FERNANDO STANKUS/DIVULGAÇÃO
FERNANDO STANKUS/DIVULGAÇÃO

Minimalista, peça 'OE' trata de amor e culpa

Dirigida com precisão por Márcio Aurélio, obra se debruça sobre dilemas do escritor japonês Kenzaburo Oe

Maria Eugênia de Menezes, O Estado de S. Paulo

19 de maio de 2015 | 03h00

CRÍTICA - Ator Eduardo Okamoto não dramatiza embates do escritor

O nascimento de um filho é a descoberta de um mundo novo. Mas o nascimento de um filho que em nada corresponde àquilo que se sonhou pode ser a descoberta das entranhas desse mundo: algum tipo de vertigem terrível, uma queda sem anteparo, uma confusão de amor e culpa. Em cartaz no Sesc Consolação, OE é um espetáculo inspirado na obra do escritor japonês Kenzaburo Oe – vencedor do Nobel de Literatura de 1994 –, que trata extensivamente em seus romances da condição de seu primogênito, um menino que sofre de uma deficiência intelectual congênita.

Sozinho em cena, o ator Eduardo Okamoto percorre a estupefação e o afeto extremo do escritor sem incorrer na tentação de dramatizar os embates e as agruras desse pai (e desse filho). Sempre sóbrio e atento às filigranas, o diretor Márcio Aurélio vale-se de poucos e precisos recursos: cenário reduzido ao essencial, alguns objetos, uma movimentação desenhada e breves oscilações na voz.

Quando teve seu primeiro filho, em 1964, Kenzaburo Oe já era um autor promissor. Havia lançado dois romances e uma série de contos. Mas há críticos que acreditam que sua literatura só ganhou corpo e forma com a presença da criança. No livro Uma Questão Pessoal ele se escondia por trás de um personagem fictício, Bird, para contar a história de um homem que não suporta a possibilidade de ter sua vida atrelada à de um filho doente – eternamente dependente.

Apesar da mirada biográfica de OE, não soaria exato definir a obra por esse viés. É mais próximo da poesia, em que os acontecimentos não respeitam uma ordem lógica ou temporal, que a dramaturgia assinada por Cássio Pires pode ser localizada.

Toda a montagem se estrutura sobre um compêndio de cenas curtas; quase três dezenas de imagens a evocar um penoso percurso de aprendizagem: como aceitar quem nasce? Como começar a morrer?

É preciso esclarecer que nenhum título específico de Kenzaburo está sendo encenado. Existe, contudo, um olhar detido sobre Jovens de um Novo Tempo, Despertai!, romance no qual ele se dedicou a escrever, como um legado para o filho deficiente, uma espécie de “manual de definições do mundo, da sociedade e do ser humano”.

Não é trivial conceituar – para quem vive aparte do mundo – o que seria um pé; ou como se define um sonho. A pretensão didática, porém, desmorona rapidamente. Aquele que é ‘puro’ não vê o mesmo que nós – sublinha a obra. E quem rejeita (ainda que brevemente) o que deveria ser o seu objeto maior de amor – um filho – jamais voltará a sentir-se inocente.

Da inocência perdida. Da imperfeição do amor. Há força no que aparece nessas cenas curtas. No drama que não quer dizer de todas dores. Nesse espetáculo que não se dá a ver por inteiro. Como um equilibrista sobre o abismo, Eduardo Okamoto leva o público a vislumbrar esse mundo em que somos tão sós. Mas também tão imersos no outro. A carregar, sem trégua, passado e futuro. 

OE

Sesc Consolação. Espaço Beta. Rua Dr. Vila Nova, 245, tel. 3234-3000. 2ª a 4ª, às 20 h. R$ 6/ R$ 20. Até 3/6.

Mais conteúdo sobre:
Teatrocrítica

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.