez Corrêa. Ia porque tinha Miriam Mehler, lindinha de doer, num belo papel. E eu invejava Renato Borghi que contracenava com ela, imaginava que fossem namorados. Borghi e eu tínhamos apenas um ano de diferença na idade. A pensão da dona Nina na Alameda Santos em que eu morava – Zé Celso ocupava um dos quartos – era a duas quadras da casa do Renato, filho de uma família de posses, belo apartamento. Nos relacionávamos. Mas Miriam não namorava Renato que, por sua vez, amava Albertina Costa, espécie de musa do Oficina. Miriam casou-se com Claudio Marzo naquele mesmo ano de 1964, e todos os apaixonados por ela tomaram um porre na noite do casamento. Muitas mulheres também lamentaram, Claudio era belíssimo e bom ator.

Belos tempos em que esta idade, 80, parece ser recomeço. Renato Borghi mostrou toda sua força, recentemente, ao interpretar O Rei da Vela, ficando três horas e meia no palco, e colocando sua voz no fundo da plateia, porque aprendeu a fazer isso. Hoje, há atores que não ouvimos na primeira fila. Fui daqueles que vibrei na plateia, por ele e pelo Zé Celso. Miriam é um deslumbre. Os dois são uma bela história de amor ao teatro também. Gosto dessas sensações que me confundem, fascinam. A pessoa de 80, mas que para mim ainda tem 20 e poucos, com imagens misturadas de maturidade. Fluxo da vida. Gosto de continuar apaixonado por pessoas e interpretações. Vou rever e rever Romeu e Julieta. Sem esquecer que no palco ainda estão Elcio Nogueira Seixas e uma ótima jovem atriz, Carol Fabri. Quem escreverá, daqui a dezenas de anos, uma crônica assim para Carol?

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